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Última decisão entre Botafogo e Vasco foi a perfeita expressão do futebol brasileiro nos anos 1990

Ah, os anos 1990. Época de ouro do futebol brasileiro. Período de grandes duelos, clássicos simbólicos, rivalidades à flor da pele, craques em nossos campeonatos e grandes figuras tanto dentro quanto fora dos gramados. As rivalidades eram infladas pelo comportamento jocoso de alguns dos principais atletas do país, e Edmundo foi um desses personagens que ajudou a fazer surgir tantos episódios folclóricos do futebol nacional. A dancinha para cima de Gonçalves, em 1997, foi uma delas. Na decisão do Campeonato Carioca daquele ano, o último decidido entre Vasco e Botafogo, o pano de fundo era a briga política, mas os grandes ingredientes foram mesmo a provocação do Animal e o revide botafoguense.

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A percepção que os rivais tinham do Vasco não era das melhores em 1997. A boa relação de Eurico Miranda, então vice-presidente, com o mandatário da FERJ, Eduardo Vianna, o “Caixa d’Água”, possibilitou o adiamento das rodadas finais do terceiro turno do estadual daquele ano. O que motivou o Cruzmaltino a buscar a paralisação do campeonato foi a convocação de quatro de seus atletas para disputas com a seleção brasileira: Carlos Germano e Edmundo foram defender a equipe principal na Copa América, enquanto Pedrinho e Helton tiveram o Mundial sub-20. A medida revoltou o Flamengo, que retirou-se da competição. No fim, o Vasco conseguiu sua vaga na final graças ao primeiro lugar que conquistou justamente no terceiro turno, concluído após o fim da Copa América.

A revolta coletiva já era motivo suficiente para esquentar o clássico na decisão, e Edmundo não teve a mais prudente das atitudes para arrefecer isso. Pelo contrário, ao receber uma bola pelo lado do campo, parou frente a frente com Gonçalves, um dos grandes líderes daquele time botafoguense, e deu a famosa reboladinha para cima do marcador. O Cruzmaltino venceu aquela partida de ida por 1 a 0, mas acabou derrotado pelo mesmo placar na volta e ficou com o vice. Campeão dos dois primeiros turnos, o Botafogo entrara na final com a vantagem, e para ficar com o título o Vasco precisaria ter vencido também a segunda partida.

Na comemoração do título, é claro que os jogadores botafoguenses não esqueceram a provocação do camisa 10 e devolveram a mesma dancinha para o Animal. Sobretudo pela grande fase que Edmundo vivia, deveria ser gostoso poder dar a resposta para o craque. E isso tudo sem a necessidade de qualquer desgaste. Gonçalves mesmo contou em entrevista ao UOL, em 2012, que hoje é amigo do ídolo vascaíno: “Só fiquei sabendo [da dança da bundinha] quando cheguei ao vestiário. Estava muito próximo dele e olhando fixamente para a bola. Não percebi em campo. No vestiário todos estavam indignados e só acreditei quando revi o lance pela televisão. Hoje em dia somos muito amigos”.

A formalidade que tomou conta do futebol praticamente extinguiu momentos como esse. As declarações ensaiadas, as entrevistas sempre idênticas e o “respeito” ao adversário a qualquer custo assumiram o lugar da brincadeira e da provocação saudável, e neste sentido o futebol ficou mesmo chato – apenas neste, não confunda com a justificada repreensão a atitudes discriminatórias. Com personagens como Edmundo, a final deste ano, que já tem todo o potencial de ser marcante, poderia ser ainda mais especial. Quem sabe o espontâneo Jóbson não nos proporcione isso?

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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