BrasilCampeonato Brasileiro

Fora do estádio, palmeirenses celebram o patrimônio imaterial da Turiassu

Paulo Nobre chega ao fim do seu primeiro mandato com (muit0) mais erros que acertos. Mas um mérito incontestável foi ter batido o pé com a Polícia Militar para que a rodada final do Campeonato Brasileiro fosse realizada no Allianz Parque. A instituição estava preocupada com uma possível (e provável) violência em caso de rebaixamento. Para o bem ou para o mal, na alegria e na tristeza, seja para comemorar o centenário ou chorar a terceira queda em 12 anos, aquele pedaço da rua Turiassu, entre a Avenida Sumaré e a Pompeia, é onde o torcedor mais se sente confortável. E a partida contra o Atlético Paranaense, que definiria o futuro do Palmeiras, teria que ser ali.

Afinal, a Turiassu, para o Palmeiras, é como o entorno da Bombonera para o Boca Juniors. É como as ruas ao lado do estádio do Arsenal. Fazem parte do estádio, embora não estejam dentro dele. São uma extensão, vá lá, ESPIRITUAL da arena. É ali que a torcida se encontra, come sanduíche de pernil, bebe cerveja e faz os melhores amigos da vida que vão durar 90 minutos.

LEIA MAIS: O Palmeiras sobreviveu à tarde de sofrimento, emblemática sobre aquilo que não quer reviver

Nenhum estádio do mundo comporta todos os palmeirenses que queriam usar a força dos pulmões para empurrar os jogadores. Com ingressos entre R$ 60 e R$ 350, muitos torcedores acostumados às arquibancadas de concreto do antigo Palestra Itália também foram excluídos. Restou-lhes buscar o conforto da presença de seus semelhantes, um hábito comum dos seres humanos diante da possibilidade de uma tragédia, onde eles estivessem concentrados. E em dia de jogo, esse lugar é a própria Turiassu, com bares conhecidos da torcida, a sede da principal organizada e a metros do local onde a ação estava acontecendo. Mais de mil pessoas fizeram isso. Era uma forma de participar do jogo e apoiar o time, mesmo sabendo que ninguém ouviria os seus gritos – e ninguém sabe quantas vezes mais isso poderá ser feito.

O promotor público Paulo Castilho, de tempos em tempos visto comentando assuntos relacionados ao futebol e à violência, quer acabar com a “aglomeração” na Turiassú. Criar um entorno mais saudável, seja lá o que isso signifique. Dar mais um golpe na essência do futebol, cuja festa já foi abalada pelo ambiente asséptico das novas arenas, que não conhecem bandeiras com haste ou papéis picados. Ao invés de lidar com o problema, o promotor quer fazer de conta que ele não existe. Proibir é o caminho mais fácil. Só que não é tão fácil acabar com um patrimônio imaterial da palestrinidade.

“Se proibirem, como eu faço? Tem que ver em casa, e às vezes nem passa”, afirma o taxista Lucas Garcia, 23 anos, depois de percorrer os quase 30 quilômetros que separam São Mateus, na zona leste, da Pompeia, apenas para tomar uma latinha de cerveja (ou duas, ou três) em um bar na esquina da rua Diana com a Turiassu e para sentir o clima de um jogo de futebol do Palmeiras. “Eu só vim por causa da bagunça. É uma opção para ver o jogo, os ingressos estão muito caros. Aqui tem várias residências, mas a galera já está acostumada”.

Justamente por haver residências e muito comércio na região, seria impossível, para a polícia, restringir a circulação de pessoas. O alvo deles são as bebidas alcoólicas para desanimar os torcedores e controlar as suas reações. Existe uma lei que proíbe a venda desse tipo de líquido em um raio de 200 metros do estádio, mas não há fiscalização. Os ambulantes já estão espertos. Bastou um carro da polícia civil colocar o nariz na avenida para todos saírem correndo com seus produtos debaixo dos braços, gritando “é a rapa, cuidado com a rapa” para avisar os colegas. “Acontece sempre. Eles tomam a mercadoria”, conta o vendedor de espetinhos José Francisco de Souza, 17 anos, que fatura entre R$ 60 e R$ 200 por jogo, dependendo da importância dele. Está assustado com a possibilidade de ver o seu ganha-pão prejudicado. “Se fizerem isso, ferrou, vou ter que virar jornalista”, diz ele, brincando com este repórter.

Por outro lado, Rodrigo Bonetti, 33 anos, gostaria que a medida fosse aplicada, mesmo que isso significasse menos movimento e menos pessoas comprando seus lanches. “Todo mundo vai comer, bebem refrigerantes”, justifica. “Acho bom porque a pessoa bebe e perde as estribeiras, perde a cabeça. No último jogo (derrota para o Internacional), começaram a quebrar tudo por aqui”. Mas nada indica que a força da lei resolverá o problema. “A gente vai vir do mesmo jeito”, promete o engenheiro de produção Gustavo, 28 anos, membro da Mancha Verde desde os 14. “Já vamos chegar bêbados”, acrescenta o amigo Diego Gomes, 32, vestindo as cores da organizada há 19 anos. “Não pode proibir. É a democracia”.

Por enquanto, nada mudou. O último domingo foi um dia como qualquer outro de jogo na Turiassú. A organizada reuniu-se para cantar gritos de guerra e soltar fogos. Fazer a mesma festa da partida de reabertura do Palestra Itália, contra o Sport. Aos poucos, os 33 mil torcedores com ingressos nos bolsos dirigiram-se para as arquibancadas. O restante aglomerou-se na primeira televisão que conseguiu encontrar. A maioria em uma lanchonete na Caraíbas, com um pequeno monitor pendurado. Não dava para distinguir os jogadores, mal ver a bola, mas era possível acompanhar o que estava acontecendo. Acima de tudo, estavam juntos, preparados para consolar um ao outro se fosse necessário.

Torcedores reúnem-se em um bar na rua Caraíbas (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)
Torcedores reúnem-se em um bar na rua Caraíbas (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

O palmeirense sabia que o pesadelo terminaria de um jeito ou de outro. Poderia acordar assustado ou perceber que não estava sonhando, era tudo realidade e o Palmeiras estava rebaixado pela terceira vez. O segundo cenário começou a se concretizar quando o Atlético Paranaense abriu o placar. Cada bolinha na tela era um teste cardíaco. Poderia ser gol do Vitória. Poderia ser gol do Bahia. Sem som ou caixa de caracteres, as imagens mostraram um time rubro-negro fazendo gol em outro vestido de branco, mas era apenas o Sport contra o São Paulo. Só que o Bahia fez 1 a 0 no Coritiba. A televisão mostrou a tabela em tempo real com o Palmeiras fora da zona de rebaixamento, iludindo aqueles que não haviam decorado a classificação (se é que havia alguns). O erro foi rapidamente corrigido. Mais uma pequena decepção para o torcedor palmeirense que já se acostumou com elas.

A tensão era palpável e poderia ser cortada com uma tesoura. O Palmeiras brigava em campo, regido por um Valdivia avariado, mas esbarrava nas suas numerosas e gigantescas limitações técnicas. Até que o árbitro marcou toque de mão do zagueiro Dráusio. Pênalti discutível, mas quem entre aquelas centenas de pessoas estava inclinado a discutir arbitragem? Partiu Henrique, o Ceifador, e sua peculiar mecânica para chutar a bola da marca do cal. O gol que recuperou a esperança. Os gritos de “olê Porco” foram retomados. Naquele momento, o Palmeiras não era mais o time rebaixado. Era o da virada e o do amor:

Bastava uma bola na rede para que o pesadelo terminasse com final feliz. O Atlético Paranaense parecia estar com a cabeça em Foz do Iguaçu e nas delícias da ceia de Natal quando retornou para o segundo tempo e mal ameaçou. Mas os jogadores vestidos de verde tropeçavam nas próprias pernas, metafórica e literalmente, de vez em quando. Mesmo controlando o jogo e pressionando, não conseguiam marcar. Um drible corajoso de Fernando Prass na defesa causou risos nervosos. Os gols perdidos por Henrique, xingamentos. A substituição de Wesley, mais xingamentos ainda. O medo da bolinha na tela aparecer novamente era visível. O Palmeiras livrava-se do rebaixamento, mas estava com os dois pés na beira do precipício e um ventinho mais forte causaria a queda. Mas apareceu um amigo para puxá-lo. Depois do apito final no Allianz Parque, Thiago Ribeiro marcou para o Santos contra o Vitória e ninguém quis esperar o fim da partida para comemorar.

Era uma festa envergonhada porque os torcedores que cresceram comemorando títulos não poderiam celebrar o 16° lugar com 40 pontos em 38 rodadas, 20 derrotas e 59 gols sofridos. Não era o grito de felicidade, mas de alívio. Finalmente o fim do pesadelo. Foram todos às portas do estádio cantar o hino e lembrar, talvez para si próprios, que estavam falando de um clube com cem anos de histórias, lutas e glórias. A esperança e a paixão que no caso do palmeirense precisam ser renovadas todo mês de dezembro.

Depois do êxtase, o protesto, e o alvo dele não poderia deixar de ser o presidente Paulo Nobre. A princípio, todos emendaram gritos de “Paulo Nobre otário passa vergonha no nosso centenário” e “Time sem vergonha”. Aos poucos, a maioria voltou aos bares e lanchonetes para a cerveja da paz de espírito, e sobraram apenas os organizados, cerca de 20, mantendo viva a manifestação contra o dirigente. Uma manobra mais política de um grupo rachado com a diretoria do Palmeiras desde o ano passado. E no limite da burrice, deram argumentos a Paulo Castilho quando duas pequenas brigas eclodiram. Alguém soltou um rojão no meio da multidão e outro alguém, aparentemente embriagado, não gostou de ter os tímpanos estourados. Não chegaram às vias de fato porque os mais sensatos impediram. Um outro torcedor, também com bastante álcool no organismo, saltitava entre a multidão. Deve ter irritado alguém e foi enxotado.

Efeitos colaterais da liberdade e ninguém se machucou, mas, se quiserem continuar com o que costuma ser chamado de carnaval da Turiassu, precisam tomar cuidado porque basta um bom motivo para as intenções do promotor serem colocadas em prática. Não são apenas os organizados que tomam as ruas da Pompeia para festejar em dia de jogo do Palmeiras – e sem violência eles também têm pleno direito de fazer isso. Todos os torcedores excluídos do estádio pelos preços altos do ingresso, justos ou não, estão convidados, e seria uma pena que eles fossem impedidos de comemorar, chorar e abraçar os seus semelhantes por causa de um punhado de adultos que não consegue se controlar.

Você também pode se interessar por:

>>>> O incrível número que coloca Alex à frente de Ronaldo Fenômeno

>>>> Palmeiras de 2002 não era time para cair, mas não tinha margem para errar. E errou

>>>> Há 15 anos, Palmeiras jogava melhor que o Manchester United, mas perdia o título Mundial

>>>> O palmeirense não precisou de ingresso para comemorar a abertura do seu novo estádio

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo