BrasilTema da semana

O Palestra Itália, da fazenda de porcos à arena moderna

Talvez porque foi uma espécie de segundo lar para os imigrantes italianos, ou pelo orgulho de ter comprado o terreno com o próprio dinheiro (e uma ajudinha do setor privado), mas o palmeirense tem um sentimento muito forte em relação ao seu estádio. Enche o peito para anunciar a intenção de visitar o Parque Antártica ou o Palestra Itália. Depende do gosto do consumidor. A partir da inauguração da nova arena, haverá mais uma forma de se referir a ele: Allianz Parque.

TEMA DA SEMANA: As histórias mais palestrinas dos 100 anos do Palmeiras

O Palmeiras despediu-se do Palestra Itália que aprendeu a amar desde que começou a mandar os seus jogos em 1917 com uma festa melancólica. Em 9 de julho de 2010, promoveu amistosos entre ex-jogadores e ídolos e do time da época contra o Boca Juniors. Perdeu, por 2 a 0, mas tudo bem. Disputou 1570 jogos naqueles metros quadrados e venceu 1063. Conquistou seis títulos paulistas e a Libertadores da América. Viu o goleiro Marcos tornar-se o atleta que mais vezes atuou no estádio, com 211 partidas. Criou lembranças e desenvolveu hábitos.

A importância histórica do Parque Antártica, porém, transcende o Palmeiras. No começo do século, o esporte ainda era quase exclusivo das elites, e os espaços para a sua prática, escassos. Por isso não surpreende que o Parque Antártica tenha sido palco de dois eventos pioneiros no esporte brasileiro. Em 1908, recebeu a chegada e a largada do “Circuito de Itapecerica”, a primeira corrida de carros da América do Sul. Seis anos antes, foi palco da primeira partida de um torneio oficial no país.

Foi em 3 de maio de 1902. O Mackenzie College jogou contra o mandante Germânia (atualmente Clube Pinheiros) pela primeira rodada do Campeonato Paulista. Eppingaus abriu o placar para o Mackenzie, primeiro gol oficial do futebol brasileiro. Kirschner empatou para os anfitriões, e Alício de Carvalho garantiu a vitória por 2 a 1 dos visitantes. O clube dos alemães mandou seus jogos na região da Água Branca até o início da Primeira Guerra Mundial, quando passou o contrato de locação para o já extinto América. Em condições financeiras precárias, o clube fundado por Belfort Duarte passou a sublocar o campo para o Palestra Italia, que até então disputava suas partidas na Vila Mariana e em outras zonas da cidade.

Os historiadores palestrinos creditam o apelido de porco aos palmeirenses à discussão entre o presidente do Corinthians, Wadih Helu, e o alviverde Delfino Facchina, que impediu o Alvinegro de inscrever jogadores fora do prazo no Campeonato Paulista, depois que dois atletas do clube morreram em um acidente de carro. Antes de bicho ser transformado em mascote, com uma bem planejada ação de marketing nos anos 1980, era uma ofensa geralmente dirigida a imigrantes italianos.

Poderia, também, ser uma referência ao passado do estádio do clube. O Parque Antártica foi construído no final do século XIX em um terreno que abrigava um abatedouro de porcos, propriedade de Joaquim Salles, um dos sócios da Companhia Antarctica Paulista, à época especializada em “fabricação de gelo, banha, presuntos, carnes ensaccadas e outros productos do gado suino”. A empresa usou o espaço para criar uma área de lazer para os seus funcionários, com um parque infantil, restaurantes e choperias. Queria, mais do que promover a diversão, popularizar a cerveja.

Foi apenas em 1920 que o Palestra adquiriu o terreno por 500 contos de réis em três parcelas. Para pagar a terceira, foi necessária a ajuda da Companhia Matarazzo, que comprou uma parte do terreno (onde hoje é o Shopping Bourbon). O acordo tinha uma pecularidade interessante: o clube só poderia vender produtos da Antártica. Essa exclusividade durou 99 anos, de 1904, quando ainda era da empresa de cerveja, até 2003.

