Brasil

O Paulinho da Viola dos treinadores

por Raphael Zarko (@raphazarko)

A primeira imagem que tenho na mente de Nelsinho Rosa é dele sendo carregado pelos jogadores do Vasco (hoje, pelo Google, “lembrei” que era Mazinho) e dando volta olímpica no Morumbi lotado de são-paulinos, mas também de muitos vascaínos em 1989, no bicampeonato brasileiro. “Tinha eu sete anos” e a referência a um trecho de música de Paulinho da Viola é para dizer que na minha lembrança Nelsinho era o Paulinho da Viola dos treinadores.

O sorriso aberto, cativante, do senhor de 74 anos de Madureira, do berço do samba e de craques do futebol brasileiro, reapareceu na escada do Madureira Esporte Clube na última quinta-feira, véspera de feriado. Nelsinho estava de camisa vermelha, calça jeans e um sapatinho daqueles que só ele e Evaristo de Macedo ainda devem usar. O que, evidentemente, é o primeiro ponto positivo do ex-treinador de Vasco, Flamengo e Fluminense, com passagem pela seleção brasileira com Lazaroni. Hoje, ele é supervisor de futebol do tricolor suburbano, que revelou ao mundo nomes como Jair Rosa Pinto, Lelé, Isaías, Marcelinho Carioca e até Muriqui (por que não?).

Dias antes de Cristóvão deixar o Vasco, a conversa com Nelsinho era sobre o passado, o futuro do clube e da formação no futebol. As lições, sem a pretensão de terem essa conotação, eram simples, básicas, daquelas que podem soar até inocentes. Nelsinho lembrou que ele e Carlinhos, ex-treinador eterno do Flamengo que hoje está muito doente, eram dupla de meio de campo de marcação na época deles, há mais de 60 anos. Mas de outro tipo.

– Hoje, a marcação é para fazer falta, não deixar os outros jogarem. Mas se você derruba o jogador adversário, a falta faz com que ele continue com a bola. E o objetivo não é tirar a bola para você jogar? A gente vê falta dura, violenta, que, ao invés de tirar a bola, às vezes cria perigo pela cobrança ser realizada próxima à área – opina Nelsinho.

Com Mazinho, Bismarck e Boiadeiro: o laço no Morumbi

Sem constrangimento para lembrar da decepção que teve ao ser demitido do Vasco em 2009, pela gestão do presidente Roberto Dinamite, Nelsinho só lamenta a forma como tudo aconteceu. Ninguém da direção do clube teve coragem de chegar até ele e dizer que era hora de mudanças e que o departamento de futebol amador, das categorias de base, seria todo reformulado. Hoje, três anos depois, ele está sendo novamente reformulado, com Mauro Galvão à frente de algumas mudanças.

O lamento pelo trabalho em categorias de base não passa apenas pelo aspecto técnico. Nelsinho diz que vê garotos serem xingados por treinadores e lembra que nunca tratou os jogadores assim, “até porque não queria dar o direito de ninguém xingá-lo de volta”. Ele treinou Edmundo no início em 1992 e disse que o Animal sempre respeitou a tranquilidade do seu trabalho. Inspiração que tirou de muitos treinadores, incluindo Aymoré Moreira, mas principalmente um nome desconhecido para mim, do argentino Armando Renganeschi, que fez mais sucesso no futebol paulista.

Quase no fim da nossa conversa, perguntei a Nelsinho, com tantos anos de futebol, se era difícil se manter honesto num meio com tantos problemas, tantos interesses e tanta malandragem, ele reagiu com um “claro que é possível. Se alguma coisa está errada, você não é obrigado a fazer”. E acrescentou que qualquer decisão que não leve em conta o talento, o “colocar quem está melhor”, só traz problema para o próprio técnico.

Na semana que Cristóvão, ao sair do Vasco, recebeu todas justas homenagens, em textos bacanas – e espontâneos – de muitos jornalistas, a lembrança vivíssima de Nelsinho, ainda em plena atividade, prova que tipos como de Cristóvão, de Ricardo Gomes e outros não são tão raros assim no futebol. E são eles que ficam para sempre.

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Raphael Zarko

Raphael Zarko, jornalista, corista, errante judeu. Idealista nato do futebol, mais parau João Saldanha e seu jeito peculiar de ver futebol do que teorias e modernismos. O Yougol nasceu no dia primeiro de maio, numa viagem para Buenos Aires, com Eduardo Zobaran e Raphael Zarko. Ele é um resultado de expressões invertidas do jogo, associações indevidas, reflexões descabidas e informações com opiniões. Maior frustração da vida foi não ter visto Pelé e Garrincha jogarem ao vivo. Contato: [email protected] ou @raphazarko. Eduardo Zobaran está de autos. Ou de quarentena, como queiram.

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