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Quem comemorou morte de Fernandão poderia aprender com esses exemplos

A arquibancada embrutece. Ganhar para ter o direito de tirar sarro na segunda se torna tão importante que muita gente esquece as coisas mais básicas. Por exemplo, respeitar pessoas que morreram ou momentos emocionalmente sensíveis e importantes do adversário. Uma realidade que um grupo de gremistas nos fez lembrar ao cantar “Fernandão morreu” antes do Gre-Nal deste domingo.

Obs.: a cena já é horrível por si só, mas ficou apenas pior quando a viúva do jogador relatou que estava no estádio com seus filhos, justamente no Dia dos Pais.

Não foram todos os tricolores que entraram na cantoria, nem foi a única vez em que isso ocorreu. Alguns rubro-negros cantaram “uh, vai morrer!” enquanto Ricardo Gomes tinha um AVC durante Flamengo x Vasco em 2011. Torcedores do ADO Den Haag imitam o som de câmaras de gás em jogos contra o Ajax devido à origem judaica do clube de Amsterdã. Ultras da Juventus levaram faixas para brincar com o acidente de Superga no último dérbi contra o Torino.

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Mas nem sempre é assim, ainda bem. Ser rival não significa que você precisa se desumanizar em nome da gozação. Há diversos exemplos, mas pegamos três relativamente recentes e conhecidos.

Real Madrid presta homenagens a Tito Vilanova

Por mais que a rivalidade entre Real Madrid e Barcelona tenha se acirrado nos últimos anos (sim, ela está pior do que era), houve momentos de cortesia e respeito. Quando Abidal se afastou do Barcelona, o Real entrou em campo vestindo camisas com as frases “Ánimo, Abidal” e “Get well soon, Abidal”. Quando o Tito Vilanova deixou o comando blaugrana, foi a vez do “Ánimo, Tito” aparecer. E, com a morte do técnico, a torcida merengue respeitou o minuto de silêncio no Santiago Bernabéu, aplaudindo o rival ao final da homenagem.

Atleticanos apoiam Tinga no clássico mineiro

A estreia do Cruzeiro na Libertadores foi das piores. O placar foi negativo (derrota por 2 a 1 para o Real Garcilaso), mas a tristeza foi ofuscada pela indignação de ver a torcida peruana imitar macacos sempre que Tinga pegava na bola. Dias depois, a Raposa enfrentou o Atlético Mineiro no Independência. E a torcida alvinegra fez um ótimo papel, levando faixas em solidariedade ao jogador cruzeirense (foto acima). O que não diminuiu em nada a rivalidade, viva em frases como “Racismo eu não desejo ao meu pior inimigo” e no canto “Tinga, vai se foder, mas no racismo nós estamos com você”.

A solidariedade do Everton após Hillsborough

O momento mais traumático da história do Liverpool foi a semifinal da FA Cup de 1989, em que 96 torcedores morreram em um superlotado estádio de Hillsborough. As autoridades culparam a torcida vermelha pela tragédia, uma forma de esconder o papel de sua própria incompetência. Os torcedores do Everton estiveram ao lado dos rivais o tempo todo, prestando homenagem e ajudando na pressão por novas investigações e justiça, o que acabou ocorrendo apenas nesta década.

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Se tudo isso pode parecer muito distante, gremistas e colorados poderiam se lembrar do que seus próprios clubes já fizeram nos últimos tempos. No dia do centenário tricolor, em 2003, o Internacional divulgou uma carta parabenizando o irmão mais velho pela data. Uma atitude que o Grêmio retribuiu seis anos depois, quando o rival soprou 100 velinhas (veja a troca de cartas aqui). E até no caso Fernandão isso já foi visto, com torcedores azuis indo ao Beira-Rio para se juntar às homenagens ao ídolo colorado no dia de sua morte.

É possível ser razoável sem deixar de ser rival.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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