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O que o Allianz Parque pode fazer pelo futuro do Palmeiras?

A última vez que o Palmeiras esteve envolvido em discussões sobre os melhores times do Brasil foi em 2009, quando liderou o Campeonato Brasileiro por 19 rodadas. O título quase certo foi perdido, e no ano seguinte, o Palestra Itália fechou para obras. Dois momentos simbólicos que marcaram o início de um período durante o qual o clube alternou temporadas medíocres com outras em que o rebaixamento foi uma ameaça tão séria que se concretizou em uma delas. Na próxima quarta-feira, o clube reencontra-se com a sua casa, reformada, moderna e com o gramado no qual tentará ressurgir imponente.

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Além da injeção de ânimo e dos ganhos abstratos de moral e pertencimento que a inauguração do Allianz Parque trará, há razões mais pragmáticas para acreditar que o novo estádio pode ser chave na recuperação de um Palmeiras que não consegue igualar o nível de investimento dos principais rivais. Ainda mais vivendo o mandato de um presidente que prega austeridade acima de tudo, mesmo que isso signifique perder os principais jogadores do elenco, como Alan Kardec.

A situação financeira do alviverde nos últimos anos é vermelha de tão ruim e flerta com a calamidade. O presidente Paulo Nobre afirmou em conversa com a principal torcida organizada que o Palmeiras de fato faliu em abril do ano passado e não tinha dinheiro para aguentar até o final do ano. Precisou emprestar, do próprio bolso, um valor que alcançou os R$ 140 milhões na última conta. Para dimensioná-lo, basta lembrar que o faturamento total do clube em 2013 foi de R$ 180 milhões, apenas o nono maior do País. Pouco para o clube que tem a quarta maior torcida do Brasil.

O resultado prático disso é o enfraquecimento do time de futebol, que muitos torcedores consideram pior na primeira divisão do que foi na disputa da segunda em 2013. Barcos foi para o Grêmio em troca de quatro jogadores médios; uma dívida contraída na gestão Arnaldo Tirone causou a saída do zagueiro Henrique para o Napoli; Kardec pulou o muro dos centros de treinamento da Barra Funda por causa de uma diferença salarial cujo valor não chega ao preço de um fusca velho; e Wesley deve tomar o mesmo caminho ao fim do seu contrato porque ganha muito (outra herança da administração anterior).

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Novas fontes de renda são, mais do que bem-vindas, essenciais para reverter a lógica de meio de tabela para baixo na qual o Palmeiras entrou e imediatamente esqueceu onde fica a porta para poder ir embora. O Allianz Parque deve representar um forte reforço financeiro para o clube, e o melhor de tudo é que essa arrecadação independe completamente de quem estiver no comando do clube e do tamanho da sua competência.

O contrato firmado com a WTorre, construtora do estádio, prevê que o Palmeiras tem direito a uma porcentagem que dobra a cada cinco anos até o final do acordo, depois de 30 anos. Começa nos 5%. A WTorre quer arrecadar de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões por temporada com o estádio e, se os planos da empresa derem certo, R$ 10 milhões entrarão na conta do Palmeiras a cada doze meses até 2019, sem que ele tenha que fazer nada.

A previsão pode ser até pessimista porque o Allianz Parque pinta como a principal casa de grandes shows de São Paulo. Foi construído com esse intuito. Existe uma estrutura fixa para facilitar a montagem e a desmontagem dos palcos o que, por si só, diminui o custo final da organização em R$ 1 milhão, segundo cálculos da WTorre. O equivalente ao que o Morumbi cobra de aluguel para apresentações internacionais. A localização, mais próxima ao centro que os estádios de Corinthians e São Paulo, também contribui para atrair esses eventos.