Assim que concluiu a compra, o clube começou a pensar em projetos para modernizá-lo. O primeiro deles, ainda em 1921, parecia o Circo Máximo, de Roma. Houve também um concurso aberto a arquitetos italianos para angariar outras ideias, mas nenhum se interessou. O jeito foi apelar para os brasileiros mesmo, e o vencedor, entre 16 candidatos, foi o de Ettore Battiti. No entanto, problemas administrativos impediram que ele fosse executado.

Com a ajuda do dinheiro de Francisco Matarazzo, presidente honorário, o clube foi fazendo pequenas reformas e, pouco a pouco, transformando o campo em um estádio. Inaugurou o Stadium Palestra Itália, em 13 de agosto de 1933, com goleada sobre o Bangu por 6 a 0 e arquibancadas de concreto. Três anos depois, ganhou outro lance de lugares para os torcedores ficarem de pé.

Em 1942, quando o governo brasileiro declarou guerra aos países do Eixo, e havia a possibilidade de confiscar os bens de quem tivesse ligações com Japão, Alemanha ou Itália, o Palmeiras acusa o São Paulo de articular um golpe nos bastidores para ficar com o Parque Antártica. Com a mudança de nome, abandonando o italiano Palestra Italia, o problema acabou, e o Tricolor comprou o Canindé (depois o vendeu à Portuguesa e adquiriu o terreno no Morumbi).

Pouco a pouco, o estádio começou a tomar a forma pela qual ficou conhecido pelos mais jovens. As piscinas atrás do gol da Avenida Antártica, tão famosa por ser acertada pelos chutes tortos de jogadores de qualidade duvidosa que vestiram a camisa alviverde, foi construída com um empréstimo de 5 milhões de cruzeiros do governador Lucas Nogueira Garcez, contraído pouco depois do título da Taça Rio de 1951. Ele ficou animado com a conquista paulista. “Foi um gesto bastante nobre do nosso governador, que mostra estar perfeitamente integrado com finalidade do esporte”, disse o presidente da época Mário Frugiuelle à Gazeta Esportiva.

MAIS PALESTRA: Seis momentos em que o Palmeiras foi mais que um clube

A região da Pompéia abriga diversos córregos (Água Branca, Água Preta, Sumaré) e alaga facilmente. A rua Turiaçu por vezes transforma-se em um rio provisório e seria difícil manter intacta a qualidade do gramado. A solução foi levantá-lo a dois metros e meio de altura. Na mesma reforma do jardins suspensos do Palestra Itália, a arquibancada atrás do gol foi fechada e ganhou o formato de ferradura. Essa estrutura estreou em setembro de 1964, com vitória sobre o Guaratinguetá, por 2 a 0.

E foi a que se manteve por muito tempo. Houve poucas mudanças significativas nos anos seguintes. O placar eletrônico foi instalado, as numeradas descobertas foram ligadas às arquibancadas (e a ferradura se completou), e o setor Visa, para 5 mil espectadores, praticamente inaugurou o conceito de vender ingressos pela internet, ainda em 2007.

Esse Palestra Itália foi a segunda casa dos imigrantes italianos que pegavam o bonde da Mooca ou do Brás rumo à Pompeia para ver o clube jogar. E também de todos os apaixonados pelo Palmeiras, que mesmo não morando na região conhecem as travessas da Turiassu pelo nome e sabem qual padaria vende a cerveja mais barata.

A moderna arena que está sendo construída no local deve ser importantíssima para o futuro do clube, mas o sentimento de união que a ferradura lotada passava ao torcedor, sem nenhuma grade ao longo de toda a arquibancada, será atrapalhado por cadeiras. Não haverá mais bolas caindo na piscina, torcedores pendurados no trampolim ou acendendo e apagando as luzes dos apartamentos daquele prédio na rua Padre Antônio Tomás. Novos costumes, novos hábitos e novas lembranças precisarão ser criadas. Faz parte do progresso, e o torcedor tem que comemorar o novo estádio, mas será impossível não sentir saudades do antigo.

Você também pode se interessar por: 

>>>> Como o Palmeiras ajudou a criar um dos bordões mais utilizados da política brasileira

>>>> As óperas do século 19 explicam a torcida do Palmeiras

>>>> Jornal que ajudou a fundar o Palmeiras ainda vive, com um editor corintiano

>>>> Por que a Taça Rio foi importante, independente de ser Mundial ou não

>>>> Filpo Núñez: o argentino que fez história na Seleção, mas virou folclore

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.