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O melhor time feminino do mundo é brasileiro, e resgatou o orgulho de uma cidade

O Japão é palco de grandes lembranças para o futebol brasileiro. Se muitos torcedores enchem a boca para dizer que são campeões mundiais, é pelos sonhos que foram realizados em Tóquio ou Yokohama. Flamenguistas, gremistas, são-paulinos, colorados, corintianos. Todos com boas histórias das epopeias que viveram nos estádios japoneses. E que ganham a partir deste sábado a companhia de uma torcida longe de ser tão numerosa, mas bastante apaixonada. O São José bateu o Arsenal na decisão da Copa Nestlé. Após o tricampeonato da Libertadores, a Águia do Vale também pode dizer que possui o melhor time do mundo. No futebol feminino, também um prazer enorme.

Não dá para comparar o peso da conquista do São José com o feito dos outros gigantes brasileiros no Japão. A repercussão do futebol feminino é mínima, e o próprio tricampeonato da Libertadores mal foi noticiado pela grande imprensa. No entanto, não dá para diminuir a importância da taça, uma espécie de Copa Toyota do futebol feminino – e, por isso mesmo, chamada de “mundial” diante da inexistência de um torneio chancelado pela Fifa. Enquanto a Seleção feminina ainda persegue o seu primeiro título mundial e a primeira medalha de ouro olímpica, ao menos entre os clubes as brasileiras se colocaram no topo do mundo. A ausência do Wolfsburg, atual bicampeão da Champions League feminina, pode até diminuir um pouco o prestígio. Independente disso, os méritos do São José são muitos. Especialmente, por recuperar a alegria de uma torcida desiludida.

São José dos Campos é a 27ª cidade mais populosa do Brasil, com 681 mil habitantes, e a segunda entre aquelas que ficam fora das regiões metropolitanas das capitais, atrás apenas de Campinas. Por mais que fique a cerca de 100 km de São Paulo, possui um potencial futebolístico enorme. Afinal, por mais que a maioria da população se divida entre os grandes clubes da capital, é inegável o carinho de todos pela Águia do Vale. Que, por conta das péssimas administrações ao longo das últimas duas décadas, maltrata o coração de sua torcida. Assim como aconteceu com o basquete, vice-campeão do NBB em 2012, o futebol feminino veio preencher uma lacuna deixada desde os anos 1990: o orgulho de se dizer joseense através das vitórias no esporte.

Aqui, falo por experiência própria, de quem nasceu e cresceu na cidade. Quando comecei a me gostar de futebol, o São José já vivia os seus últimos momentos na primeira divisão do Paulistão. O time, que foi vice-campeão estadual em 1989 e esteve duas vezes presente no Brasileirão, disputou a elite estadual pela última vez em 1999. Desde então, os momentos de sofrimento são incomparáveis, perto das poucas alegrias e das esperanças perdidas. Após sair da Série A3 em 2006, com um elenco formado por vários jogadores da cidade, a Águia beirou o acesso à elite várias vezes. O grito “Vamos subir Águia” se tornou uma obsessão que nunca se concretizou, sempre por um triz. Até o desastre deste ano, com a campanha ridícula que levou o clube outra vez à terceirona paulista.

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No meu caso, o São José se tornou uma identidade. Uma maneira de me manter fiel à cidade para a qual eu talvez nunca mais volte, mas que nunca deixarei. A paixão pelo futebol cresceu muito desde que saí, e ajudou a fincar ainda mais as raízes. No entanto, para os que continuam em São José dos Campos, a Águia do Vale é um caminho de mostrar a grandeza da cidade. Não é difícil encher o Estádio Martins Pereira, com milhares de pessoas prontas para transformar o brio local em gritos nas arquibancadas. Apesar dos pesares, o futebol masculino conseguia fazer isso, seja na Copa São Paulo ou nas fases decisivas da Série A2. Mas não com o futebol feminino, que realmente dá motivos para o orgulho dos joseenses.

A festa já tinha sido enorme com a conquista do tricampeonato da Libertadores feminina. Embora a entrada fosse franca, quase 10 mil pessoas encheram o Martins Pereira para ver o São José golear o Caracas na decisão, ver a craque Formiga erguendo a taça igualzinha àquela que o San Lorenzo recebeu meses antes. Imagine então a alegria por dizer que é campeão do mundo? Por vencer o tradicional Arsenal, que no feminino é realmente uma potência na briga por títulos? Por poder até mesmo tirar uma casquinha da sina de Arsène Wenger, ainda que ele não tenha nada a ver com isso? Um gosto dado pelas meninas, e só por elas.

As façanhas do São José ensinam bastante. Mostram como o futebol feminino pode ser um bom investimento, garantindo títulos e visibilidade, além do engajamento da torcida. E que, com o interior cada vez menos competitivo em relação aos grandes clubes das capitais, este é um caminho financeiramente interessante – mesmo que, neste caso, haja o envolvimento do poder público por trás.

Por outro lado, o sucesso da Águia também provou que a torcida joseense não está adormecida. Para que o masculino repita um pouco disso, nem que seja no Paulistão, basta um bocado de organização, como a gestão do feminino tem feito muito bem. E que não seja com um novo clube biônico da cidade, como a prefeitura quer com o recém-rebatizado São José dos Campos FC, ex-Atlético Joseense. Tão importante para encher as arquibancadas quanto as conquistas das meninas é a identificação com as tradições do futebol na cidade. Não à toa, os símbolos são os mesmos, assim como as pessoas que vão ao estádio.

Neste momento, porém, o que o torcedor do São José precisa mesmo é comemorar. Sonhar com um próximo passo, com o Mundial de Clubes feminino chancelado pela Fifa, já prometido e que ainda não saiu do papel. Enquanto a falta de inteligência do futebol masculino nega aos joseenses, as meninas só têm dado motivos para sorrir. Para que o canto de “maior do interior” se tornasse maior do mundo e “o rumo à Tóquio”, que nunca passou de uma brincadeira tresloucada no Vale do Paraíba, virasse realidade. Rosana, Bagé, Andressa e as outras craques do time não devem nada aos grandes ídolos da história da Águia – ao contrário, são eles que estão na dívida. E, ao menos na minha humilde opinião, já não existem mais dúvidas que Formiga superou Tião Marino como maior ídolo da história do clube. Ignorando qualquer questão de gênero, o ponto é o orgulho que ela resgatou à cidade.

* Crédito das fotos: Mengo do Japão

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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