Brasil

O craque brasileiro da Copa de 1938 que também lutou na Segunda Guerra Mundial

O Brasil não esteve entre os protagonistas da Segunda Guerra Mundial. A contribuição da Força Expedicionária Brasileira, no entanto, continua marcada na história. Mais de 25 mil militares do país combateram na Europa e ajudaram a vitória dos Aliados. As ofensivas brasileiras contribuíram para a queda dos nazistas na Itália. E, há exatos 70 anos, os pracinhas conquistaram um de seus triunfos mais importantes, o mais sangrento: a Batalha de Montese.

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Entre a tomada da cidade no norte da Itália e a tentativa dos alemães em recuperá-la, o evento durou três dias, destruindo 833 casas e matando 189 civis. O Brasil teve 426 baixas, incluindo 34 mortos. Do outro lado, 497 inimigos foram aprisionados, mortos ou feridos. Onze dias depois, Benito Mussolini seria morto e Adolf Hitler cometeria suicídio na sequência. Já no dia 7 de maio de 1945, o Eixo assinava a sua rendição total e incondicional em Berlim.

Os homens da FEB que lutaram na Itália receberam grandes honras na volta ao Brasil. Incluindo um que, anos antes, já havia sido recepcionado por uma multidão e pelo presidente Getúlio Vargas no porto do Rio de Janeiro. Em 1938, José Perácio era um dos heróis que tornou a seleção brasileira reconhecida pelo resto do mundo, após a campanha histórica na Copa do Mundo. Mas o fato de ter conquistado o terceiro lugar no Mundial da França não livrou o atacante de suas obrigações militares. E o artilheiro dos campos partiu para o front.

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Perácio era conhecido pelo chute potente e pelo ótimo senso de posicionamento, que o tornavam um goleador nato. Mas também se eternizou como um grande personagem fora das quatro linhas, ingênuo e cheio de anedotas. A ponto de Mário Filho dizer que era impossível escrever sobre o mineiro sem colocar o humor à frente da bola. Nascido em Nova Lima, o craque despontou com a camisa do Villa Nova, pelo qual conquistou três títulos do Campeonato Mineiro. De lá seguiu para o Botafogo, em 1937. O sucesso imediato com a camisa alvinegra ajudou que fosse convocado por Adhemar Pimenta para o Mundial.

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A estreia pela Seleção aconteceu na mítica partida contra a Polônia, em Estrasburgo. Perácio marcou dois gols na vitória por 6 a 5 dos brasileiros. Já nas quartas de final, contra a Tchecoslováquia, carimbou a trave com tanta força que a bola sobrou quase na intermediária. Também se machucou, em uma trombada que deslocou a clavícula do lendário goleiro Planicka. O atacante voltou a tempo de perder para a Itália nas semifinais e de marcar o tento que definiu o triunfo por 4 a 2 sobre a Suécia, na decisão do terceiro lugar. Precisou de apenas quatro partidas para escrever o seu nome na Seleção, a grande revelação daquela campanha.

Perácio permaneceu no Botafogo até 1940, quando acabou negociado com o Flamengo. Longe das convocações, se consagrou como uma das grandes referências no ataque rubro-negro durante o tricampeonato carioca de 1943/1944/1945. Após o segundo título, contudo, Flávio Costa precisou ceder o atacante para a FEB. Ele não queria ir para guerra. Inventou apendicite e suplicou até para Eurico Gaspar Dutra, ministro da guerra de Vargas e rubro-negro declarado. Não houve escapatória, por mais que o rapaz simplório e semianalfabeto temesse as armas, desconhecesse as estratégias.

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Antes de partir para a Itália, o flamenguista entrou em campo fardado antes de um amistoso do Brasil contra o Uruguai, realizado para levantar fundos à Cruz Vermelha. Em pleno São Januário, o artilheiro era ovacionado, ao lado de Geninho e Valter – ambos do Botafogo, que também lutariam na guerra. A lista de jogadores brasileiros que estiveram no front, aliás, é extensa. Pelo menos 18 atletas de clubes profissionais se juntaram à FEB. Entre eles Geninho, meio-campista do Botafogo apelidado de “arquiteto” por sua visão; o lateral Adelino, que defendeu o Cruzeiro por 17 anos e disputou 430 jogos pelo clube; e o atacante Nino, quatro vezes artilheiro do Campeonato Paranaense pelo Coritiba. Com tanto talento à disposição, era natural que os pracinhas batessem uma bola quando não estavam nas trincheiras.

