Regulamentos que preveem o desempate entre duas ou mais equipes feito na base sorteio não são nenhuma novidade. Trata-se de um último recurso, necessário pela dificuldade em marcar um novo jogo em um calendário que só ficou mais apertado com o passar do tempo. Definições assim chegaram a acontecer em torneios importantes. Na Eurocopa de 1968, a Itália, que viria a se sagrar campeã, teve de bater a União Soviética na moedinha. Também foi a sorte quem definiu o Brasil como finalista (vencido) da Copa América de 1983, após dois empates com o Paraguai, em um regulamento que, além de ainda não prestigiar a (discutível) regra do gol fora de casa, também ignorava a boa e velha disputa por pênaltis.

Na semana passada, uma combinação de resultados poderia ter feito com que São Paulo e The Strongest tivessem de disputar na sorte uma vaga nas oitavas de final da Libertadores, já que uma vitória tricolor por 2×1 e um empate entre o time boliviano e o Arsenal de Sarandi deixaria os dois clubes rigorosamente empatados em todos os critérios: saldo, gols a favor e gols fora de casa. Há de se lamentar a ausência do confronto direto, o critério de desempate mais justo possível. Podemos dizer que, com a escolha de formas mais esportivas de definir a parada, o sorteio foi ficando para o final da fila e só resolverá alguma coisa caso uma competição tenha um regulamento mal feito ou se o destino resolver brincar com as emoções humanas.

Felizmente, na Libertadores, tudo se resolveu em campo. O São Paulo venceu o Atlético (por 2×0, para não dar mole para o azar de ter de contar com a sorte) e o Strongest perdeu para o Arsenal. Mas a próxima ameaça de um sorteio decidindo os rumos de clubes brasileiros está bem viva. Tudo porque o espetaculoso regulamento do ignora a possibilidade de uma disputa de pênaltis, caso dois semifinalistas empatem no saldo e nos gols marcados fora de seus domínios. É verdade que há ainda outro critério separando as equipes de torcerem em um cara ou coroa. Mas esse só evidencia a bizarrice com que o torneio foi concebido.

Menos mal que em uma semifinal, a parada já está virtualmente decidida: o Sport goleou o modesto Ypiranga por 5×1 e o jogo de volta será na Ilha do Retiro. Mas na outra, o primeiro clássico entre Santa Cruz e Náutico terminou com uma vitória magra tricolor por 1×0, em jogo disputado no Arruda. Não seria nada absurdo caso, nos Aflitos, o Náutico devolvesse o placar, ainda que a defesa coral seja a menos vazada da competição. E a vaga na final do estadual seria definida pelo… número de cartões vermelhos, ou pelo de amarelos. Sim, com a desculpa esfarrapada de reverenciar o fair play, a Federação Pernambucana jogou esse pepino na mão dos árbitros escalados para os dois clássicos.

Pressionado, Gleydson Leite, que apitou a primeira partida, só mostrou um cartão amarelo para cada time, tendo passado em branco por algumas entradas mais duras. Para se ter uma ideia de como o árbitro esteve com o freio de mão puxado na hora de advertir os jogadores, basta dizer que no outro clássico disputado entre Santa e Náutico, pelo segundo turno do Pernambucano, foram distribuído oito cartões. E, sinceramente, eu não conseguiria condenar Gilberto Castro Jr.,encarregado de mediar o segundo confronto, caso ele se force a manter o número de advertências empatado, para que não fique marcado como o homem que decidiu um finalista ao mostrar um cartão.
Pau que nasce torto nunca se endireita

Os problemas com o regulamento do Pernambucano vêm desde o seu início. Com a volta do Nordestão, Santa Cruz, Sport e Salgueiro, os três primeiros colocados do estadual de 2011, só poderiam estrear no final de março. Para não deixar os outros nove participantes parados (cabe aqui a reclamação de que o campeonato continua bastante inchado), a Federação colocou-os para jogar um primeiro turno, cuja única função era dar uma vaga na Copa do Brasil ao seu campeão.

Descontado o fato de que quem ficasse para trás na tabela não teria mais o que fazer durante a reta final dessa etapa, a briga por uma vaga em uma competição nacional poderia até ser divertida, se não envolvesse um grande clube. No caso, o Náutico, que foi quarto no Pernambucano passado e venceu o turno, como era de esperar, mesmo usando um time composto de jogadores da base nas primeiras rodadas, enquanto o plantel principal fazia merecida pré-temporada.

No segundo turno, com todos os doze clubes em campo, foram distribuídas as quatro vagas para as semifinais, o que até o ano passado acontecia após dois turnos. Até aí, tudo bem. O problema é que todos que não se classificaram às semifinais foram encaminhados para o “octogonal do rebaixamento”. E nada do que tinham feito até ali foi aproveitado. Nem mesmo os pontos do segundo turno, onde todos se enfrentaram.

Ou seja, um clube poderia vencer o primeiro turno, ganhar uma vaga na Copa do Brasil, ficar em quinto lugar no segundo turno por uma questão de detalhes e ainda assim disputaria em igualdade de condições o rebaixamento com alguma equipe que tivesse perdido todas as partidas nos dois primeiros turnos. Brilhante. Na prática, para os clubes que lutam apenas para se manter na primeira divisão do estado, o Pernambucano só começou no último fim de semana.

