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No Maracanã e na Turiassu, ações da polícia foram exemplos deprimentes de tratamento ao torcedor

Jogo decisivo para o Palmeiras. Nessa reta final de Campeonato Brasileiro, todos são. A tarde de domingo era agradável, com um sol que incentivava as pessoas a saírem de casa. E a Rua Palestra Itália, antiga Turiassu, tradicional ponto de concentração dos palmeirenses nos arredores do Allianz Parque, estava fria, sem festa, com poucas pessoas, com um clima nada condizente com o momento do time. Tudo culpa de uma ação da Polícia Militar para fechar o cerco em torno de vendedores ambulantes e o comércio ilegal.

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Ao mesmo tempo, o Maracanã assistia a mais um lamentável ato de violência de um punhado de torcedores que simplesmente não conseguem passar uma tarde de futebol sem trocar tapas. As câmeras da televisão e as lentes dos fotógrafos mostraram os rostos deles para o mundo inteiro. Menos para a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que precisou tratar três mil corintianos como gado para identificar os agressores.

As duas ações, em São Paulo e no Rio de Janeiro, durante as partidas dos líderes do Campeonato Brasileiro, foram um sub-enredo deprimente da briga pelo título. Ambas foram desproporcionais diante do que tentavam combater e mostraram, pela milésima vez, como as autoridades que supervisionam o futebol brasileiro são incapazes de lidar com multidões e com pessoas.

Palmeiras x Sport
A Rua Turiassu
A Rua Turiassu antes da final da Copa do Brasil de 2015

A Rua Palestra Itália foi fechada pela PM durante o jogo do Palmeiras contra o Sport, entre a Avenida Antártica e a Pompeia, com bloqueios também nas adjacentes Diana e Caraíbas. Apenas torcedores portando ingressos podiam passar – e nem era necessário, de fato, portar ingresso, bastava apresentar a carteirinha de sócio-torcedor. Em última análise, aquela rua, um espaço público com estabelecimentos comerciais e residências, tornou-se um clube exclusivo para sócios durante algumas horas.

Aqui vale introduzir um pouco de contexto. O promotor Paulo Castilho já havia manifestado sua vontade de acabar com a festa da Turiassu em outras oportunidades.  Segundo ele, a aglomeração de pessoas não é “saudável” e tem que se combater também a venda de bebidas alcoólicas no entorno do estádio. Em outra declaração, disse que há de se buscar soluções para coibir a violência, porque “a grande maioria dos torcedores organizados não sabe se comportar”. Citou, para esse fim, o fechamento das sedes das organizadas e dos bares na região do Allianz Parque. “Torcedores bebem, em garrafas de vidro, se concentram aos milhares, dificultando o controle e até a entrada na arena”, afirmou.

No entanto, não é comum haver grandes atos de violência antes ou depois dos jogos em casa do Palmeiras. Desde a inauguração do novo estádio, o maior caso aconteceu em um clássico contra o Corinthians, quando houve confronto entre palmeirenses e policiais. Mas vale, outra vez, lembrar o contexto: foi ao fim de uma semana de tensão, em que houve discussão entre os clubes sobre a presença ou não de visitantes no Allianz Parque. E seis torcedores foram detidos, ou seja, os responsáveis foram identificados. No geral, há no máximo incidentes pequenos e inerentes à reunião de muitas pessoas.

Também existe a reclamação dos moradores do bairro que, por meio da Associação dos Amigos de Vila Pompéia, chegaram a abrir um inquérito civil para apurar os transtornos ocorridos depois da final da Copa do Brasil, no final do ano passado, ao encontrarem um “bairro arrebentado”, pela manhã. No último domingo, as autoridades finalmente agiram.

Segundo Castilho, em entrevista ao UOL, foi uma medida contra o comércio ilegal de “ingressos, drogas e ambulantes”. Mas se o promotor sabe com certeza o bastante para dizer em voz alta que há ilegalidades sendo perpetradas nos arredores do Allianz Parque, por que ninguém prende os responsáveis? Prefere-se a solução mais fácil: esterilizar o local e tirar as pessoas da rua. Nas palavras do promotor, uma medida restritiva para “estabelecer a ordem”. Nas minhas palavras, varrer a sujeira para baixo do tapete.

Acredito que ninguém, com exceção dos criminosos, seja contra o combate ao crime – aliás, após anos ouvindo cambistas gritarem “compro e vendo ingresso” debaixo do nariz de complacentes policiais, surpreende saber que as autoridades estão preocupadas com o mercado ilegal de ingressos. O problema é a maneira como isso é feito e o preço que se cobra. O torcedor que não fez nada de errado não pode ter o seu acesso a bares, restaurantes e residências coibido. Ele tem direito ao espaço público. Ele tem direito a não comprar ingresso para o jogo e comparecer ao estádio para sentir o clima da partida e acompanhar o seu clube ao lado de seus iguais. É democrático que haja um espaço grátis e irrestrito para o torcedor manifestar a sua paixão, ainda mais dentro de um futebol brasileiro com estádios cada vez mais caros e exclusivos.

