Brasil

Os melhores times que o Palmeiras teve, além das Academias de Futebol

Classe e técnica. Essas duas características renderam a dois times muito vencedores do Palmeiras o apelido de “Academias de Futebol”. A primeira, nos anos 1960, o único time a fazer frente ao Santos de Pelé. E a segunda, no começo da década seguinte, bicampeã brasileira. Em comum, Ademir da Guia, o jogador mais acadêmico possível, se os critérios forem mesmo esses. Além disso, embora não tenha se popularizado desse jeito, a equipe que a Parmalat montou na década de 1990 poderia muito bem ser considerada a terceira.

TEMA DA SEMANA: As histórias mais palestrinas dos 100 anos do Palmeiras

Só que uma história centenária tão rica quanto a do Palmeiras não foi construída com apenas três times. Houve outros, menos instruídos, talvez, mas não menos qualificados para jogar futebol e conquistar títulos. Reunimos cinco deles, baseando-se em qualidade e importância, da época em que as súmulas ainda eram assinadas com “Palestra Itália” até os áridos anos 2000.

Também fizemos uma seleção com jogadores adorados pela torcida palmeirense que não foram exatamente craques, nem reuniram, como Ademir, classe e técnica em quantidades abundantes. Mas isso não é exatamente necessário. O coração verde e branco também sabe amar o jogador raçudo que deixa o gramado com o calção todo sujo de barro.

Único tricampeão
O time do Palmeiras que goleou o Corinthians por 8 a 0
O time do Palmeiras que goleou o Corinthians por 8 a 0

Na história, apenas entre 1932 e 1934 o Palmeiras conseguiu ser tricampeão de qualquer torneio que já disputou. Uma equipe que começou a ser gloriosa nos tempos do amadorismo e terminou a caminhada quando o futebol já era profissional, depois de inaugurar o seu estádio e colecionar goleadas impediosas contra os principais adversários.

O treinador do primeiro grande esquadrão alviverde era o uruguaio Humberto Cabelli, 13º homem que mais vezes foi técnico do Palmeiras, com 105 partidas em três passagens. Conquistou os dois primeiros títulos paulistas, saiu do clube por um breve período e voltou para comandar a campanha de 1934.

Entre toda a qualidade daquele time, o zagueiro Junqueira destacava-se. Fez 326 jogos pelo Palmeiras e conquistou oito títulos entre 1931 e 1945 para conquistar o direito de ser o primeiro ídolo alviverde a ganhar um busto. Foi, talvez, o atleta mais amado pela torcida na era Palestra Itália. No ataque, Gino Imparato, o terceiro irmão da família a defender o clube, e Romeu Pelliciari, autor de 106 gols em 150 jogos pelo time.

O primeiro torneio da série a ser vencido foi bastante conturbado. O Campeonato Paulista de 1932 foi interrompido pela Revolução Constitucionalista que insurgia contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Parou em julho e foi retomado em novembro, quando o Palestra Itália venceu a Portuguesa, por 3 a 0, e garantiu o título, com duas rodadas de antecedência. A Associação Paulista de Esportes Atléticos, organizadora do estadual naquela época, decidiu encurtar a competição por causa da revolução e realizou apenas um turno, em pontos corridos. E o Palestra venceu os 11 jogos, com 48 gols a favor e apenas oito contra. Encerrou a “campanha perfeita” com duas goleadas estupendas, contra Germânia (9 a 1) e Santos (8 a 0).

>>>> Maior goleada de um Palmeiras x Corinthians completa 80 anos

O Paulistão de 1933 não foi tão arrasador por causa da mesma Portuguesa, que venceu os alviverdes no turno e empatou no returno. Não foi nem de longe, porém, um torneio desprovido de grandes emoções para o Palestra Itália. Primeiro, porque inaugurou o Parque Antártica. Segundo, porque venceu o Corinthians por 8 a 0 (quatro de Romeu e três de Imparato), ainda hoje a maior goleada da história do dérbi.

No ano seguinte, o clube sabia que precisava de um fato novo para manter a fome do elenco por novos títulos e trouxe dois reforços do Rio de Janeiro. Os irmãos Zezé e Aymoré Moreira deixaram o Botafogo, que ainda resistia ao profissionalismo. E deu certo. A campanha foi tão boa quanto a de 1933, com um único empate, novamente com a Portuguesa, e uma derrota, quando já era tricampeão paulista, para o São Paulo. Entre 1932 e 1934, o Palestra Itália disputou 39 partidas de Campeonato Paulista. Venceu 35, empatou duas e perdeu duas. O tricampeonato não poderia ser mais incontestável, e a taça especial que recebeu pelo feito, mais merecida.

