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Por que o Corinthians está com dificuldades para fechar a conta do estádio?

Para o time que foi campeão mundial há menos de dois anos, a situação financeira do Corinthians é uma surpresa das mais negativas. A diretoria prevê um déficit superior a um Alexandre Pato (R$ 44 milhões) entre este ano e o próximo, já começaram as primeiras notícias de salários atrasados e um grande credor baterá à porte no meio do ano que vem. Em julho de 2015, o clube precisa desembolsar R$ 100 milhões para pagar a primeira parcela do Itaquerão para a Caixa Econômica Federal.

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O prazo assusta, principalmente porque alguns probleminhas ainda impedem que o Corinthians consiga tirar o máximo possível de dinheiro do seu estádio, apesar de liderar o ranking de arrecadação do Campeonato Brasileiro. E todo o dinheiro da bilheteria está sendo destinado ao pagamento da dívida.

Entre obras inacabadas e dificuldades para vender os naming rights, veja o que anda atrapalhando o fechamento da conta alvinegra.

Naming rights

A principal aposta do Corinthians para pagar as contas do estádio era a venda do naming rights, mas esse processo está no mínimo dois anos e meio atrasado, como o próprio Andrés Sánchez, homem forte por trás das negociações, confidenciou ao LANCE! em agosto. Há tratativas com empresas dos Emirados Árabes sendo realizadas há mais de um ano, pelo menos R$ 350 mil teriam sido gastos com despesas de viagens, e nenhum acordo ainda foi fechado.

Mário Gobbi tem a expectativa de concluir o negócio antes de deixar a presidência, em 31 de janeiro de 2015, e arrecadar R$ 400 milhões com a venda do nome da Arena, a princípio, por 30 anos, mas já se fala em um prazo menor (três, para o investidor conhecer o mercado, renováveis por mais dez). Na realidade, é justamente a extensão do contrato que está atravacando as negociações neste momento e nada garante que o preço previsto será alcançado.

No mercado de naming rights, ele pode ser considerado bastante elevado. Digamos que ele consiga os R$ 400 milhões por um contrato de 30 anos. Isso daria R$ 13 milhões por ano, uma média de aproximadamente R$ 270 por assento. Não é um valor absurdo, mas é alto. Equivale, segundo um estudo da consultoria KPMG, aos contratos das arenas de beisebol dos EUA, um mercado bem maior e desenvolvido que o brasileiro. Está bem acima da média por assento dos naming rights da Alemanha (R$ 123), Inglaterra (R$ 196) e até mesmo no Brasil. A Itaipava pagou R$ 100 milhões pelos direitos da Fonte Nova por dez anos (R$ 217 por assento).

Uma outra dificuldade apontada constantemente por Andrés Sánchez é a insistência por parte da imprensa de chamar o estádio de Itaquerão, como se um processo irreversível de batismo já tivesse sido iniciado. Mas todos conhecem o estádio do Palmeiras como Palestra Itália ou Parque Antarctica, e esse hábito será muito mais difícil de mudar. Nem por isso, a Allianz hesitou ao pagar R$ 300 milhões pelos próximos 20 anos, o que daria R$ 333 por cadeira. Vale ponderar que o Allianz Parque será bastante utilizado para shows, e nesse ambiente, não haverá nenhum pudor na utilização do nome oficial.

Abaixar o preço não depende (apenas) do Corinthians
Andrés Sánchez, ex-presidente do Corinthians
Andrés Sánchez, ex-presidente do Corinthians

“Ei, Andrés, aqui não tem burguês” começou a fazer parte do repertório de parte da torcida do Corinthians, irritada com os altos preços cobrados pelos ingressos da Arena de Itaquera. Não é à toa. Se o Corinthians tem de longe a maior arrecadação do Campeonato Brasileiro (R$ 29 milhões contra R$ 21 milhões do Cruzeiro, segundo dados da Footstats), tem também o ticket médio mais caro, de R$ 62,35, quase R$ 10 a mais que o do Botafogo (R$ 53,59).

A reclamação dos torcedores do clube do povo parece justa. Sem ser sócio-torcedor assíduo, ou seja, desconsiderando as promoções e os descontos do programa, o bilhete mais barato custa R$ 50. O problema é que a vontade da diretoria não é suficiente para reduzir o preço. Segundo reportagem do jornal LANCE!, o Corinthians precisa do aval Odebrecht e da Caixa Econômica Federal para tomar esse tipo de decisão. A construtora tem posição majoritária em um fundo de investimento que foi criado para administrar o Itaquerão enquanto a dívida não for quitada, e a Caixa Econômica Federal intermediou o empréstimo do BNDES que financiou a construção do estádio.

