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Os 100 anos de Tim: Uma das mentes mais brilhantes do futebol brasileiro

A cena aconteceu durante uma peneira, reza a lenda. Tentando conquistar a confiança do treinador através da disciplina, um dos testados afirmou que “não bebe, não fuma e não vai para a farra”. Acaba retrucado: “Pois aqui você vai aprender a fazer tudo isso”. Este era o espírito de Elba de Pádua Lima, o Tim.  Um personagem singular do futebol brasileiro, tanto pela visão de jogo primorosa quanto pela boleiragem que corria em suas veias. Jogador e técnico lendário, que completaria 100 anos nesta sexta, se ainda estivesse vivo. E que merece ser muito mais recordado.

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Em tempos nos quais Leônidas da Silva e Domingos da Guia eram reis, Tim também está entre os melhores craques do futebol brasileiro na década de 1930. Nascido no interior de São Paulo, começou a sua carreira no Botafogo de Ribeirão Preto, antes de ir para a Portuguesa Santista. E a recusa da seleção brasileira em contar com os jogadores profissionais naqueles primórdios ajudou o prodígio. O meia passou a ser convocado por ser amador e estourou no Campeonato Sul-Americano de 1937. O Brasil não conquistou o torneio na Argentina, mas o jovem ganhou o apelido de “El Peón”, o condutor de rebanhos, pela forma como organizava o time.

Não foram apenas os argentinos que conheceram o talento de Tim. Dono de um dos melhores times da época, o Fluminense buscou o talento para melhorar ainda mais o seu esquadrão. Ao lado de Romeu, Hércules, Russo e outros ídolos históricos dos tricolores, só não conquistou um título do Campeonato Carioca entre 1937 e 1941. Símbolo do clube por sete anos, El Peón disputou mais de 200 partidas oficiais, anotando 72 gols. Eternizou-se como uma verdadeira lenda nas Laranjeiras, em tempos nos quais a rivalidade com o Flamengo chegou ao seu ápice.

A perfeição reconhecida pelos próprios companheiros e adversários. “Tínhamos a impressão que Tim amarrava a bola nos pés com o cadarço das chuteiras. Parecia ficar meses sem errar um único passe”, dizia Romeu. Já Domingos da Guia afirmava que “em dez anos ao lado de Tim, eu nunca o vi errar”. Elogio de outros craques, que dimensionavam o talento do meia.

À direita, Tim, ao lado de Romeu e Leônidas
À direita, Tim, ao lado de Romeu e Leônidas

Nos anos 1930, Tim também viveu grandes momentos com a Seleção. Era um dos nomes mais talentosos do Brasil na Copa de 1938, embora o seu gênio difícil e a discutível impossibilidade de atuar ao lado de Perácio minassem o seu espaço com o técnico Adhemar Pimenta. Bobagem, já que El Peón teve atuação decisiva na famosa Batalha de Bordeaux, quando os brasileiros derrotaram a Tchecoslováquia no jogo de desempate. Assim como os outros companheiros, chegou ao país como grande estrela, recebidos por uma multidão no Rio de Janeiro. A equipe que realmente tornou o futebol brasileiro grande para o resto do mundo.

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A personalidade forte também fecharia as portas de Tim na Seleção, anos mais tarde, com o técnico Flávio Costa. Os anos 1940, entretanto, viram o declínio do craque, que defendeu clubes como São Paulo e Botafogo na sequência de sua carreira, antes de pendurar as chuteiras no Junior de Barranquilla do El Dorado Colombiano.

Desde aquela época, Tim já demonstrava sua aptidão para se tornar técnico. Afinal, além do trato com os jogadores, também possuía uma capacidade tática acima do comum. Tanto que, enquanto ainda atuava, também acumulou o cargo de treinador no Olaria e no Botafogo de Ribeirão. Seu primeiro grande trabalho, contudo, aconteceu na década de 1950, quando chegou ao Bangu. Em tempos nos quais os alvirrubros ainda tinham um forte elenco estrelado por Zizinho, chegou a ser terceiro colocado do Carioca de 1953. Seis anos depois, bateria na trave com o vice diante do Botafogo de Garrincha e Nilton Santos. Teve que se contentar com a International Soccer League de 1960, torneio disputado nos Estados Unidos em que bateu adversários como Sporting, Sampdoria e Estrela Vermelha.

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O fim do jejum no Carioca veio justamente em sua antiga casa, no Fluminense. O Tricolor de 1964 tinha Castilho e Carlos Alberto Torres, batendo o Bangu nos dois jogos decisivos. A partir de então, levantar taças se tornaria rotina. A principal delas, conquistada fora das fronteiras. Em 1968, o comandante levou o San Lorenzo ao primeiro título invicto do Campeonato Argentino desde a adoção do profissionalismo, 37 anos antes. O time que contava com os lendários Telch e Fischer derrotou no jogo decisivo o Estudiantes, tricampeão da Libertadores naqueles anos. Depois, ainda seria campeão com o Vasco e o Coritiba.

O estrategista teve o seu último grande momento no maior dos torneios, a Copa do Mundo. Tim dirigiu o Peru no Mundial de 1982, mas não teve tanto sucesso. A equipe repleta de veteranos parou na primeira fase, com dois empates e uma derrota. Segurou ao menos o 1 a 1 contra a campeã Itália, algo que o Brasil não conseguiria fazer. Dois anos depois, o mestre faleceria no Rio de Janeiro. Nada que pudesse apagar a sua lenda.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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