Time base: Nascimento (Aymoré Moreira); Carnera (Loschiavo) e Junqueira; Tunga (Zezé Moreira), Dula (Goliardo) e Tuffy; Avelino (Álvaro), Gabardo (Sandro), Romeu, Lara e Imparato. Técnico: Humberto Cabelli.

Morreu líder, renasceu campeão
O Palmeiras entrou em campo no Pacaembu carregando uma bandeira do Brasil
O Palmeiras entrou em campo no Pacaembu carregando uma bandeira do Brasil

O Palestra morreu em 14 de setembro de 1942 como líder do Campeonato Paulista. Foi uma determinação do governo de Getúlio Vargas, que havia declarado guerra aos países do Eixo. Não poderia haver referência à Itália no nome do clube. A princípio, o Palestra Itália virou Palestra de São Paulo, mas mesmo assim houve reprovações. Com o São Paulo à espreita para se apropriar do patrimônio do clube, caso ele fosse confiscado, surgiu o Palmeiras, alviverde, imponente e campeão.

E o time era muito bom de bola. Oberdan Cattani fazia sua segunda temporada como goleiro titular, a zaga tinha o lendário Junqueira, passando segurança para o não menos histórico Waldemar Fiúme armar o jogo ao lado de Villadoniga, para que Cláudio, Lima (o garoto de ouro, famoso por atuar em várias posições) e o argentino Raúl Echevarrieta pudessem marcar os gols.

O Campeonato Paulista de 1941 não havia sido excepecional para o time da colônia italiana da cidade. Foi o terceiro colocado, atrás de São Paulo e Corinthians. Mas o então Palestra de São Paulo foi implacável no ano seguinte. Emendou 16 vitórias e dois empates que o colocaram em ótima posição para conquistar o título. Bastava vencer o São Paulo no Pacaembu. Bastava vencer o primeiro jogo como Palmeiras.

>>>> Depois de glórias e decepções, Oberdan morreu antes da última homenagem

Sob vaias, os 11 jogadores entraram em campo carregando a bandeira do Brasil e o que aquela partida significava para os jogadores pode muito bem ser compreendido por duas declarações posteriores de Oberdan Cattani: “O Corinthians é rival, o São Paulo é inimigo”; “Tínhamos que ganhar aquele jogo mesmo que nos custasse a vida”.

Não foi preciso pagar tão caro assim. Cláudio abriu o placar para o Palmeiras e Valdemar de Brito empatou. Del Nero colocou o alviverde em vantagem ainda no primeiro tempo, e Echevarrieta ampliou. Quando o árbitro Jayme Rodrigues Janeiro assinalou pênalti em Og Moreira, os jogadores do São Paulo abandonaram o jogo por ordens do presidente. A partida não chegou ao fim, mas a história do Palmeiras começou com um título.

Time base: Oberdan; Junqueira, Begliomini, Zezé Procópio, Og Moreira e Del Nero; Cláudio, Waldemar Fiúme, Etchevarrieta, Villadoniga e Lima. Tècnico: Armando del Debbio.

Cinco coroas
Taça Rio de 1951 acabou com o Palmeiras campeão
Palmeiras campeão da Taça Rio de 1951

Parece uma realidade completamente diferente para o torcedor mais novato, que viu o Palmeiras conquistar apenas dois títulos entre 2001 e 2014. Houve uma época em que levantar troféus era uma tarefa praticamente bimestral para o capitão do time. Entre agosto de 1950 e julho de 1951, foram cinco conquistas. As cinco coroas.

O líder do time era Jair Rosa Pinto, de técnica exuberante e carreira vitoriosa. Foi apelidado de “faquir” pelos jornais da época pela facilidade com a qual escapava dos adversários. Mas também eram muito importantes o coringa Lima e o raçudo Aquiles, que precisou quebrar a perna três vezes para ser convencido a parar de jogar bola. Ainda tinha Oberdan Cattani no gol e Waldemar Fiúme, já na quarta zaga, onde atuou no final da sua carreira.

A série vitoriosa começou em 1950. O empate com o São Paulo e a vitória sobre a Portuguesa, por 3 a 2, valeram a Taça Cidade de São Paulo. Na sequência, veio o Campeonato Paulista do ano seguinte, em janeiro, que foi conquistado sob condições meio dramáticas. O São Paulo chegou a abrir cinco pontos de vantagem, mas não conseguiu vencer o Guarani e foi derrotado por Ypiranga e Santos. O Palmeiras emplacou bons jogos contra XV de Piracicaba e Portuguesa Santista e chegou ao Choque-Rei decisivo com a vantagem do empate. Foi um dia de muita chuva no Pacaembu e o campo estava pesadíssimo. Tanto que uma poça d’água foi responsável por aparar um passe de Jair e deixar a bola na medida para Aquiles empatar o “Jogo da Lama”, como esta decisão foi imortalizada pelos historiadores.

