O Leicester City atravessa uma fase tenebrosa na Premier League. O time não sabe o que é vencer um jogo desde o primeiro dia do ano, quando bateu o Everton. A sequência horrorosa de seis derrotas em sete partidas inclui ainda a eliminação na Copa da Inglaterra, diante do Newport County, da quarta divisão. De um elenco com qualidade para se estabelecer na metade de cima da tabela, as Raposas despencam e os oito pontos de vantagem sobre a zona de rebaixamento não oferecem grandes confortos. Por isso mesmo, Claude Puel perdeu o seu emprego no último final de semana. E não demorou para a diretoria encontrar seu substituto. Brendan Rodgers foi confirmado já nesta terça-feira, assinando contrato até junho de 2022.

Especulado ao longo das últimas semanas, Rodgers surgiu como um nome quente no mercado ainda nas primeiras horas do dia. O Leicester entrou em contato com o Celtic e o clube permitiu a negociação de seu comandante. Pouco depois, o anúncio era oficializado. Enquanto o norte-irlandês chega ao Estádio King Power, os Bhoys já confirmam o seu substituto. Neil Lennon retorna ao Parkhead. O ex-volante comandou os alviverdes entre 2010 e 2014, faturando dois títulos escoceses. Já nos últimos meses, fazia um bom trabalho no Hibernian, mas a briga com um funcionário da agremiação culminou em sua saída. Reassume o cargo em Glasgow com o time na liderança da liga, oito pontos à frente do rival Rangers.

Apenas uma hecatombe tiraria o título de Brendan Rodgers com o Celtic, seu terceiro no clube. E não é apenas a oferta financeira ou a oportunidade de retornar à Premier League que o levaram a abandonar o barco em Parkhead. Durante os últimos meses, os atritos vinham minando os espaços do treinador. Não recebia grandes reforços da diretoria, limitados a empréstimos de curto prazo, da mesma maneira como bateu de frente com alguns jogadores. Assim, o Leicester juntou a fome com a vontade de comer. Apesar da mudança repentina, o adeus pode ser considerado como um processo natural nestes três anos. Rodgers viveu bons momentos com os Bhoys e tinha o apoio da torcida, mas faltavam resultados principalmente além das fronteiras. A eliminação precoce na Liga Europa, diante do Valencia, é outro motivo que explica sua decisão.

Sobre seu adeus, Rodgers dedicou palavras bonitas aos Bhoys: “Torço pelo Celtic durante toda a minha vida e essa foi a razão pela qual vim a Glasgow, trabalhar para o clube pelo qual tenho tanto amor e carinho. Desde o momento em que cheguei a Parkhead, venho vivendo meu sonho e, junto com jogadores, comissão técnica e torcedores, estivemos em uma jornada incrível. Dei meu máximo ao clube. Gostaria de agradecer a diretoria pela oportunidade e pelo apoio. Queria ainda fazer uma menção especial aos jogadores, com quem foi um prazer trabalhar. Agradeço pelo comprometimento e pela motivação que eles me deram a cada dia. Cada um será meu amigo pelo resto da vida. O Celtic será para sempre meu clube e desejo a cada um conectado ao Celtic o sucesso no futuro”.

Este será o primeiro trabalho de Rodgers na Premier League desde que deixou o Liverpool. Se as perspectivas com os Reds foram limitadas, batendo na trave quando teve a chance de conquistar o título nacional, a melhor impressão que deixou foi à frente do Swansea. Deu continuidade ao processo iniciado por Roberto Martínez e levou os galeses à primeira divisão, praticando um futebol de qualidade técnica e competitividade. Neste sentido, a maior questão sobre Rodgers no Leicester será a forma como aplicará suas ideias. Embora goste da posse de bola, este não é muito o padrão das Raposas, sobretudo pela objetividade praticada na conquista do título com Claudio Ranieri em 2015/16. Além de apagar o incêndio, o novo comandante seria um projeto de longo prazo à mentalidade no Estádio King Power.

O norte-irlandês manifestou sua satisfação na nova casa: “Sou muito privilegiado e honrado por estar aqui como técnico do Leicester. Darei minha vida para fazer esses torcedores orgulhosos. Juntos, seremos mais fortes. Certamente eu não tinha pressa em deixar o Celtic. É um clube enorme em todo o mundo, reconhecido e adorei trabalhar por lá. Estávamos em uma jornada de muito sucesso, mas quando chegou a oportunidade de falar com o Leicester, isso me permitiu pensar que eu conduzi o Celtic ao máximo que poderia. Minha mensagem ao Leicester é ser forte dentro e fora de campo. Quero um time realmente agressivo, com e sem a bola”

Será um casamento interessante de ver. Brendan Rodgers possui uma personalidade enérgica, algo importante em um vestiário como o do Leicester, de gênios fortes. Além disso, o treinador pode aproveitar o potencial de alguns jogadores do grupo de diferentes maneiras. Precisará moldar aos poucos o padrão da equipe, mas é um nome indicado a realizar este trabalho. Ainda mais em uma temporada tão dolorosa às Raposas, com a morte do presidente Vichai Srivaddhanaprabha, a introdução de uma filosofia distinta traz outros horizontes ao elenco. De qualquer maneira, a missão inicial é recuperar o moral e voltar a emendar vitórias na Premier League, para evitar qualquer risco.

Brendan Rodgers demonstrou que não é treinador para um clube do calibre do Liverpool. Em um gigante adormecido como o Celtic, resgatou uma dose de orgulho. E entre as opções do Leicester, a aposta é bastante válida. Será uma relação que talvez demore a dar frutos, mas coloca um personagem tarimbado em um time com capacidade para ir além de sua atual campanha na Premier League. É ver como se constroem os novos laços no Estádio King Power.