Cenas dos próximos capítulos…

Conhecidos os finalistas do campeonato, poderemos ter uma baita de uma confusão armada, bem como um clube vivendo um grande dilema. O regulamento prevê que, em caso de dois empates, ou de uma vitória para cada lado, seja realizada uma terceira partida para definir o campeão, tendo essa partida o mando de campo da FPF. Algo claramente desenhado para tentar inaugurar a Arena Pernambuco com uma grande decisão. Ainda mais que o saldo de gols não será levado em conta nas finais. Trocando em miúdos: um time pode vencer um dos jogos com uma goleada de 17×0 (ou outro placar absurdo de sua preferência) e ainda assim ser obrigado a disputar um terceiro jogo, caso perca o outro por um mísero 1×0.

Como a Arena Pernambuco ainda não estará em condições de utilização, a polêmica ficará armada, caso Sport e Santa Cruz façam a final do campeonato. Se o Náutico passar pelo tricolor, o terceiro jogo pode ser no Arruda e abrigar com tranquilidade as torcidas alvirrubra e rubro-negra. O mesmo não se pode dizer de uma final nos Aflitos, tendo de dividir o menor estádio da capital entre as duas maiores torcidas do estado.

A Federação trabalha com a hipótese de marcar o terceiro jogo para o Arruda, mas o Sport já berra que não aceitaria, até porque jogaria a grande decisão na casa do adversário, mesmo tendo feito melhor campanha. E tem toda razão. Por outro lado, jogar na Ilha também seria injusto com o Santa, já que, em momento algum, o regulamento pregava esse tipo de vantagem a quem terminasse na frente o segundo turno.

Enquanto isso, o Ypiranga pode ficar de fora da Série D, mesmo sendo o melhor classificado entre todos os que não têm vaga garantida em alguma divisão do futebol brasileiro (O Náutico está na Série A, o Sport na B, o Santa na C e o Salgueiro garantido na Série D, por ter sido um dos rebaixados da Terceirona). O lugar na Série D está guardado para o quarto colocado do Pernambucano, contanto que ele não seja um dos quatro já assegurados. Nesse caso, ficaria para o quinto lugar, o “campeão” do octogonal do rebaixamento.

Conseguindo um milagre histórico e atropelando o Sport, ou vencendo a novíssima decisão de terceiro lugar (um artifício obviamente desenvolvido para tentar evitar que um dos três grandes clubes do estado volte a ficar de fora do Nordestão), o Ypiranga não terá o direito de disputar a competição nacional. Estará classificado para a Copa do Brasil e o Campeonato do Nordeste de 2014, mas não terá uma competição decente para disputar no resto de 2013 (a Copa Pernambuco, torneio quase amador, não conta). Como fica a cabeça de um jogador que vai a campo sabendo que vencer pode deixá-lo desempregado no segundo semestre?

“Qualquer criança faz”

Em depoimento ao Jornal do Commercio, Evandro Carvalho, o presidente da FPF, empurrou a responsabilidade do regulamento esdrúxulo para os clubes e pediu carta branca para elaborar o sistema de disputa do próximo. “Não vou receber críticas por algo que não tenho culpa. Até porque fazer um regulamento é coisa fácil, qualquer criança faz”, declarou. Não sei você, mas eu ficaria preocupadíssimo com o futuro de uma criança que criasse um campeonato como o Pernambucano de 2013. Evandro também criticou a falta de utilidade do primeiro turno e a forma com que os clubes do interior tratam a Série D, considerada deficitária.

Na melhor das hipóteses, o dirigente não teve um mínimo de jogo de cintura para encontrar uma forma de ajudar os clubes por quem deveria zelar. E se alguém lhe deu ideias sem nexo, sua função seria propor uma solução mais aceitável. Vale lembrar também que, mesmo que as ideias absurdas não tenham partido ou caído no gosto dos clubes, todos os envolvidos têm culpa no cartório, porque aprovaram a aberração, no exato momento em que assinaram o regulamento. Aliás, tem sido uma constante que as agremiações pernambucanas demonstrem total subserviência ao que vem da federação, desde os tempos absolutistas do falecido Carlos Alberto de Oliveira.

“Todas as Federações do Nordeste vão adotar a questão dos cartões. O nosso único erro foi não considerar, em caso de empate na distribuição nos jogos semifinais, os cartões de toda a fase de classificação”, disse Evandro, cegando-se para o fato de que isso colocaria a fraca arbitragem pernambucana sob uma pressão insustentável, durante todo o estadual. Cada cartão amarelo viraria um escândalo e geraria discussões sem fim. De quebra,ainda considerou o eventual terceiro jogo de uma final como um ganho, deixando claro que para ele uma vitória magra e uma goleada se equivalem. O que vale é gerar mais renda, dane-se a esportividade.

Com medo de ver o campeonato de seu estado virar chacota nacional, só resta ao torcedor pernambucano, debochado por natureza, iniciar os trabalhos por conta própria. Na capa do caderno de esportes do Jornal do Commercio da última terça-feira, um tricolor e um alvirrubro posam com pés de coelho, diante de uma mão prestes a jogar uma moedinha para o alto. Rir para não chorar tornou-se um hábito desagradável para quem se acostumou a ver o futebol local comandado por dirigentes que mais parecem ter saído da esquete de um programa humorístico. Só faltam mesmo os bordões.

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