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Victor e vitória – a revisão histórica do Clube Atlético Mineiro

Nasci em 1981, dez anos depois da disputa do primeiro Campeonato Brasileiro, conquistado pelo Atlético Mineiro. Um título que, até poucas horas, era o mais importante da história do clube. Comecei a me envolver com o futebol em 1989 e desde lá vi vários clubes brasileiros levantando a taça mais cobiçada do continente. São Paulo, Grêmio, Cruzeiro, Vasco, Palmeiras, Internacional, até mesmo o Corinthians, alvo das maiores piadas a esse respeito e protagonista do que talvez tenha sido a mais taxativa entre as conquistas citadas. Não vi o Fluminense fazer o mesmo por um detalhe (chamado Cevallos), mas o tricolor carioca, em seguida, celebraria dois títulos nacionais em três anos, o que não é para qualquer um.

Dos que colocaram seu escudo nas plaquinhas do troféu da Libertadores, só não vi o Flamengo fazê-lo. A compensação veio em forma de dois títulos brasileiros daqueles bem improváveis, com treinadores “interinos efetivados” no comando, que comprovam a tese nada científica de que o rubro-negro se vira bem melhor no estrago do que com a calmaria. Vi também o Botafogo levantar uma taça importante solitária, como a sua estrela. Para completar o álbum de figurinhas dos chamados doze grandes (calma, que eu ainda vou voltar nesse assunto), faltava o Galo. Estadual não conta, não é mais importante faz tempo. Copa Conmebol? Não enche barriga. Faltava aquele título de peso inquestionável. Não falta mais.

De uns tempos para cá, muita gente tem tentado reescrever o conceito de “grande clube”. É verdade que o papo de que todo Brasileirão começa com oito, dez, doze credenciados ao título é pura cascata. Também é verdade, esta bem mais inconveniente, que os clubes de ponta do país são bem menos do que já foram um dia. Felizmente, ainda há uma rotatividade nesse grupo, provocada muito mais pela incompetência de quem não consegue se manter no topo, ainda que movimente mais dinheiro que outros. Na ânsia de pôr ordem no que nasceu para ser fluido, criamos, publicamos e nos revoltamos com listas subjetivas, que não provam nada e nunca poderiam provar.

Títulos são importantíssimos, evidentemente. São a razão de ser de qualquer um que esteja inserido em um ambiente declaradamente competitivo. Tê-los aos montes é prova de força. Não tê-los é um incômodo que nada pode curar. Ter patrimônio também é motivo de orgulho. E, se bem administrado, ajuda na hora de ampliar um currículo de conquistas. Mas o que torna um clube verdadeiramente grande é o seu espírito. Aquilo que uma campanha vitoriosa exacerba, mas uma campanha vexatória não apaga. Há uma ânsia doentia de medir o peso de cada camisa. Mas depois que ela se prova pesada, os quilinhos a mais só fazem diferença no ego de seu torcedor.

Se tivesse sucumbido ao Olimpia, o Atlético não seria menor do que amanheceu nesta quinta-feira. Assim como o clube não se apequenou quando caiu para a Série B. Pode ter deixado de ser competitivo por um longo tempo, o que é uma tragédia para qualquer clube de seu porte. Mas quem foi grande de fato, nunca deixa de sê-lo, ainda que não exerça a sua força de direito.

E não pense que estou falando apenas dos tais doze grandes. Observe uma Fonte Nova lotada em dia de Ba-Vi e ouse dizer que não é um duelo entre grandes clubes. O mesmo vale para um Atletiba, ou para qualquer clássico que você escolher entre Náutico, Santa Cruz e Sport. A grandeza dessas instituições paira sempre no ar, por mais que por vezes elas sejam destratadas severamente por quem as dirige. O mesmo pode ser notado no Ceará, no Pará e em mais alguns estados de sua escolha. Sem contar que para cada torcedor, o maior de todos sempre será o seu clube. Sem ele, nada faria sentido. E não importa se ele é um apaixonado entre milhões, entre milhares, ou apenas entre algumas dezenas de abnegados.