O do Palmeiras é o cruzamento entre a Palestra Itália e as ruas Diana e Caraíbas. No dia da final da Copa do Brasil, apenas 40 mil dos milhões de torcedores palmeirenses pode entrar no Allianz Parque. Mas outros milhares puderem mostrar que estavam ali para apoiar os jogadores antes da partida. Com a bola rolando, sofreram um pouco menos porque estavam juntos e, depois do título, comemoraram mais porque estavam juntos. Acabar com um ambiente em que a essência do futebol está tão presente em nome de “estabelecer a ordem” parece um preço caro demais a se pagar. A responsabilidade das autoridades é encontrar uma maneira de combater as ilegalidades e manter a festa que os palmeirenses fazem em torno do seu estádio.

Flamengo x Corinthians

Antes mesmo de a bola rolar no reencontro do Campeonato Brasileiro com o Maracanã, houve violência nas arquibancadas. Alguns torcedores do Corinthians tentaram sobrepor a barreira que os separava dos flamenguistas. Segundo relatos, havia poucos policias no setor. Os corintianos deram socos e pontapés, os oficiais da lei, acuados e em menor número, revidaram com golpes de cassetete e gás de pimenta. Há imagens do que é praticamente um linchamento. Após a confusão, aumentou-se o efetivo na separação entre as torcidas, com uma barreira de 12 homens – o que deveria ter acontecido antes da confusão.

Depois da partida, segundo números da própria PM, cerca de três mil torcedores foram retidos no Maracanã para a identificação dos agressores. Mulheres e crianças foram liberadas, mas os homens foram obrigados a sentar nas arquibancadas, sem camisa porque uma das pistas da polícia era uma tatuagem. Isso durou mais de três horas. Talvez uma pista melhor fossem as imagens dos agressores, que circulavam livremente pela internet, e nas quais era possível ver o rosto de quem estava envolvido.

Essa cena degradante e grotesca contra três mil pessoas foi, sob os olhos da PM, necessária para que 64 torcedores fossem levados à delegacia, o que guarda semelhanças visíveis com a utilização de uma bazuca para matar uma barata e é um flagrante desrespeito aos direitos humanos. Desde então, 33 desses homens já foram liberados, e a Polícia Civil pediu a prisão preventiva de 31 corintianos. Em texto publicado no L!, o sociólogo Mauricio Murad, especialista em violência de torcidas, afirmou que “se o protocolo, que é de conhecimento de todos, fosse seguido, os vândalos corintianos seriam identificados e presos, antes mesmo de agredir covardemente policiais, o que evitaria as lamentáveis imagens de campo de concentração, que vimos por quase três horas, no mítico Maracanã, misturando o joio e o trigo”.

E, então, os clubes entraram na jogada. O Corinthians criticou a Polícia Militar com palavras duras e justas: “É inaceitável que uma briga aconteça dentro do estádio entre alguns torcedores e a Polícia e a mesma não tenha capacidade de prender em flagrante os envolvidos, fazendo com que todos os outros corintianos que lá estejam sejam agredidos como cidadãos”. Isso é mesmo inaceitável, mas, na nota oficial, o clube esqueceu de reservar o mesmo rigor a seus próprios torcedores, que deram início ao problema.

O Flamengo, por sua vez, agradeceu a PM e chamou o modelo operacional do GEPE (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios, braço da PM do Rio responsável pela segurança dos jogos de futebol) de “referência”, sem criticar os excessos. Ou seja: mais uma demonstração de que os clubes ligam apenas para o próprio umbigo e jogam para suas torcidas, sem nenhuma preocupação com o problema mais amplo. O discurso do Flamengo dialoga bem com o do comandante do GEPE, major Silvio Luiz, que afirmou que todos os excessos foram “por parte dos torcedores” .

Em comum nos casos de São Paulo e do Rio de Janeiro está o despreparo de quem é responsável pela segurança dos jogos de futebol. A incapacidade de controlar multidões e de realizar ações pontuais sem criar o caos – o que também vemos com frequência longe dos estádios. Em nome da “ordem”, busca-se a solução que parece mais fácil, sem considerar os efeitos colaterais que essas medidas possam causar em quem não tem nada a ver com o assunto, quando o trabalho das autoridades deveria ser justamente proteger os inocentes sem tolher suas liberdades – de ir e vir, de fazer festa, de andar na rua, de usar uma camiseta.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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