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Mauro Cezar, sobre as organizadas: “É mais fácil à imprensa se apoiar em clichês a se aprofundar”

O noticiário esportivo do futebol brasileiro, nesta semana, se misturou com o caderno policial. No domingo, 31 corintianos foram detidos no Maracanã. Já nesta quarta, um cruzeirense faleceu no Mineirão, sob relatos de que teria sido agredido pelos funcionários que faziam a segurança no estádio. E, para fechar o pacote, um vídeo começou a circular nas redes sociais nesta quinta, mostrando uma confusão entre policiais e torcedores do Sport nas arquibancadas da Ilha do Retiro.

Diante do assunto recorrente, o que mais se vê na grande mídia é o lugar comum. Torcidas organizadas são condenadas como um todo e as soluções apontadas não soam mais do que paliativos. Para debater o tema, conversamos com o jornalista Mauro Cezar Pereira, da ESPN. Ele falou sobre questão, a segurança dentro dos estádios e as medidas que poderiam ser tomadas. Confira:

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Trivela: Como você analisa essa cruzada que existe muitas vezes na imprensa, em separar os “torcedores de bem” e os membros das organizadas como se fossem dois grupos opostos?

Acho que isso é um reflexo de um grande desconhecimento do problema. A imprensa brasileira não se aprofunda nessa questão, que é uma questão de comportamento, é um fenômeno de massas. Ela prefere se apoiar em clichês e nos argumentos, entre aspas, de sempre. É muito mais fácil eleger que quem não faz parte da torcida organizada é uma pessoa de bem, uma expressão abjeta até, e quem faz parte da organizada automaticamente é bandido. Basicamente é isso. Acho que não é reflexo nem de pouco conhecimento, é de desconhecimento mesmo. Se as coisas fossem assim, você não teria nunca uma confusão entre pessoas de bem no trânsito, quando as pessoas de bem em seus carrões modernos discutem e se agridem. Não teria discussão nenhuma em setores caros dos estádios, onde ficam pessoas que gastam bastante pelos ingressos e também se desentendem. Você não teria tanta estupidez nas redes sociais, de pessoas agredindo umas as outras. E muitas vezes são as pessoas com esse perfil, que você frisou, “pessoas de bem”. Então eu acho que é basicamente isso, o desconhecimento e a conveniência de falar aquilo que parece mais fácil. Que em tese vai agradar a um determinado público, que prefere demonizar os mesmos como se os demais fossem todos, entre aspas, pessoas de bem.

Trivela: Qual a razão de fazerem esse tipo de leitura sobre o assunto? Podemos considerar como um conjunto de fatores? Você acha possível que a grande mídia mude essa maneira de tratar qualquer torcedor da organizada como bandido?

Não vai mudar. Primeiro porque não há interesse de fazer isso, as pessoas não parecem interessadas. E é isso: preconceito, desconhecimento, tudo junto. Por outro lado, as organizadas quando se envolvem em confusões, uma atrás da outra, elas ajudam a alimentar essa ideia. Ou seja, os caras que repetem isso sempre se veem com argumentos para a generalização. Eu acho que o grande problema é a generalização. As organizadas, de fato, também protagonizam vários e vários episódios que são condenáveis, alguns muito graves, mas evidentemente que você não pode achar que todo mundo é bandido. No entanto, quando elas fazem isso, alimentam esses que preferem a generalização. E vão repetir sempre os mesmos clichês, isso não vai mudar. Não vejo, olhando no médio e no longo prazo, uma possibilidade de mudar esse ciclo vicioso. Ele tende a continuar sabe-se lá por quanto tempo.

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Trivela: Quais os maiores mitos quando se fala das organizadas?

“São todos marginais”, “é tudo bandido”, “tem que acabar com a organizada”… Esta eu acho que é a pior de todas, a bobagem maior. Porque já se tentou e é inviável acabar. Não tem como você proibir que pessoas se organizem em grupos e se unam para ver um jogo de futebol, nem constitucional é. As pessoas vão continuar se organizando. Nos anos 1990, as organizadas de São Paulo foram proibidas e continuaram existindo. Elas apenas não podiam exibir os seus símbolos nos jogos. Neste exato momento, estamos vivendo a mesma situação. Elas estão proibidas de levar bandeira, camisa, qualquer tipo de artefato que as identifique nos estádios. Mas elas estão lá. E vão continuar ali, porque não vão deixar de existir. Um paralelo que eu traço sempre, sem querer comparar as situações que são, obviamente, bem distintas: no auge da ditadura, qualquer organização de esquerda estava fadada à perseguição e à eventual captura, tortura, morte. Mesmo assim, aquelas pessoas continuavam participando de movimentos, de luta armada e tudo mais. Se com a perseguição de uma ditadura sangrenta, as pessoas não largaram suas convicções, por que os torcedores organizados que fazem parte desses grupos (sejam eles pacíficos ou violentos) vão deixar os seus parceiros e seus ambientes por uma proibição? Evidente que não vai acontecer isso.

Lógico, não estou dizendo que as coisas são iguais. Se numa situação em que o risco para quem participava era muito maior, as pessoas continuavam… Por que hoje, em algo que não vai se caracterizar como um crime, em que ninguém vai ser considerado criminoso por se reunir com um grupo de pessoas para ver um jogo de futebol (a não ser que faça algo de errado), eles vão parar? Isso foi tentado na Inglaterra lá nos primórdios do hooliganismo e não funcionou. Mas aqui se repete a todo instante. Como o grande público não conhece minimamente o problema (se a imprensa conhece pouco, imagina o público em geral, né), quando alguém fala isso, encontra eco. “Tem que acabar mesmo, tem que proibir”. Nós vivemos em um país onde o que mais se apresenta como solução para os problemas é a proibição. “Ah, proíbe isso, proíbe aquilo, não deixa”. A gente vive essa fase aqui. Mas eu acho que essa é a maior bobagem que se repete a todo instante. Uma besteira que dá até vergonha alheia às vezes, quando as pessoas dizem isso como se estivessem apresentando uma solução para o problema. Mas não estão apresentando nada.

Trivela: Na Argentina, existem jornalistas que são especializados na cobertura sobre as barras bravas. Por que você acha que a imprensa brasileira não investe em uma cobertura específica sobre as organizadas, para ajudar a entender como funciona e mesmo para denunciar ou retratar o que existe de errado dentro delas?

Eu vou te responder com uma pergunta: por que a imprensa brasileira não investe mais nas análises dos jogos de futebol, por exemplo no entendimento do jogo, mas prefere basicamente discutir tabela de classificação e resultado? Porque é mais fácil. É mais fácil falar: “Qual o assunto dessa semana, o Palmeiras é campeão ou não é?”. Ninguém discute se o Palmeiras está jogando bem ou se está jogando mal, se o Flamengo que é vice-líder joga bem ou joga mal. Pouco se discute. O que se discute é se vai ser campeão domingo, daqui uma semana, daqui a duas semanas. Porque é discussão rasa. Muitas vezes se parte para esse caminho, infelizmente. A mesma coisa acontece: quem investe em jornalismo investigativo no Brasil? Quais são os jornalistas que buscam realmente a informação que está escondida? São poucos. Os jornais estão sucumbindo, mandam repórteres embora, não investem em boas reportagens, que poderiam ser um diferencial em relação ao factual, àquilo que todos dão. Se não se investe em coisas básicas, muito menos nisso. Não há interesse. Realmente são poucos os colegas que se preocupam em entender o assunto e investigar, e trabalhar em cima disso. Embora seja uma questão diretamente ligada ao futebol, que faz parte da nossa rotina. Mas as pessoas não procuram. Procuram basicamente ficar na coletiva para perguntar se o técnico vai cair porque perdeu dois jogos e outras bobagens.

Trivela: Qual a sua opinião sobre a contratação de empresas privadas para fazer a segurança nos estádios, ao invés da polícia militar?

Eu acho que a polícia militar não deveria fazer policiamento dentro do estádio, porque é um espetáculo privado. Mas não podemos nos esquecer que o Estado é remunerado pelos clubes, sai um pedaço da renda para pagar pelo trabalho da polícia. Essa prestação de serviços é paga pelos clubes – pelo menos é o que aparece nos borderôs dos jogos. No entanto, para fazer essa mudança, é uma caminhada longa. Você tem que regulamentar, você tem que buscar treinamento específico, as empresas de segurança teriam que treinar muito bem equipes próprias para lidar com grandes multidões e com torcedores, para entender as rivalidades, para entender com o que eles estão lidando. Isso não existe. Hoje, tirar simplesmente a polícia e colocar uma empresa privada é piorar as coisas. Mas acho que deveria haver uma discussão mais ampla sobre o assunto.

O caminho seria não ter mais policiais dentro do estádio, como acontece mais ou menos na Inglaterra. O policial só vai lá dentro se ele for chamado, se acontecer alguma coisa grave. Da mesma forma que um policial vai entrar na casa de uma pessoa se alguém estiver querendo matar o outro. Ele pode entrar com ou sem mandado. Tem uma denúncia, a polícia vai arrombar a porta e vai tentar impedir o crime, não vai ficar esperando o mandado, porque é uma situação extrema. Então, se tem uma briga generalizada, se tem uma grande confusão que a segurança privada não consegue dar conta, a polícia pode entrar até para poder prender os caras. A segurança privada pode imobilizar, mas não pode dar voz de prisão. O policial pode. Eu acho que o caminho seria esse. Mas estamos muito distantes disso. Não acredito que aconteça e tenho sérias dúvidas se seriam capazes de, aqui no Brasil, criar esse contingente de seguranças particulares preparados para fazer com que a segurança fosse maior e as coisas caminhassem bem. Isso tudo é teoria. Mas essa teoria, para virar prática no Brasil, é muito difícil. A gente vai continuar com a PM mesmo.

Briga de torcidas marcou o jogo entre Atlético Paranaense e Vasco, no dia 4 de dezembro de 2013 (Foto: Geraldo Bubniak / Fotoarena)

Trivela: O histórico de relações conturbadas entre a polícia e as organizadas facilita a recorrência de episódios de violência?

Sem dúvidas. É uma rivalidade. A PM tem rivalidade com as torcidas organizadas. O que você vê quando tem uma briga de policiais militares com organizadas, aquilo ali muitas vezes é como se fossem duas torcidas brigando. Na Argentina também é assim. Essa rivalidade vem em parte por culpa das torcidas e em parte por culpa da polícia, que também faz abordagens erradas. Ao invés de mediar o início de uma confusão, ela chega batendo e  às vezes criando uma atmosfera mais agressiva. Muitas vezes eles demonstram despreparo. E isso não acontece só nos estádios, acontece nas ruas também, em várias situações que a gente acompanhou em tempos recentes. Mas existe uma rivalidade evidente. Acho que foi isso que aconteceu entre os corintianos e a PM do Rio.

Trivela: No caso do Mineirão, você acha que a ação da PM serve de espelho para a atitude dos seguranças? E se um dia houver essa contratação de empresas privadas para a segurança dentro dos estádios, dá para esperar que o modo de operação será diferente?

Como eu falei a você, eu acho improvável que no Brasil as pessoas sejam capazes de montar essas equipes bem preparadas. Difícil que funcione. Por uma série de razões, as coisas que aqui não funcionam como deveriam. Na teoria, seria pra mim o ideal. Na prática, acho difícil acontecer. O que ocorreu lá talvez até reforce essa tese. Os caras foram contratados para fazer a segurança no estádio e houve uma morte. Alguém errou. Houve uma morte. Alguma coisa não saiu bem, independente das circunstâncias. A não ser que fique comprovado que o cara se matou, mas não parece que foi isso. Em suma, eu acho pouco provável que a gente consiga ter essas equipes bem preparadas. Na teoria seria o ideal. Não com o pessoal atual, mas com gente bem treinada.

Para começo de conversa, você precisaria ter inteligência por trás desse treinamento, gente com bom conhecimento do que são as torcidas e tudo mais, mas eu acho que não tem muito não. Inclusive, até os policiais militares que comandam o policiamento em alguns estádios, eles conhecem o problema, mas o tratamento em geral (isolamento, interdição de milhares de lugares para separar as torcidas, segurar os ônibus para a organizada chegar no estádio só no intervalo do jogo, causando mais animosidade) e as estratégias muitas vezes são discutíveis. Se nem a polícia consegue fazer, acho muito difícil que alguém tenha o conhecimento e o domínio para elaborar uma maneira mais adequada para esse tipo de segurança. Formatar isso, realizar o treinamento. É uma caminhada tão longa que eu custo a acreditar que vai dar certo. Espero, se acontecer um dia, estar errado.

Trivela: A imprensa dificilmente trata de maneira individual os episódios de violência no futebol. Esse tipo de tratamento não alimenta um ciclo vicioso do sentimento de impunidade em quem comete os atos violentos? Tratar a violência a partir dos indivíduos, ao invés de sempre atribuir aos grupos, não poderia ajudar neste sentido?

Acho que sim. A imprensa atrapalha muitas vezes. Ela não conhece o problema, ela não ataca as causas, ela sugere coisas que comprovadamente não funcionam. É o que acontece, são muitos erros. Se a imprensa não se aprofunda, salvo exceções, como é que ela vai colaborar? Sobre as punições, acho que a saída para acabar com isso é: o cara brigou, que tipo de delito ele cometeu? Existe uma lei no país. Ele vai pagar de acordo com o delito que ele cometeu. Então você pune o indivíduo, não a torcida, o clube, tira o mando de campo… E no momento em que você pune o indivíduo, os outros pensam duas vezes antes de fazer uma coisa errada. Vai chegar uma hora que o camarada não vai fazer mais esse tipo de coisa, porque ele vai ver que a impunidade acabou. Digamos, o cara é um ladrão, se tem uma rua sem policiamento em que é fácil para ele assaltar, ele vai agir ali. De repente colocaram policiamento ali, prenderam três ou quatro, e a coisa ficou complicada. “Opa, não vou mais ficar mais ali”. Talvez ele não deixe de ser ladrão, mas ali ele não vai ficar mais. Então, o cara que briga no estádio de futebol, que gosta da confusão, que procura a encrenca, no momento em que o futebol não for mais um ambiente favorável para isso, ele vai parar de brigar, ou vai brigar longe do estádio, ou vai brigar por outra motivação. Ele não vai se envolver mais ali, porque sabe que a punição existe. Na Inglaterra aconteceu assim.

Por outro lado, a gente tem uma situação se for comparar com outros países. Na Inglaterra eles não têm a criminalidade que existe no Brasil. O Brasil é o líder do ranking mundial de homicídios. A justiça no Reino Unido não lida com a quantidade de delitos que são cometidos no Brasil. Muitas vezes uma briga de torcida é uma questão menor em uma cidade onde houve uma chacina ou outros crimes. Esse é o ponto. Para lidar com isso não é fácil. Nossa estrutura não é capaz de absorver tudo o que acontece, dificulta muito as coisas. O que na teoria é a saída, porque funcionou em outros países, para a gente é inviável por conta da nossa realidade. Da violência que existe aqui, da criminalidade, da demanda que recebem os policiais, os juízes. Você imagine um juiz que está lidando com vários crimes pesados. De repente brigaram 15 caras da torcida organizada, prenderam 12. Ele vai dar prioridade a isso ou a algum crime bárbaro que aconteceu? É complicado. No Brasil é bem  difícil. Por isso que a discussão precisava ser mais ampla, o conhecimento do problema tinha que ser maior. Mas pouca gente entende ou conhece pra valer.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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