Afinal, dono do terreiro

O rosto da conquista atleticana é o do goleiro Victor. Que defendeu um pênalti aos 49 do segundo tempo do jogo de volta contra o Tijuana. Que voltaria a brilhar em decisões por pênaltis contra Newell’s e Olimpia. Para chegar lá, o Galo contou com a regularidade de Tardelli, os lampejos de Ronaldinho, a energia de Bernard, a artilharia de Jô a estrela de Guilherme e Leonardo Silva e o esforço de jogadores que cumpriram, bem ou mal, o seu papel de coadjuvantes. Mas a cara da conquista é de Victor, não só pelos milagres, mas também pela concentração demonstrada quando o calo apertava. Pelas batidas no peito antes da cobrança da penalidade que foi parar no travessão e na memória de milhões de alvinegros.

Naquele instante, o goleiro personificava um Atlético Mineiro que chutava para o inferno anos e anos de um complexo inferioridade para quem tem uma história tão marcante, uma torcida tão devota e aquele peso todo ao qual eu me referia. Um peso que é abstrato e, por isso mesmo, não se materializa necessariamente em taças. Escancarava o que todos que gostam de verdade de futebol já sabiam, sejam atleticanos, cruzeirenses ou pessoas que, como eu, não tinham nada a ver com essa disputa (e ao mesmo tempo, sentiam como se tivessem tudo, à medida que eram absorvidos pela agonia da final): que o Atlético sempre foi grande.

Por isso mesmo, foi ótimo que a final não tenha sido disputada no Independência. Além de caber mais gente no Mineirão, ficou claro que a mística não era do Horto, mas sim do próprio Atlético. Por isso mesmo, também foi muito bem vindo que o título tenha sido permeado por arroubos de sorte de um bom profissional, que vinha batendo na trave há algum tempo, e tinha todas as suas derrotas creditadas ao azar, ou a um desequilíbrio emocional que mais trouxe charme à sua figura do que subtraiu de sua competência. Os fantasmas espantados pelo Atlético não colocavam a história do clube em risco. Os que Cuca enfrentava poderiam abreviar as chances de uma carreira que tem tudo para ser brilhante.

Calma, amigo cruzeirense (embora essas linhas sirvam pros torcedores de qualquer grande clube). Obviamente, não estou pregando aqui que você saia por aí reconhecendo a grandeza de seu rival, o enchendo de elogios e aplaudindo suas conquistas. Faz parte do jogo que você faça pouco caso de tudo que ele faz de bom e judie com crueldade de toda desgraça que acontecer com ele.

Não quero que você admita isso para mim, mas você sabe muito bem que quanto maior a rivalidade, maior a aceitação da ideia de que você está diante de alguém que tem o mesmo peso que o seu clube (OK, um pouquinho menos, porque ele nunca terá você ao lado dele). Só existe entre rivalidades entre iguais. Entre desiguais, só restam obrigações. Quando se perde para um arqui-inimigo, a dor maior é perder dele. Quando se perde para alguém inapelavelmente menor, a dor é a de não saber colocar a sua superioridade em questão. Sabe o yin e o yang? É assim que funciona. Do contrário, você pode até amar o seu clube, mas não gosta de futebol. E quem não gosta de futebol, não ama clube nenhum, perdoe-me a franqueza.

Não importa para qual clube você torce, se depois de ontem, você ainda se nega a ver que o Atlético é um dos grandes, o pequeno é você. Pequenino. Diminuto. Inexpressivo. Do tamanho de um grãozinho de areia perdido em meio à vasta história de sonhos e sangue da América do Sul, território onde quem manda no momento é um certo galo, forte e vingador. Um grande sempre sabe reconhecer a grandeza alheia. Um grande fecha a cara com a conquista adversária, planeja derrubar o rival, mas, secretamente, admite que um terreiro que se preza sempre tem mais de um dono. Do contrário, de nada valeria conquistá-lo, por um instantinho que seja.

O tão aguardado dia do Atlético chegou e, a despeito do que digam os seus rivais, a Ciência, o papa ou a morte, não passará nunca mais para o seu torcedor. O tempo pode tudo, mas esta ninguém tira.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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