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Por que o Grêmio nunca consegue lotar a sua Arena?

Pessoas amontoadas, ombro a ombro, sem espaço para uma mosca entre elas. Eventuais cotoveladas e o desconforto são efeitos colaterais aceitáveis, dentro dos limites de segurança, para se sentir parte de uma multidão de apaixonados com um único objetivo em mente e viver a experiência de um jogo de futebol lotado. Mas desde que o Grêmio mudou-se do Olímpico para a Arena, em dezembro de 2012, o torcedor tricolor passou por isso apenas uma vez: no amistoso de abertura contra o Hamburgo.

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A Arena Grêmio, estádio novo e moderno no bairro de Humaitá, zona norte de Porto Alegre, nunca recebeu o público máximo em partidas oficiais. Isso é uma fonte de bastante frustração ao orgulhoso torcedor do clube, tão acostumado a lotar o Olímpico e fazer uma festa que não deve nada às dos hinchas mais apaixonados da América do Sul.

O amistoso contra o Hamburgo, primeiro jogo da história do estádio, em 8 de dezembro de 2012, recebeu 60.540 pessoas, recorde absoluto e, de certa forma, eterno. Na vitória do Grêmio sobre a LDU, nos pênaltis, na Pré-Libertadores do ano passado, a torcida comemorou com a avalanche e o alambrado cedeu. Oito pessoas ficaram feridas. Outra consequência foi a instalação de barras entre as arquibancadas daquela área para evitar a tradicional coreografia dos gremistas. A capacidade caiu para 55,5 mil.

Esse número também nunca foi alcançado, porém. O público máximo do Grêmio em partidas oficials corresponde às oitavas de final da Libertadores de 2014, contra o San Lorenzo: 47.244. Chegou bem perto de superar essa marca, com 46.441 contra o São Paulo, no começo de outubro, e 46.437 no Grenal, na última rodada. O público está cada vez maior, mas pelo menos até o ano que vem será difícil alcançar a lotação.

O executivo de marketing do clube Beto Carvalho aponta três motivos: os camarotes, com capacidade para “cerca de duas mil pessoas”, ainda não foram totalmente vendidos; o espaço para a torcida visitante dificilmente lota; e aproximadamente 20% dos sócios-torcedores que adquirem pacote de ingressos no atacado não vão a todas às partidas. Some tudo isso com públicos de 47 mil pessoas e chegaremos bem perto dos 55,5 mil.

“A percepção é de um estádio cheio”, afirma Beto Carvalho. “No último jogo, todos os ingressos foram vendidos, mas há uma quantidade de sócios que têm cadeira cativa e não precisam fazer check-in. Precisamos criar mecanismos (para evitar isso)”. Esse mecanismo seria exigir que o sócio-torcedor confirmasse presença antes da partida e vender os assentos restantes.

Essa autonomia virá apenas ano que vem, depois do grito de independência de Fábio Koff. O acordo com a construtora OAS para a construção do estádio foi firmado pela gestão anterior, de Paulo Odone. Ao assumir o clube, o histórico dirigente gremista começou a reclamar da falta de receitas por causa de pagamentos que tinha que fazer à construtora e entrou em atrito com a gestora Arena Porto-Alegrense, porque precisava pedir permissão para treinar e não podia baixar os preços dos ingressos se quisesse fazer uma promoção.

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Depois da assinatura de dois aditivos para melhorar as condições a favor do Grêmio, Koff conseguiu negociar com a OAS para o clube assumir exclusivamente a gestão do estádio (o acordo de R$ 360 milhões ainda precisa ser aprovado pelo Conselho Deliberativo). O grito de independência foi um “A Arena é do Grêmio” e permitirá mais maleabilidade para o clube mexer com o preço dos ingressos e mesmo alugá-la para outros eventos, como shows.

Em agosto, a OAS cedeu, e o Grêmio deu desconto de 30% no valor dos ingressos para a estreia de Felipão na Arena, contra o Criciúma. O preço promocional foi mantido para os duelos daquele mês contra Corinthians e Santos, pela Copa do Brasil. Mês passado, colocou à disposição ingressos mais baratos para as mulheres (R$ 10, R$ 20 a menos que para os homens) contra o Figueirense, jogo às 21h de um sábado. O departamento de marketing do clube ajuda a incentivar a ida à Arena com a execução de eventos no entorno, como jogos para as crianças, lançamento de camisetas especiais, essas coisas.

Isso ainda não está se refletindo no público geral. De acordo com dados do Footstats, a média de pagantes do Grêmio no Campeonato Brasileiro de 2013, o primeiro com a Arena, foi de 20.258 pessoas (não conta um jogo no estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul), com ingresso médio de R$ 38,43. Atualmente, está em 20.415, com um entrada média mais barata (R$ 32,68). É um crescimento em relação aos dois últimos anos do Tricolor no Olímpico, mas era de se esperar um aumento maior pelo tamanho e conforto da nova casa.

O acesso também é citado como um problema porque o Olímpico ficava em uma região central de Porto Alegre, e a Arena está na zona norte, mais próximo das saídas da cidade. “Ela é de muito fácil acesso”, rebate Beto Carvalho. “Digo mais: é muito melhor de ser acessado para quem vem de fora de Porto Alegre. É uma área nova, que ainda não foi muito frequentada. Passa pelo costume. Quando tu vais para uma casa nova tem que se acostumar. Aquilo que a gente chama de pertencimento. É o local, o deslocamento, toda aquela coisa que você conhece, sente-se em casa. Quando vai para outro lugar, tem que passar por tudo isso”.

E esse é o ponto chave. A torcida do Grêmio ainda precisa reconhecer a Arena como a sua casa, da forma como era o Olímpico. Descobrir onde ficam os interruptores mesmo com a luz apagada, descer as escadas de olhos fechados (não façam isso em casa, crianças) e saber exatamente quais portas emperram. Isso vem apenas com o tempo – e cada um lida com a novidade no seu ritmo – e com jogos emocionantes e marcantes. A goleada sobre o Internacional, no último final de semana, deve ter ajudado bastante.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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