>>>> Por que a Taça Rio foi importante, independente de ser Mundial ou não

O Palmeiras reforçou o time para o restante da temporada. Trouxe o zagueiro Juvenal, do Flamengo, às custas do prata da casa Turcão, comprou o médio Luiz Villa, que estava emprestado pelo Estudiantes, da Argentina, e acertou também com o atacante Liminha e o médio Dema, ambos do Ypiranga, e Ponce de León, do São Paulo. Em abril, veio a conquista do torneio Rio São, invicta, e a segunda Taça Cidade de São Paulo, desta vez com vitória sobre o São Paulo e uma goleada contra o Santos.

O grande prêmio no fim do arco-íris era a Taça Rio, primeiro torneio intercontinental com o apoio da Fifa, e equipes espetaculares como o Vasco de Ademir de Menezes, o Estrela Vermelha base da seleção iugoslava e a Juventus do trio de dinamarqueses com John Hansen, Karl Hansen e Karl Praest. O Palmeiras não era favorito, principalmente depois de apanhar da Juventus por 4 a 0 no fim da fase de grupos. Mas, mesmo no Maracanã, passou pelos vascaínos e garantiu uma revanche contra os italianos. Com gol de Rodrigues venceu o jogo de ida e, com o apoio maciço da torcida, empatou a volta para conquistar a Taça Rio. A quinta coroa.

Time base: Oberdan Cattani; Salvador e Turcão (Juvenal); Waldemar Fiúme, Villa e Dema; Lima, Aquiles (Ponce de León), Liminha, Jair e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambom

Silêncio igual ao de 1950
O Palmeiras goleou o Flamengo no Maracanã
O Palmeiras goleou o Flamengo no Maracanã

O período entre a segunda academia do Palmeiras e o time montado com o dinheiro da Parmalat, nos anos 1990, foi difícil para o torcedor alviverde. Não comemorou nenhum título até o Paulistão de 1993, e nem bateu tanto na trave assim. Uma dessas vezes foi em 1979. Sob o comando de Telê Santana, não foi campeão estadual no detalhe e assombrou o Flamengo de Zico.

O nível da equipe havia caído um pouco em relação ao time bicampeão brasileiro seis anos atrás. O líder não era mais Ademir da Guia, mas Jorge Mendonça, meia com média superior a um gol a cada dois jogos pelo Palmeiras. O ataque ainda tinha o ponta direita Jorginho Putinatti. Ambos estão certamente entre os melhores jogadores que o clube teve durante a fila de 17 anos sem títulos.

Era também aquela época cujo calendário relativiza as loucuras que a CBF comete hoje em dia. O Campeonato Paulista de 1979 começou em julho, e o Brasileiro, em setembro. Os dois foram disputados simultaneamente, e a equipe de Telê, com um futebol de toque de bola e ofensivo, era favorito para ambas.

O Palmeiras terminou a primeira fase do Paulistão com 20 vitórias em 38 partidas e vinha embalado. O presidente da FPF, Nabi Abi Chedid, marcou rodada dupla, com Palmeiras x Guarani e Corinthians x Ponte Preta no Morumbi, mas o presidente alvinegro Vicente Matheus entrou na justiça, alegando que seria prejudicado porque o clube dele tinha mais torcida que os outros. O torneio foi interrompido por 67 dias, o alviverde perdeu embalo e acabou derrotado pelo Corinthians nas semifinais.

>>>> As óperas do século 19 explicam a torcida do Palmeiras

No Campeonato Brasileiro, entrou diretamente na fase quartas de final porque era o vice do torneio anterior. Ganhou do Comercial e do São Bento e precisava executar uma missão quase impossível: vencer o Flamengo no Maracanã. Cláudio Coutinho já comandava alguns jogadores que seriam campeões mundiais, como Zico, Tita, Júnior e Adílio, por exemplo. O presidente Márcio Braga dava declarações contundentes. “O Flamengo vencerá o Palmeiras e depois será o campeão”, disse.