Há pouca flexibilidade para o Corinthians maximizar a renda da bilheteria, dentro das leis da oferta e da demanda. Uma semana depois de Andrés Sánchez, gestor da Arena, dizer categoricamente que os preços não seriam baixados, o ingresso dos setores mais caros foram reduzidos. O VIP, por exemplo, caiu de R$ 400 para R$ 350. A intenção da diretoria é abaixar mais um pouco, mas, até agora, não conseguiu autorização para fazer isso.

O estádio nem está pronto

A Arena Corinthians já recebeu clássicos, jogos decisivos e até uma semifinal de Copa do Mundo, mas ainda não está pronta. No meio de agosto, o próprio clube publicou uma nota em seu site oficial listando obras que ainda seriam realizadas, e muitas delas influenciam na capacidade do clube rentabilizar em cima do seu estádio. De acordo com o relatório alvinegro, o estacionamento chegará à capacidade de 30 mil lugares, mais 5 mil para eventos e shows, e ainda não está pronto. Quiosques de mercadores e dois Centros de Convenções ainda serão construídos. Na zona oeste, estão previstas oito áreas VIPs (entre elas, a maior do estádio), um restaurante e um bar.

Tudo isso gerará receita para ajudar a pagar as contas, mas o prejuízo mais imediato está nas próprias arquibancadas. O estádio tem capacidade para 48 mil pessoas, e por enquanto apenas 40 mil ingressos são colocados à venda enquanto as obras não são terminadas. Segundo Lucio Blanco, responsável pelas operações da arena, os problemas são o setor da imprensa, que precisava ser muito maior por causa da Copa do Mundo, e placas de metais que dividem os setores e criam pontos cegos. Sem contar que enquanto não estiver tudo bonitinho (o prazo é o final do ano) será muito difícil atrair outros eventos, como shows de música, por exemplo.

O empréstimo atrasou…

O preço da Arena Corinthians inflacionou porque o BNDES demorou muito para liberar o empréstimo de R$ 400 milhões que ajudou a financiar a obra (o resto foi arrecadado com incentivos fiscais da prefeitura de São Paulo, recursos próprios e iniciativa privada). A primeira parcela do dinheiro saiu apenas em março e, com o prazo da abertura da Copa do Mundo fungando no cangote, o clube bateu na porta do Banco do Brasil e do Santander com o pires na mão. O problema é que os juros desse financiamento chegaram a R$ 100 milhões e levaram o preço total da construção do estádio a superar R$ 1 bilhão. O primeiro orçamento era de R$ 820 milhões.

…mas a primeira parecela do pagamento não pode atrasar

O programa de financiamento do BNDES para os estádios da Copa do Mundo previa três anos de carência antes do início dos pagamentos. O problema é que o acordo com o Corinthians foi assinado em julho de 2012, mas o empréstimo (a primeira parte dele) foi liberado apenas em março de 2014. O estádio foi entregue pouco depois, ficou sob poder da Fifa durante junho e julho e apenas no meio do ano esteve à disposição do clube.

O Corinthians esperava ter mais tempo para gerar receita com o estádio antes de ter que pagar a primeira parcela, que vence em julho de 2015, mas terá menos de um ano. Por isso, toda a renda de bilheteria está indo diretamente para o fundo imobiliário gestor da arena. E nada como a necessidade para semear a criatividade: o clube busca fontes de renda alternativa, como uma sessão de cinema no Itaquerão, exibindo o filme “Democracia em Preto e Branco”, e até a construção de um cemitério, com promoção nas primeiras vendas de jazigos para juntar bastante grana de uma vez.

Embora o discurso oficial sempre tenha sido de que o investimento no time de futebol não seria prejudicado pela construção do estádio, o Corinthians está tendo dificuldades para fechar a conta. Está previsto um déficit de R$ 44 milhões entre julho de 2014 e junho de 2015 e o pagamento de até três meses de direitos de imagem estão atrasados para alguns jogadores. Cria-se um círculo porque menos investimentos e um time consequentemente enfraquecido também prejudicam a geração de receitas.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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