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Os Rebeldes do Futebol: Sócrates e a Democracia Corintiana

Uma das principais características do futebol é sua imensa capacidade de encantar. A bola possui o poder de hipnotizar qualquer um, independente da idade. Da mesma maneira, ela consegue abrir os olhos de uma população. O jogo pode ser o instrumento para atrair multidões e transmitir mensagens essenciais na organização de uma sociedade. Ciente desta força, Sócrates liderou a Democracia Corintiana como realidade alternativa ao regime militar.

“Nós começamos a discutir as coisas e criamos uma atmosfera verdadeira de convivência. Cada um de nós dava sua opinião e expressava os sentimentos.   Basicamente, nosso objetivo era democratizar nossa opinião. Nosso grupo trabalhava no mundo do futebol e resolveu votar tudo. Tudo tinha que ser decidido. Compare isso com o que acontece na sociedade. Você tem vários casais infelizes e coloca entre eles um casal apaixonado. Isso contamina o grupo todo. E era isso o que acontecia conosco”, afirmou Sócrates.

A democracia se limitava à organização do próprio Corinthians, mas servia de exemplo ao restante do país. Uma manifestação que ganhou espaço também em campo, com as mensagens favoráveis à eleição – com o célebre patrocínio “Dia 15, vote” – e aos direitos iguais. E que acabou se amplificando ainda mais com o bicampeonato alvinegro nos Paulistas de 1982 e 1983.

Apostando na retomada da democracia no restante do Brasil, Sócrates fez uma promessa: deixaria o país se a população não votasse a favor das eleições diretas. Perdeu e, a contragosto, partiu ao futebol italiano para defender a Fiorentina. Deixou para trás a Fiel, o Corinthians e o exemplo dado pela Democracia Corintiana.

A história de atuação política do Doutor é o quinto e último capítulo de “Os Rebeldes do Futebol”, documentário produzido por cineastas franceses e exibido pela rede de televisão Al Jazeera. A maioria dos áudios é em inglês, mas é possível ouvir também as entrevistas em português. Entre aqueles que dão seus depoimentos, estão Wladimir, Lula, Juca Kfouri, Washington Olivetto e Adilson Monteiro Alves. Quando os produtores chegaram ao Brasil, Sócrates havia falecido semanas antes. Restaram a história e a homenagem.

Cofira também os outros episódios da série “Os Rebeldes do Futebol”:

– Didier Drogba e a guerra civil na Costa do Marfim

– Rachid Mekhloufi e a luta pela independência da Argélia

– Predrag Pasic e a opressão da Guerra da Bósnia

– Carlos Caszely e a oposição à ditadura no Chile

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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