Brasileirão foi esperado como um banquete, mas chegou como um pastel de vento

Maio é aquele mês muito esperado no futebol brasileiro. Acabaram os estaduais, finalmente. Nós comemos a salada e os legumes e agora é o momento de saborear o prato principal, o Brasileirão. A expectativa talvez seja até injusta com o que o campeonato oferece, mas a carência é tanta que esperamos ansiosamente. E passada a primeira rodada e seus 10 jogos, o que vimos foi um festival de jogos com um só gol. Ou nem isso. Foram 14 gols em 10 jogos. Deliciosa média de 1,4 gol por jogo. O banquete de Brasileirão foi, no máximo, um pastel de vento. E nem a massa era boa…

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Cinco jogos da primeira rodada acabaram 1 a 0: Flamengo 1×0 Sport, Atlético Mineiro 1×0 Santos, Coritiba 1×0 Cruzeiro, Botafogo 0x1 São Paulo, América Mineiro 0x1 Fluminense. Outros três jogos acabaram em 0 a 0: Corinthians 0x0 Grêmio, Figueirense 0x0 Ponte Preta, Internacional 0x0 Chapecoense. Só dois jogos fugiram ao padrão: Palmeiras 4×0 Atlético Paranaense e Santa Cruz 4×1 Vitória.

A Ligue 1, conhecida por aqui também como FRANCESÃO, é uma liga com fama de poucos gols. Não é por acaso. Há alguns anos, conversava com uma pessoa sobre apostas em ligas europeias. Nunca entendi muito de apostas e ele me falou sobre apostas relativamente seguras que se poderia fazer: apostar em menos de dois gols por jogo em uma rodada da Ligue 1; apostar em mais de dois gols por jogo em uma rodada da Eredivisie (Campeonato Holandês). Há um pouco de brincadeira nisso, claro.

A fama do Francês ser uma liga com poucos gols se diluiu um pouco com a chegada do PSG e seu poderio milionário e goleadas enormes. Mas, de fato, a média de gols da Ligue 1 é mais baixa comparada às outras grandes ligas. Levantamos, então, a média de gols marcados nas seis principais ligas da Europa em termos de gols marcados. Comparamos com a última temporada completa do Brasileirão e com a primeira rodada deste ano (este último só para mostrarmos por que a sensação desta primeira rodada foi tão ruim).

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Como se vê, a Ligue 1, de fato, não é das ligas com mais gols. E, por outro lado, a Eredivisie, da Holanda, é de fato a liga com mais gols. A média de gols, claro, não quer dizer qualidade de jogo ou de futebol. É uma característica das ligas e é possível ver um pouco dessas diferenças. Os campeonatos na Holanda costumam ter mais gols mesmo, até pelo estilo de jogo dos times, mais ofensivos, muitos usando variações do clássico esquema 4-3-3 com dois pontas abertas.

A essa altura, algum de vocês já está arrancando os cabelos dizendo “Como alguém compara uma rodada ruim à média de um campeonato inteiro?”. Calma, antes de me xingar, não é essa a ideia. Foi só para ilustrar um pouco das características de cada uma das ligas. E como o nosso amado, salve, salve, Campeonato Brasileiro ainda está longe disso. E se já não estava bom na média, nessa primeira rodada não deu para se animar muito. É só para ilustrar a razão de ficarmos com a sensação que o Brasileirão não encheu a barriga.

O fato da primeira rodada do Brasileirão ter sido ruim não quer dizer que continuará assim. É seguro dizer que essa foi uma rodada ruim e certamente a média ficará muito mais próxima da que tivemos ano passado, passando de dois gols por jogo, como quase qualquer campeonato do mundo.

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Enquanto isso, na CBF…  

O duro é pensar que nós queremos ter um campeonato que possa ser tão forte quanto sabemos que tem potencial para ser. Quando dizem que o Brasileirão é um dos campeonatos mais equilibrados do mundo, não é um exagero. De fato, aqui a situação é mais complicada de prever do que em outros, porque aqui há muitos times fortes regionalmente que se tornam gigantes. Raramente vemos casos de times serem sacos de pancadas (você foi exceção, América de Natal de 2007).

Só que em vez de buscarmos melhorar o que temos de melhor, copiamos as coisas mais estúpidas que as grandes ligas europeias fazem. Nós temos problemas graves especialmente no calendário, com um excesso de jogos no ano causado, principalmente, pelos estaduais. Aqui não se respeita nem data Fifa (e aqui pouco importa se você não liga para jogos de seleções, porque os jogadores defenderão seus países e desfalcarão o seu time).

A CBF tratou de importar algumas perfumarias para dar um ar de organização, como por exemplo a entrada dos dois times em campo, juntos, lado a lado, como acontece em competições como a Copa do Mundo, Champions League e algumas ligas europeias, como a própria Premier League. Muda muito pouco para o campeonato. Teve também a criação do hino. Outra das medidas que não mudam para melhor o campeonato. E a música ainda é ruim.