Paul McCartney será a primeira grande atração musical do Allianz Parque (Foto: AP)
Paul McCartney será a primeira grande atração musical do Allianz Parque (Foto: AP)

Uma semana depois da inauguração, Paul McCartney fará dois shows, os primeiros da história da arena. A dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó já está confirmada para dezembro. As próximas atrações devem ser os Rolling Stones, Roberto Carlos e Pharrell Williams. Tudo obra da empresa AEG, contratado para administrar o espaço pelos próximos dez anos, e de Susan Darrington, ex-vice presidente do CenturyLink Field, de Seattle, contratada para lotar a agenda do Allianz Parque. Existe também um anfiteatro com capacidade para 12 mil pessoas para eventos menores, em um espaço que não avança sobre o gramado e, portanto, não atrapalha os jogos de futebol. Sem contar camarotes, salas de reuniões e restaurantes que também geram renda da qual o Palmeiras terá uma parte.

O novo Palestra Itália comporta 43 mil pessoas durante um jogo de futebol, mas a Polícia Militar reduziu a capacidade para 39 mil para separar adequadamente a torcida visitante. Supera um pouco o do Pacaembu, onde o clube costumava mandar os seus jogos. O Paulo Machado de Carvalho oficialmente recebe 40 mil pessoas, mas há muito tempo não tem um público desse porte por razões de segurança. A final da Libertadores entre Corinthians e Boca Juniors, por exemplo, teve um pouco mais de 38 mil almas. A tendência é que a as primeiras apresentações palestrinas sejam realizadas com a casa lotada de pessoas que querem conhecer a novidade.

A lei da oferta e da demanda, aliada à modernidade do estádio, pode ser um argumento forte para o preço dos ingressos subirem, mesmo que isso cause uma (justa) revolta dos torcedores. O Palmeiras tem atualmente o oitavo tíquete médio mais caro do Campeonato Brasileiro (R$ 28,59), segundo dados da Footstats, a oitava renda e a oitava maior média de público do torneio, em 18.014. Todos esses números devem crescer no Allianz Parque, principalmente porque o Avanti, programa de sócio-torcedor, foi recheado com pelo menos 21 mil sócios apenas em 2014, mais que qualquer outro rival no mesmo período.

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O que pode atrapalhar os planos alviverdes nesse sentido é uma discordância sobre o contrato com a WTorre. A empresa acredita que tem direito a comercializar todos os assentos disponíveis e pagaria ao Palmeiras o valor do ingresso mais baixo da temporada passada por cada um deles, todos os jogos. Isso garantiria ao clube uma receita mínima em todas as partidas, mas atrapalharia os sócios-torcedores. O Palmeiras argumenta que o contrato prevê um limite de 10 mil cadeiras.

Mas acima de tudo, o torcedor palmeirense terá novamente um lugar para chamar de casa, depois de cinco anos itinerantes, nos quais passou por dez estádios, de Londrina a Itu, de Campo Grande a Presidente Prudente. O hotel mais frequentado foi o Pacaembu, onde jogou 105 vezes como mandante nesse período e venceu 60 partidas. Um bom aproveitamento de 64% dos pontos, mas inferior aos 74,4% que tem na história do Palestra Itália em 1570 duelos (sempre considerando três pontos por vitória), segundo dados da Porcopedia.

O torcedor vai estranhar o Allianz Parque no começo como alguém cujos pés ainda não se acostumaram ao novo sapato. As piadas terão que ser recicladas, porque nunca mais a bola será chutada por um cabeça de bagre para as piscinas do clube, e nem se sabe ainda aonde a Turma do Amendoim vai se juntar para acionar as cornetas. Deve valer a pena porque o Palmeiras se coloca para o futuro como o dono do estádio mais moderno do país, capaz de ser decisivo para dar um jeito nas contas, caso os seus dirigentes também modernizem suas mentalidades e utilizem o dinheiro com sabedoria. E, no fundo, apenas ao perceber que a multidão verde e branca volta a rumar para a Pompeia, o coração do palmeirense já se enche de emoção.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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