Não foi bem assim. Na verdade, foi o contrário. A classificação alviverde foi selada com uma goleada por 4 a 1 no Maracanã lotado. O Flamengo entrou em campo desesperado e foi dominado pelo Palmeiras, que até foi um pouco displiscente na partida. Jorge Mendonça abriu o placar, Zico empatou de pênalti, e Carlos Alberto e Pedrinho abriram vantagem. Depois da expulsão de Beijoca, que deu um soco em Mococa, tudo ficou ainda mais fácil. Zé Mário fechou o caixão.

Foi uma vitória imponente do Palmeiras contra um adversário difícil. Os jornais até exageraram um pouco, como a Folha de S. Paulo, que comparou a derrota flamenguista à da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1950. “Foi o mesmo silêncio de 50”, era a manchete do caderno de esportes de 10 de dezembro. De qualquer jeito, o clube paulista avançou às semifinais e foi derrotado pelo Internacional de Falcão, que seria campeão invicto. Mas pelo menos deixou o Maracanã em silêncio.

Time base: Gilmar; Rosemiro, Beto Fuscão, Polozzi e Pedrinho; Pires, Mococa e Jorge Mendonça; Jorginho, César e Baroninho. Técnico: Telê Santana

Em terra de cego…
Valdivia fez gol no São Paulo e fez um gesto de choro
Valdivia fez gol no Corinthians e fez um gesto de choro

Os anos 1980 foram um período muito pouco fértil para o Palmeiras, mas nada se compara à primeira década do século XXI. O clube foi rebaixado para a segunda divisão, em 2002, e passou oito anos sem títulos. Até 2008, quando um elenco relativamente bom para o nível do Campeonato Paulista encerrou a seca palmeirense.

Vanderlei Luxemburgo estava de volta. O técnico bicampeão brasileiro na década anterior não tinha o dinheiro da Parmalat para montar outro esquadrão, mas, com o apoio da Traffic, trouxe três jogadores importantes: o meia Diego Souza e os zagueiros Gustavo e Henrique. A equipe ainda tinha Valdivia, em forma, e pela primeira vez desde a saída de Vágner Love para a Rússia, um centroavante que fazia gols sem grandes dificuldades, como Alex Mineiro. A diretoria completou o ataque com Kléber.

Luxemburgo armou uma equipe bastante ofensiva. Os dois laterais (Élder Granja pela direita e Leandro pela esquerda) sempre apoiavam e o meio campo tinha apenas Pierre na função defensiva. Ao seu lado, Léo Lima ou Martinez ajudavam Diego Souza e Valdivia a armarem o jogo. Ainda havia boas opções de elenco como Denílson e Lenny.

O Palmeiras terminou a primeira fase em segundo lugar, com os mesmos 40 pontos do Guaratinguetá. A única fase complicada foi entre o fim de janeiro e o começo de fevereiro, quando perdeu três seguidas para Ituano, Noroeste e Guaratinguetá. Foram, porém, as únicas derrotas do time antes das semifinais.

Houve um empate contra o Santos e uma vitória contra o Corinthians, mas o grande confronto do Paulistão foi com o São Paulo. No turno, uma goleada por 4 a 1 (três gols de pênalti) deram bastante confiança para a semifinal. O tricolor do Morumbi abriu 2 a 0 e Alex Mineiro descontou de pênalti. Depois, em casa, Léo Lima acertou um chute de longe e Valdivia matou no contra-ataque.

Antes de Palmeiras e Ponte Preta, na decisão, o discurso de Marcos deu o tom do que aquela partida significava. Não era o torneio mais importante que o clube já disputou, nem era a equipe mais talentosa que ele já teve, mas depois de tudo que os torcedores passaram nos anos anteriores, aquele título não poderia escapar de jeito nenhum.

E a goleada por 5 a 0 sobre a Ponte Preta garantiu que não escaparia.

Time base: Marcos; Élder Granja, Henrique, Gustavo e Leandro; Pierre, Martinez (Léo Lima), Diego Souza e Valdivia; Alex Mineiro e Kléber. Técnico: Vanderlei Luxemburgo

Não são craques, mas o palmeirense aprendeu a amar

Esta é nossa seleção, do goleiro ao ponta esquerda (além do treinador), com jogadores que não tiveram a classe de Ademir da Guia ou a técnica de Evair, mas, cada um do seu jeito, conquistaram o coração dos palmeirenses.

 

Você também pode se interessar por:

>>>> Jornal que ajudou a fundar o Palmeiras ainda vive, com um editor corintiano

>>>> Seis momentos em que o Palmeiras foi mais que um clube

>>>> Como o Palmeiras ajudou a criar um dos bordões mais utilizados da política brasileira

>>>> Por que a Taça Rio foi importante, independente de ser Mundial ou não

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo