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Túlio Maravilha, o falastrão que fazia, merece respeito pela bola que jogou no Botafogo de 1995

Bem humorado, falastrão e provocador. Túlio Maravilha tinha todos os elementos que fazem um jogador ser adorado (pela zoeira) no Brasil. Ainda assim, corroborava sua imagem com um grande futebol dentro de campo e cumpria o que falava, com muitas bolas na rede. Há 20 anos, o Botafogo conquistava seu último Campeonato Brasileiro, tendo um time aplicado e um craque evidente. Hoje em dia Túlio é mais associado à imagem brincalhona que só se reforçou com o passar dos anos do que ao grande futebol que chegou a apresentar, sobretudo naquele ano.

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Após passagem de uma temporada pelo Sion, da Suíça, Túlio retornou ao Brasil para defender o Botafogo em 1994. Comprado por US$ 1,4 milhão pelo clube de General Severiano, o atacante correspondeu rapidamente, voltando a ter oportunidades na seleção brasileira. Começou 1995 em alta, marcando em todos os jogos que disputou com a camisa do Brasil no primeiro semestre, incluindo três gols em um só amistoso, contra o Valencia. Ainda mais credenciado pelas atuações com a Amarelinha, o Botafogo sabia que podia contar com o atacante para sonhar alto, e foi basicamente isso que o conduziu pelo campeonato.

No primeiro turno, jogando apenas contra equipes de sua própria chave, o Botafogo acabou terminando a fase do campeonato na quinta colocação do grupo. Apesar de coletivamente o time ainda não ter atingido naquele estágio sua melhor forma no campeonato, Túlio já voava baixo desde o início. Anotou 10 gols nos 11 jogos da fase, incluindo os três gols da segunda rodada, em que, “sozinho”, deu a primeira vitória ao Fogão no campeonato (3×1 sobre o Paysandu) e o tento na vitória contra o Flamengo por 3 a 1, em setembro daquele ano, quando deixou o seu e saiu, é claro, provocando: “Consegui fechar a boca daqueles que diziam que eu não fazia gol contra o Flamengo”. Em entrevista ao Terra, Túlio revelou que aquele foi o pontapé inicial para a busca pelo título.

O Botafogo deslanchou de vez no segundo turno do Brasileirão, vencendo oito jogos e perdendo apenas um dos 12 disputados contra os clubes da outra chave. Túlio, mais uma vez, foi decisivo, marcando boa parte dos gols do time, dez dos 22 nesta parte do campeonato. Paralelamente a isso, expandia sua marca pessoal também fora dos gramados. Adorado pelos mais jovens, tornou-se o garoto-propaganda da 7Up, então patrocinadora do clube, trocando a camisa 9 pela 7.

Em suas entrevistas, reforçava com frases de efeito a imagem que passava também dentro de campo: “Túlio ou nada”, “Túlio bem”, “Eu sou o Cristo Redentor do Rio”. A faceta espontânea e sem medo das consequências de que tanto sentimos falta nos jogadores de hoje em dia estavam presentes na figura do goleador.

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A regularidade de Túlio na campanha da fase de pontos corridos se manteve também no mata-mata. Na semifinal, o Botafogo teve pela frente o Cruzeiro, que, para o ex-atacante, foi o adversário mais duro que o Alvinegro enfrentou. Na primeira fase, a Raposa havia liderado a chave, com uma campanha superior à do Palmeiras, segundo colocado no mesmo estágio do campeonato e que, antes, era apontado como o favorito a ficar com o título. Além disso, o Botafogo havia sido atropelado pelos mineiros por 5 a 3. Os cariocas jogavam pelos dois empates, e o gol de Túlio na ida, um empate em 1 a 1 em Belo Horizonte, fez a diferença, diante da igualdade sem gols na volta.

Na decisão contra o Santos, o goleador voltou a desequilibrar para o Botafogo, com gols nos dois jogos, tanto no 2 a 1 no Rio quanto no 1 a 1 em São Paulo. No Maracanã, o Fogão havia inaugurado o placar com Gottardo, aos 18 minutos do primeiro tempo, e sofrido o empate 20 minutos depois. Os cariocas poderiam ter se sentido ameaçados pelo gol de Giovanni, mas Túlio não esperou sequer o intervalo para fazer a diferença. Aos 44 minutos, aproveitou falha da zaga santista e fez o 2 a 1. O goleiro do Santos era Edinho, filho de Pelé, e o provocador não podia perder sua oportunidade: celebrou o tento com soco no ar, claramente imitando o Rei.

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“Vamos decidir. Agora chegou a hora do matador.” Foram essas as palavras de Túlio já dentro do gramado, instantes antes do início do primeiro jogo da final. Ele sabia que podia mesmo decidir. Durante todo o campeonato, havia falado demais e cumprido mais ainda. No jogo de volta, foi o autor do único gol botafoguense no 1 a 1 que definiu a conquista – em lance até hoje controverso, pelo impedimento não anotado por Márcio Rezende de Freitas, mesmo assinalado pelo bandeira. Precisando segurar o resultado contra um time forte, Túlio se converteu em um marcador árduo. Deu carrinho, distribuiu faltas, levou cartão, postou-se na defesa pronto para dar chutões que afastassem os ataques santistas.

Túlio é o grande nome individual daquela conquista do Botafogo. A última de Campeonato Brasileiro da equipe e primeira nacional desde o título da Taça Brasil em 1968, na década dourada do clube. O centroavante era espontâneo e não era seu plano ser conhecido como o jogador extrovertido. No meio do ano, até quis combater, com futebol, a visão de “bobo da corte” que tinham dele. Conseguiu, com seus 23 gols em 25 partidas e o protagonismo de uma conquista tão esperada. Artilheiro e campeão do Brasileirão, teve em 1995 o grande ano de sua carreira. Suas cenas na final, no entanto, não poderiam se resumir ao jogo. A imagem do goleador comendo grama, a provocação ao Fluminense, eliminado pelo Santos na semifinal, e a declaração de que era o “deus do futebol” após o título também entraram para a galeria daquela conquista. Nada mais Túlio.

PS: Sobre o título do Botafogo em 1995, vale acompanhar também o trabalho do jornalista Thales Machado, que lançou um livro sobre o assunto.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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