Tivemos medidas que podem ser interessantes e até que era pedido dos técnicos. A padronização do tamanho dos campos (105 x 68 metros) por exemplo, é uma medida controversa, mas era falada por treinadores como Levir Culpi há algum tempo. Os jogos às segundas, 20h, também pode ser interessante, como falamos aqui. Mas calendário? Isso não se mexeu.

Entre as medidas que tratam mais da embalagem do que do problema, tivemos ainda o episódio abertura. Aconteceu neste domingo, no jogo entre Corinthians e Grêmio na Arena Corinthians, em São Paulo. O problema é que seis jogos já haviam sido disputados. Inclusive no sábado.

A polêmica gerou uma publicação da CBF no Facebook justificando a ideia. Veja as respostas da CBF:

Por que fazer a cerimônia no domingo, se os primeiros jogos do Brasileirão foram disputados no sábado?

Será sempre na casa do atual campeão. No caso de 2016, o vencedor de 2015 (Corinthians). Pela tabela, definida pela Diretoria de Competições da CBF em diálogo com clubes, federações e as emissoras que têm os direitos de transmissão, o Corinthians teve sua estreia marcada para 16h de domingo. Por isso, fizemos nesse dia.

Mas o campeonato já tinha começado…

Essa prática não é incomum no meio esportivo. A abertura dos Jogos Olímpicos, por exemplo, é realizada depois do início da competição propriamente dita.

Por que na Arena Corinthians?

É a casa do atual (2015) campeão. Em 2017, pode ser na casa do seu time. Quem sabe? Se ele for o campeão de 2016, vamos fazer uma linda cerimônia no estádio em que ele jogar.

Por que fazer a festa tão cedo? Grande parte da torcida ainda não tinha entrado…

As partidas têm um protocolo, que inclui aquecimento dos goleiros, jogadores de linha, entrada dos times e da equipe de arbitragem, Hino Nacional… A cerimônia começou às 14h30 para dar tempo de ter o show do Péricles (Valeu, Periclão!!!). Importante lembrar que, quando a galera já estava toda no estádio, parte do espetáculo foi reapresentado, com entrada das bandeiras dos 20 clubes e o Hino do Brasileirão sendo cantado com a presença de uma orquestra.

Disse que em eventos como a Olimpíada também acontece, o que é verdade. Ainda que o evento seja diferente e algumas modalidades exijam mais tempo do que o preciso em calendário. Idealmente, não deveria acontecer em evento nenhum. Ainda mais quando não há a desculpa do calendário.

O Corinthians deveria mesmo abrir o Brasileirão, com cerimônia e tudo, mas que fosse no sábado, com a devida transmissão – ainda que na TV a cabo, se a TV aberta não quisesse passar a cerimônia, como não passou. E não precisa ser um show muito longo. Pode ser algo curto, rápido, que seja só uma marcação que o campeonato começou. Quem sabe um jogo entre o campeão da Série A e o campeão da Série B? Não seria tão difícil de montar na tabela.

Enfim, estes são só alguns pontos de um campeonato que abriu decepcionante. A média de gols começou ruim, mas vai melhorar. Só que queremos que melhore a níveis da Bundesliga. Que mais do que a média de gols boa, como a da Eredivisie, que tenhamos um futebol de Bundesliga, de Premier League. E não só os seus protocolos.

O Brasileirão é um campeonato incrível, cheio de times grandes, camisas pesadas, tradição… Mas ainda nos falta organização, de valorização do campeonato, de fazer com que o Brasileirão seja uma das maiores ligas do mundo. E um ponto crucial é que com o calendário que temos, ele nunca será.

Queremos melhorar para não termos essa sensação que o Brasileirão chega quando todo mundo já está um pouco cansado dos estaduais. Quando os times entram em campo com reservas, como Atlético Mineiro e São Paulo, porque estão em meio a uma disputa importante do mata-mata da Libertadores. Para não termos que discutir o início do campeonato mais importante do calendário brasileiro só no quinto mês do ano e depois vermos os times jogarem quarta e domingo até o fim do ano, atropelando Copa América, Olimpíada, data Fifa e tudo mais, além de não dar tempo para os times treinarem e se recuperarem entre os jogos. Como está, o Brasileirão é um moedor de jogadores. Uma prova de resistência.

Não é nenhum delírio acreditar que é possível tornar o Brasileirão uma das melhores ligas do mundo. O delírio é que esses dirigentes que temos, nos clubes e na CBF, façam isso. Nosso papel, enquanto site de futebol, é cobrar. E nós iremos cobrar. Por uma liga independente da CBF. Por um campeonato do tamanho da tradição e do peso do futebol brasileiro. Você aí merece. Todos nós merecemos.