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Se você se encantou com a Seleção de 1982, tem muito a agradecer a esse Palmeiras e Flamengo

A Seleção de 1982 não levou o título da Copa do Mundo, mas encantou com um futebol fluído e ofensivo que entrou no imaginário não só dos brasileiros, mas de fãs de futebol de todo o mundo. O talento individual dos craques daquela equipe foi o principal fator para a sua consagração, mas a figura de Telê Santana teve papel fundamental para que fossem criadas as condições que fizessem o time funcionar tão bem. A chegada do treinador ao comando da equipe, em fevereiro de 1980, foi construída a partir de seu trabalho ao longo dos anos, como nas boas passagens por Grêmio e Atlético Mineiro, e sobretudo do forte time que formou no Palmeiras em 1979. Mas houve um episódio em si bastante simbólico para que o Mestre Telê ganhasse força para assumir a Seleção. Em 9 de dezembro daquele ano, o treinador comandou uma vitória histórica do Alviverde por 4 a 1 sobre o Flamengo, de Cláudio Coutinho, em pleno Maracanã. Partida definida por Zico como a responsável por marcar a queda do Fla, de Coutinho e a chegada de Telê à Seleção.

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À época, Coutinho dividia seus esforços comandando tanto o Flamengo quanto a seleção brasileira. Até então, era prática comum que o treinador do Brasil também trabalhasse em um clube. Seus dias na equipe canarinho, no entanto, estavam contados. A pressão era grande por causa dos insucessos na Copa do Mundo de 1978 e na Copa América de 1979. Simultaneamente, Telê crescia à frente do Palmeiras.

Chamado para trabalhar com um grupo de jogadores comuns, com apenas Jorge Mendonça acima da média, e de olho nas categorias de base, o técnico teve bastante sucesso. No fim de 1979, o Alviverde vivia sua melhor fase. O time emplacou cinco vitórias por goleada entre a segunda metade de novembro e o começo de dezembro, com o jogo contra o Flamengo, no Maracanã, pelas quartas de final do Brasileirão sendo a principal delas.

No Flamengo, Coutinho tinha à sua disposição atletas que viriam a ser campeões mundiais em 1981, como Zico, Júnior e Adílio. Na véspera do confronto contra o Palmeiras, o presidente Márcio Braga demonstrava confiança, cravando que seu time avançaria e venceria o campeonato. Em campo, o futebol dos paulistas foi ainda mais contundente do que as palavras do mandatário do Fla. Jorge Mendonça abriu o placar, Zico empatou de pênalti, e Carlos Alberto e Pedrinho recolocaram o Alviverde à frente. Perdido em campo, o Flamengo ainda viu Beijoca perder a cabeça, socar Mococa e ser expulso. O cartão vermelho acabou com qualquer esperança de virada histórica por parte dos mais de 112 mil pagantes no Maracanã, e Zé Mário fechou o caixão, fazendo 4 a 1.

A força do resultado se expressava nos jornais. A Folha de S. Paulo chegou a escrever que havia sido “o mesmo silêncio de 50”, em seu caderno de esportes, de 10 de dezembro. No dia seguinte, a pauta de Telê como futuro treinador da Seleção crescia, e o técnico se viu até na necessidade de rechaçar as chances de assumir a equipe, dizendo que dirigi-la era um castigo.

Não há uma ligação direta entre o resultado daquele confronto de quartas de final de Brasileirão entre Palmeiras e Flamengo e a contratação de Telê Santana, que seria oficializada apenas em fevereiro de 1980. A verdade é que o incrível trabalho de transformar um time de atletas comuns e outros apenas jovens com potencial em uma equipe de futebol vistoso e ofensivo, ao longo de apenas nove meses, foi o que fez crescer a pressão por sua ida para a Seleção. Além, é claro, do descontentamento com Coutinho.

A vitória imponente por 4 a 1, no entanto, foi o resultado que melhor sintetizou a competência da empreitada de Telê no Alviverde. O fato de que tal jogo tenha acontecido justamente contra o então técnico da seleção brasileira foi simbólico demais para que as análises posteriores o ignorassem. A confluência de críticas aos métodos de Coutinho e de elogios aos de Telê encontraram naquele dia um terreno para a confirmação dessas comparações que existiam no campo da suposição. Um jogo que entrou não apenas nos registros de episódios marcantes de Palmeiras, Flamengo e do Brasileirão, mas que ajudou, indiretamente, a moldar uma das equipes mais memoráveis que o futebol já viu.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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