1938

Em 1945, com a vitória iminente, os Aliados resolveram organizar uma pequena Copa do Mundo entre os soldados. O time do 5º Exército dos Estados Unidos, do qual a FEB fazia parte, contou com quatro brasileiros: Perácio, o lateral Bidon (São Cristovão), o ponta Walter (base do Corinthians) e o goleiro Bráulio (Atlético Mineiro). Acabaram com a taça. Já em abril, a “seleção brasileira” reuniu sua força máxima e disputou um amistoso contra a força aérea britânica. Os pracinhas venceram por 6 a 2, com gol de Perácio. Bola nas redes para acalmar a tensão do mineiro em relação às bombas que estouravam ao seu redor.

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“Eu tinha pavor de pensar que numa batalha a gente é obrigado a matar para não morrer. E, se fosse o caso, teria de fazer isso. Porque, numa guerra, está em jogo a nação”, dizia. Perácio ficou mais na retaguarda, trabalhando como motorista de oficiais. Nada que tenha evitado o pânico constante pelo risco de perder a vida a qualquer momento.

Na volta ao Brasil, o atacante retomou suas atividades pelo Flamengo. Permaneceu no clube até 1947, somando 97 gols – naquele momento, o sexto maior artilheiro da história rubro-negra e,  atualmente, o 21º da lista. Antes da aposentadoria, também passou pelo Canto do Rio. Despediu-se dos gramados lembrados pelos muitos gols, assim como pelas histórias engraçadas que protagonizava. Faleceu em 1977, aos 60 anos, podendo dizer que foi o único herói brasileiro a triunfar no futebol e na guerra.

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Já que Perácio era também lembrado pelas fanfarronices, reunimos cinco histórias relacionadas ao veterano:

“Sem modéstia, com carro eu nunca vacilei. Procurava sempre ter os mais modernos. E comprava-os com meus gols. Como fiz tantos gols que perdi a conta, é fácil transmitir aos que não me conheceram na época que tive igualmente tantos carros que perdi a conta”.

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Certa vez, Perácio foi abastecer seu carro em um posto em Botafogo. Quando o frentista enchia o tanque, acendeu o fósforo para iluminar o cano e ver se a gasolina estava entrando. O rapaz, obviamente, clamou para que ele apagasse o fósforo. E o atacante retrucou calmamente: “Tudo bem, eu não sabia que você é supersticioso”.

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Ao ver os novos modelos de carro esporte, Perácio ficou maluco e correu para um dirigente do Botafogo pedir o adiantamento. Mas você tem carro, Perácio! “Meu automóvel tá uma porcaria, doutor. Tá igualzinho à defesa do Flamengo”. Era semana de clássico. Para ganhar o automóvel, teria que dar a vitória aos alvinegros marcando um gol. Fez dois. E, se mantivesse a média, o novo acordo é que a gasolina seria de graça. “Posto nenhum viu meu dinheiro”.

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Durante o Brasil x Argentina pela Copa Roca de 1939, a marcação de um pênalti revoltou os jogadores da Albiceleste, que partiram para cima do árbitro, apanharam da polícia e saíram de campo. A marcação foi mantida e Perácio iria cobrar, para desempatar o placar em 2 a 2. Com medo de que Perácio soltasse suas famosas bombas e isolasse a bola, a torcida em São Januário começou a pedir que chutasse fraco. Obedeceu. Tão fraco que a bola quase não passou pela linha do gol.

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Perácio gostava de ouvir os narradores gritando: “Gooooool de Perácio!”. Tanto que chegou a comprar o carro com o som mais potente possível para lhe dar prazer durante os jogos. O atacante estacionou e deixou os alto-falantes ligados no último volume. Balançou as redes e nada de ouvir, do campo, o carro que estava fora do estádio. Desabafou: “Não adianta, comprei o carro errado”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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