Brasil

Quem é André Negão, o poderoso vice do Corinthians que foi preso e virou alvo da Lava-Jato

“Galera, vice-presidente agride boneco no Corinthians” foi a legenda da foto que André Luiz de Oliveira, o André Negão, publicou em suas redes sociais para tirar sarro do São Paulo. Foi a época em que a diretoria de Carlos Miguel Aidar ruiu, depois de uma troca de agressões com o seu vice de futebol Ataíde Gil Guerreiro. André Negão estava feliz, não apenas pela crise no rival. O Corinthians caminhava para o título brasileiro, e ele, o primeiro vice-presidente de Roberto de Andrade, para a presidência, em 2018. Seria, em suas próprias palavras, o primeiro negro mandatário máximo de um time grande brasileiro na história. Mas, depois desta terça-feira, o trajeto ficou mais tortuoso para o ex-bicheiro e braço direito de Andrés Sánchez.

LEIA MAIS: Como a Lava Jato afeta Arena Corinthians e Maracanã

André Negão, primeiro vice-presidente do Corinthians, está sendo alvo da 26ª fase da Operação Lava-Jato, conduzida pelo juiz Sérgio Moro a partir do Paraná, que deflagra um mega esquema de corrupção no Brasil, envolvendo políticos, construtoras e a Petrobrás. Segundo a Polícia Federal, ele teria recebido R$ 500 mil de propina da Odebrecht, sob o codinome “Timão”, pela obra da Arena Corinthians. Na manhã desta terça-feira, foi conduzido coercitivamente para depor em ação autorizada por Moro. Acabou sendo preso em flagrante por porte ilegal de armas. Estava com duas pistolas. Ele saiu da prisão esta tarde sob fiança de R$ 5 mil. Nega ter recebido suborno, disse que a Lava-Jato ainda não o acusou de nenhum crime e se defendeu do porte ilegal de armas.

Foi por volta da metade dos anos noventa que André Negão aproximou-se de Andrés Sánchez. Sánchez entrou na vida interna do Corinthians naquela época por meio de Jacinto Antônio Ribeiro, o Jaça, então diretor de futebol amador. Foi incorporado a uma escolinha de futebol que era tocada por Manoel Ramos Evangelista, o Mané da Carne. Virou seu ajudante. Em seguida, André Negão, sócio de Jaça, também foi incorporado à escolinha.

Formou-se o grupo dos “quatro mosqueteiros”, segundo um perfil da Revista Época, em 2011. Quando Andrés Sánchez foi afastado da diretoria das categorias de base do Corinthians pelo vice-presidente de Dualib, Nesi Curi, Negão foi quem deu a ideia para trazê-lo de volta. Sugeriu que Sánchez, do PT, auxiliasse Wadih Helu na sua campanha a deputado estadual pelo PPB, em 2002. Helu foi presidente do Corinthians por uma década nos anos sessenta e era influente na gestão Dualib. O político conseguiu apenas uma vaga de suplente na Assembleia Legislativa, mas Sánchez e Negão ficaram com o prêmio que queriam: voltaram às graças de Curi e Dualib, e consequentemente, ao Corinthians. A pedido de André Negão, Curi interveio junto a Dualib para que os quatro mosqueteiros virassem conselheiros vitalícios do clube.

O baixo clero, como o grupo era chamado dentro do Corinthians, foi essencial na ascensão de Andrés Sánchez à presidência do clube, em 2007. E o dirigente não se esqueceu de quem lhe ajudou tanto. “Sou parceiro dos parceiros”, disse, à Época. Comprovou isso mantendo-os próximos: Jaça e Mané da carne viraram assessores especiais da presidência; André Negão tornou-se diretor administrativo. A fidelidade foi tanta que Sánchez cogitou levar seus escudeiros para a CBF, quando se tornou diretor de seleções e se viu isolado na entidade com a saída de Ricardo Teixeira. André Negão, efetivamente, foi chefe da delegação da seleção brasileira sub-20 na Copa Internacional do Mediterrâneo, em abril de 2012.

Seria natural que um deles fosse o sucessor de Sánchez na presidência do Corinthians. No mínimo, era algo que André Negão desejava, mas o braço direito do deputado federal aceitou esperar a sua vez. Quando Mario Gobbi deixou o cargo, ele foi novamente preterido, desta vez por Roberto de Andrade, mas com a promessa de que seria o primeiro vice-presidente no mandato que começava naquele momento e o próximo da fila da presidência. A distribuição de cargos feita por Andrade buscou acomodar esse interesse. Negão chegou a vetar um diretor de divisões de base como diretor de futebol para não correr o risco de ser novamente ofuscado.

Em entrevista ao UOL, afirmou que sonha em se tornar o primeiro presidente negro de um time de futebol da história do Corinthians, “talvez do futebol mundial, tirando os países africanos”. Ele já se considera o primeiro vice-presidente negro de um time grande no Brasil. “Parece que no Bahia teve um presidente negro, mas no eixo Rio-São Paulo nunca teve nem vice”, afirmou ao portal.

André Negão tem um filho com quem o Corinthians manteve contrato até o final do ano passado. O zagueiro André Vinicius, 24 anos, sofreu duas lesões sérias no joelho, foi emprestado nove vezes pelo time paulista e disputou apenas uma partida pelo time principal. Com um aumento de salário progressivo, chegou a ganhar R$ 40 mil ao fim do seu vínculo, que não foi renovado ano passado. Atualmente, ele está no CRB, de Alagoas.

O dirigente corintiano também teve atuação na vida pública. Segundo a Secretaria Municial de Esportes, Lazer e Recreação da cidade de São Paulo, André Negão foi comissionado do órgão entre 2006 e 2013 (gestões José Serra, do PSDB, e Gilberto Kassab, ex-DEM, atualmente no PSD). Primeiro, trabalhando na sub-prefeitura da Vila Maria e depois como coordenador do Clube Escola do bairro, uma estrutura grátis para a prática esportiva. Foi exonerado em 2013, primeiro ano da prefeitura de Fernando Haddad (PT), ainda de acordo com o órgão municipal.

Com pretensões políticas não apenas dentro do Corinthians, ele chefia o gabinete de Andrés Sánchez na capital paulista e, segundo a Folha de S. Paulo, pensava em ser candidato a vereador na eleição de outubro pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), cujo presidente nacional é Carlos Lupi, ex-ministro do Trabalho dos governos Lula e Dilma Rousseff. O PDT tem apenas um vereador na atual câmara de São Paulo, o advogado Wadih Mutran.

Em nota, o Corinthians afirmou que “quaisquer irregularidades ou desvios de conduta, constatados por autoridades ou não, serão devidamente apurados, e a Instituição tomará todas as providências para punir os responsáveis”. Na época em que teria recebido a propina, em outubro de 2014, André Negão não tinha cargo no clube. Andrés Sánchez, responsável pela Arena Corinthians depois que deixou a presidência, negou que tenha havido propina para qualquer um na construção do estádio e disse que o clube foi “vítima” da Operação Lava-Jato.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo