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Vivendo a maior façanha da Copinha, o Batatais também tem o melhor herói: o goleiro Gerson

O inchaço da Copa São Paulo é motivo de extensos debates. A cada ano, o torneio de juniores amplia mais o seu número de participantes. Muitos argumentam contra a queda do nível técnico e as adaptações esdrúxulas no regulamento. Mas, ao mesmo tempo, a inflada Copinha oferece mais chances a promessas buscarem o seu lugar ao sol, em tempos nos quais os grandes clubes já captam tantos jovens talentos desde cedo. Dá espaço a uma surpresa como o Batatais aparecer e de um garoto como Gerson se tornar herói. Em sua terceira disputa de pênaltis na competição, o goleiro pegou três cobranças do Botafogo e colocou o Fantasma da Mogiana nas semifinais. Uma façanha imensa para quem sequer passou da primeira fase do Campeonato Paulista Sub-20.

A história de Gerson, por si, já mereceria um capítulo a parte, brilhando na Copa SP ou não. O jovem de 19 anos surgiu no Olé Brasil, clube-empresa que faz um trabalho referendado na base, e defendeu também o Botafogo de Ribeirão Preto, antes de partir ao Batatais. Em 2015, viajou à Europa para realizar testes no Sporting. Porém, convidado para jogar a liga portuguesa de base, não se mudou a Lisboa. Na mesma época, perdeu sua irmã em um acidente de carro. O goleiro, então, abandonou a promissora carreira para ajudar a família. Trabalhava com a mãe em uma confecção de Jardinópolis, sua cidade natal.

O retorno ao futebol aconteceu após um ano, em 2016, convidado para voltar à meta do Batatais. Gerson chegou ao time durante o Paulista Sub-20, ganhando a vaga como titular após uma derrota por 7 a 1 para a Ferroviária. Perdeu para o Votuporanguense por 4 a 1 em sua estreia no torneio, mas seguiu com o time. O Fantasma da Mogiana acabou caindo na fase de classificação, oitavo colocado em uma chave de 12 times, na qual avançaram apenas quatro aos mata-matas. No início de outubro, Gerson disputou seu último jogo pela competição.

Um mês antes do início da Copa São Paulo é que Gerson foi avisado que disputaria o torneio, se juntando aos treinamentos. Por isso, sua forma física pode nem ser das melhores. Mas a técnica vem se mostrando excelente. De volta à competição após cinco anos, o Batatais foi abraçado pela torcida de Cravinhos a partir da fase de grupos. Ganhou os três jogos em uma chave que também contava com Sport, Comercial e Rio Claro. Nos 32-avos de final, o Fantasma da Mogiana derrubou nos pênaltis justamente a Ferroviária, que o massacrara há menos de um ano. Gerson pegou o pênalti que definiu a cobrança por 5 a 4. Já na etapa seguinte, vitória por 2 a 1 sobre o Sport. E, nas oitavas, nova penalidade espalmada pelo goleiro, eliminando a Ponte Preta.

Nesta quarta, atual campeão brasileiro sub-20, o Botafogo era o virtual favorito. No entanto, para avançar às semifinais, só importou o que aconteceu no gramado do Estádio José Liberatti, em Osasco. Melhor para o Batatais, que conteve a pressão dos cariocas durante boa parte do tempo, embora também pudesse ter matado o jogo nos contra-ataques. No tempo normal, Gerson já havia sido fundamental, afastando o perigo nas bolas aéreas e fazendo grande defesa em cabeçada de Igor Cássio. Ajudou a segurar o 0 a 0, que levou a decisão para os pênaltis.

Na marca da cal, o Botafogo teve a vitória nas mãos. O goleiro Diego pegou três das quatro primeiras cobranças do Batatais, que começou chutando. Bastava aos alvinegros converterem qualquer um de seus dois últimos chutes. Fernando carimbou o travessão. Depois, João fez e deixou tudo igual para os alvirrubros. E Gerson, que já havia voado no cantinho para defender o primeiro chute da série, levou a disputa para as alternadas, salvando o arremate de Kanu. Parecia que a vitória já tinha acontecido, com o goleiro comemorando bastante emocionado, prostrado no gramado. Na sequência, Guilherme colocou o Fantasma da Mogiana pela primeira vez em vantagem, 3 a 2. Até que Gerson selasse a classificação com sua terceira defesa, tocando com a ponta dos dedos a cobrança de Ion, que ainda explodiu na trave.

Na comemoração, Gerson exibiu a camiseta com fotografias da irmã, que sempre veste por baixo da camisa de jogo. Depois, concedeu uma fantástica entrevista ao Sportv, na qual dedicou a façanha à irmã, falou das inspirações de Marcos e Júlio César para usar o número 12 e comentou a forma física sem cerimônias: “Sinceramente, eu tô meio gordinho. Se eu fosse magrinho, com dois metros e meio de altura, talvez eu não pegasse esses pênaltis. Tenho 1,83 m de altura. E meu peso, vixe, nem sei quanto estou pesando”. Com os familiares presentes no alambrado em Osasco e companheiros de time, celebrou sob os gritos de “Gersim, Gersim” e “é o melhor goleiro do Brasil”.

Nas semifinais, o Batatais faz duelo do interior contra o Paulista de Jundiaí. Outra chance para Gerson brilhar ou para outro garoto comandado pelo técnico Paulo Fábio Lippi Júnior – como Douglas Pote, Wislem e Thales, também destaques da equipe. O sonho de um modesto clube do interior se faz real graças ao empenho que seus meninos apresentam na “inchada” Copinha. A epopeia de um goleiro baixo, gordinho, que viveu um enorme drama familiar e abriu mão de uma oportunidade na Europa, mas se tornou herói no principal torneio de base do país. Guri este que dá até a impressão de que poderia ser o seu vizinho, tamanha simplicidade e carisma, ganhando agora a simpatia em vários cantos do Brasil.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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