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O sorteio dos árbitros foi uma boa ideia que precisa ser (rapidamente) revista

Antes de uma final de campeonato, seja qual for, uma decisão importante tem que ser tomada. Quem será o juiz? O bom senso clama pelo mais bem preparado, o que tiver mais experiência, mas nem sempre pode ser assim. As comissões de arbitragem são obrigadas a colocarem na mão do destino quem segurará o apito em todas as partidas profissionais realizadas em solo brasileiro.

“Art. 32. É direito do torcedor que os árbitros de cada partida sejam escolhidos mediante sorteio, dentre aqueles previamente selecionados.

§ 1º O sorteio será realizado no mínimo quarenta e oito horas antes de cada rodada, em local e data previamente definidos.

§ 2º O sorteio será aberto ao público, garantida sua ampla divulgação”

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Esse é o artigo 32 do Estatuto de Torcedor, sancionado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003. Foi dele que saiu essa obrigação de haver um sorteio para definir os árbitros de cada jogo profissional no Brasil. Em 11 anos de vida, a medida não serviu para melhorar o nível de arbitragem brasileira, sequer a sua credibilidade, e é contestada por quase todos os especialistas. “O sorteio surgiu depois de alguns escândalos, principalmente o do Ivens Mendes (flagrado em em escutas telefônicas tentando manipular resultados). O sorteio é muito ruim para a arbitragem”, afirma o ex-árbitro Sálvio Spinola Fagundes Filho, comentarista dos canais ESPN.

Na época de implantação, a Comissão de Arbitragem da CBF vivia sob uma forte desconfiança por causa da história de Ivens Mendes, que acabou resultando em uma virada de mesa no Campeonato Brasileiro de 1996, e a administração seguinte, de Armando Marques, não emprestou muita credibilidade à entidade. O objetivo do Estatuto foi descentralizar o poder do comandante dos árbitros. “O sujeito fica com um arbítrio muito grande”, afirmou, à época, José Luiz Portella, redator da lei. e ex-secretário executivo do ministério dos Esportes. “Não é a escolha do juiz que deve importar, e sim a melhoria do padrão”.

Bom, o padrão não ficou muito melhor (isso se não piorou) e o sorteio criou alguns problemas. Por exemplo, árbitros que ficam muito tempo sem apitar e perdem ritmo em contraste com outros que precisam trabalhar em várias rodadas seguidas e ficam cansados. “O sorteio é uma aberração”, afirmou o atual chefe de arbitragem do Brasil, Sérgio Côrrea da Silva, ao SporTV. “Se não fizéssemos sorteio dirigido, estaríamos no buraco. Você tem o Héber Roberto Lopes próximo de 300 jogos na Série A, e o Delson Freitas com 30. Não deveriam estar no mesmo sorteio, é desequilibrado, mas não tenho a quantidade de árbitros necessária”.

Deveria ter, mas essa é outra discussão. Como disse Sérgio Corrêa, o brasileiro colocou a sua criatividade ao trabalho e encontrou um jeito de contornar um pouco o sorteio. A CBF monta duas escalas de arbitragem para cada partida da rodada e coloca seis bolinhas dentro de um globo. Se a terceira sorteada for número par, uma das escalas é utilizada. Se for ímpar, é a outra. Às vezes, os árbitros aparecem nas duas colunas, como nesta semana, na qual Leandro Vuaden poderia apitar Botafogo x Santos ou Palmeiras x Chapecoense. De qualquer forma, trabalharia. Esse sorteio dirigido não era bem o espírito da lei e já foi alvo de ações do Ministério Público. Em 2012, um juiz de Belo Horizonte obrigou, com uma liminar, a Federação Mineira e a CBF a fazer o sorteio com pelo menos quatro árbitros para cada partida. A decisão não foi sacramentada pelas instâncias superiores.

A própria Fifa não recomenda que os árbitros sejam escolhidos por meio de sorteio, tanto que, atualmente, apenas o Brasil monta a sua escala com esse método (Portugal já desistiu). Segundo Sálvio, isso faz sentido apenas se não há confiança em quem comanda o futebol. “Alguns países fazem por opção, não por obrigação legal que nem no Brasil”, conta. “É necessário para corrigir erros de estrutura. Se quem dirige os árbitros não tem credibilidade, implanta-se o sorteio, mas a lei é muito mau redigida. Vale somente para os árbitros e ela não diz como o sorteio tem que ser realizado. A forma como é feito é ridículo”.

Realmente, cada federação tem a liberdade de fazer como quiser. Podem colocar o nome do árbitro em pacotes de salgadinho fechados e escolher um. Com auxiliares e assistentes, a liberdade é ainda maior. Tanto que, para cortar custos, a CBF está dando outro jeitinho: escala uma pessoa para trabalhar em dois jogos no mesmo final de semana. Isso fez com que Ricardo Marques Ribeiro apitasse São Paulo x Fluminense no Morumbi no sábado, às 21h. Acabou o jogo, recolheu as tralhas, preencheu a súmula, foi para casa, esperou a adrenalina desaparecer e dormiu já de madrugada.

No dia seguinte, teve que acordar a tempo de ser assistente de Santos x Goiás no Pacaembu, às 18h30. Era o auxiliar atrás do gol e não viu a bola ultrapassar claramente a linha em chute de Esquerdinha. Foi um erro injustificável pela facilidade do lance, mas certamente o cansaço também contribuiu. “Árbitro precisa descansar”, sentencia Sálvio Spinola. O pior dessa decisão da CBF é a justificativa. Ao Portal UOL, a CBF disse que pretende, com isso, reduzir os custos evitando deslocamentos. A entidade, que teve faturamento recorde de R$ 452 milhões em 2013, teria a econômia signifcativa de R$ 2 mil a R$ 3 mil por partida às custas da saúde dos árbitros.

O poder da comissão de arbitragem foi, de fato descentralizado, porém no fundo todos os árbitros estão sujeitos à pressão. A brecha para manipulação de resultados continuou a mesma, uma vez que 48 horas é tempo mais do que suficiente para convencer um homem a vender a sua honra (e o caso Edilson Pereira de Carvalho foi em 2005, dois anos depois do sorteio). A intenção do Estatuto do Torcedor era muito boa, mas não teve o efeito prático que se esperava. Continue com o sorteio ou não, chegou a hora de revisá-lo. Porque desonestidade modifica a história de um time no campeonato, mas erros técnicos dos árbitros também podem distorcer resultados.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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