Brasil

Leônidas, o craque que apresentou Flamengo e São Paulo às massas

Leônidas da Silva foi um pioneiro no futebol brasileiro. Mais que um craque, o atacante foi um ícone, mesclando seus feitos nos gramados com episódios representativos fora deles. Artilheiro da Copa de 1938, foi o primeiro jogador brasileiro a ser reconhecido mundialmente. Como “Homem Borracha”, inventou o gol de bicicleta. Como “Diamante Negro”, teve seu nome usado em um dos chocolates mais populares do Brasil até hoje. Também foi garoto-propaganda de geladeiras a cigarros, precursor ao contratar um assessor de imprensa e a se transformar em comentarista de rádio após a aposentadoria. E, principalmente, foi o responsável por fazer que Flamengo e São Paulo se tornassem clubes de massa.

Mas, para entender como um jogador da década de 1930 e 40 teve um papel tão decisivo na história de duas das três maiores torcidas do Brasil no século 21, é preciso compreender o que ele representava em seu tempo. Ao lado de Zizinho e de Friedenreich, Leônidas foi um dos grandes nomes da Seleção que ainda não tinha sido campeã do mundo. Em 37 jogos pelo Brasil, o atacante anotou exatos 37 tentos, naquela que ainda é a melhor média de gols da equipe nacional – em recorde dividido com Quarentinha. Sua popularidade era tamanha que, em campanha feita pela Companhia de Cigarros Magnólia em 1939, foi eleito o jogador mais popular do Brasil. Recebeu 300 mil votos, o triplo do segundo colocado.

“Leônidas é uma lenda do papel. É um jogador que quase ninguém viu atuar, mas que quase todos colocam como um dos melhores de todos os tempos. Quem assistiu a seus jogos, sempre exalta a quantidade de gols, a beleza dos lances, a plasticidade”, comenta André Ribeiro, autor de Diamante Negro, a biografia do craque. “Leônidas era um ídolo e soube captar muito bem a admiração do povo, como muitos não souberam. Por isso eu digo que ele foi o primeiro Pelé do futebol brasileiro. A exposição era imensa, mas ele soube lidar muito bem com isso”.

A fama de Leônidas também era impulsionada por sua capacidade de quebrar barreiras. Aos 19 anos, o atacante saiu do país para buscar o profissionalismo – quando estava no Bonsucesso, chegou a leiloar gols entre os torcedores presentes no estádio para arrecadar dinheiro. Então desconhecido, estreou na seleção com uma atuação estrondosa contra o Uruguai e foi imediatamente levado pelo Peñarol. Depois de uma temporada com os carboneros, foi contratado pelo Vasco e ajudou não apenas a inaugurar a era profissional, mas também protagonizou a abertura crescente do esporte aos negros.

Em especial, o Diamante Negro é icônico para dois grandes clubes do país. Embora tenha passado rapidamente por Vasco e Botafogo, foi vestindo as camisas de Flamengo e São Paulo que o atacante provocou as transformações mais profundas. Se rubro-negros e tricolores têm milhões de torcedores, devem muito a seu Diamante, principal responsável pela popularização de ambos nas décadas de 1930 e 1940. Motivos a mais para o craque ser celebrado neste 6 de setembro, data em que completaria 100 anos se ainda estivesse vivo.

“Leônidas tornou o Flamengo um clube de massa”

FUTEBOL- JAIR ROSA PINTO

Inegavelmente, o Flamengo tem sua origem ligada às elites. A criação do clube de regatas em 1895, bem como a fundação da equipe de futebol em 1912, foram proporcionadas por membros das classes mais ricas do Rio de Janeiro. O próprio bairro do Flamengo, onde a história dos rubro-negros começou, já era conhecido como uma das áreas mais valorizadas da então capital federal.

A mudança do público do Flamengo acontece a partir da década de 1930, quando o clube transferiu-se para a Gávea e foi assumido pelo presidente José Bastos Padilha, em 1933. “Foram duas as grandes contribuições de Padilha para o Flamengo: deferir o profissionalismo, ao qual o Flamengo não havia aderido em um primeiro momento, e abrir as portas aos jogadores negros, contratados em massa na sua gestão. Neste período, chegaram vários craques negros, como Domingos da Guia, Fausto, Waldemar de Brito e Leônidas da Silva”, relata Roberto Assaf, colunista do Lance! e autor de diversos livros sobre o Flamengo.

O jornalista conta que, ao lado da sede da Gávea, se localizava a Favela da Praia do Pinto, uma grande comunidade de planície do Rio de Janeiro. Leônidas foi o responsável por romper, simbolicamente, o muro que separava o clube de futebol da população mais pobre. “Talvez o Flamengo não fosse um clube de massa sem a passagem de Leônidas. Não digo que não seria popular, o que já era desde a sua fundação, nos tempos em que havia a equipe de remo. Mas, considerando a evolução do processo, não sei se teria a proporção atual”, analisa Assaf.

Leônidas chegou ao Flamengo em 1936, trazido do Botafogo. E o sucesso do artilheiro da Copa de 1938 refletiu diretamente no impulso tomado pelos rubro-negros, conforme revela o jornalista: “Leônidas era o representante do Flamengo na Copa. Era um jogador querido pelo Brasil inteiro, já que a terceira colocação foi considerada uma honra imensa. Além do mais, aquele Mundial teve enorme repercussão, o primeiro transmitido ao vivo pelo rádio. Leônidas teve bastante exposição”.

Afinal, além de ser admirado por grande parcela da população, Leônidas era a identificação de sucesso dos negros. “Ele tinha uma atitude de valorizava os negros. Leônidas peitava os dirigentes, frequentava os lugares de elite. Era engrandecido pelas atuações, mas também pela imagem”, comenta Assaf, lembrando ainda das fortes marcas do racismo na sociedade brasileira. “O racismo era notório, em uma situação bem mais exposta. Leônidas sofreu preconceito, principalmente por ser uma pessoa pública. Além disso, a luta pelo profissionalismo não era bem vista na década de 1930. Por 10 anos o Jornal do Brasil combateu a profissionalização dos atletas, dizendo que o futebol estava se mercantilizando, se acabando”.

O melhor do Brasil passou oito meses na prisão

leonidas prisão

Leônidas deixou o Flamengo em 1942, tendo como maior glória o título carioca de 1939. Embora tivesse conquistado as multidões, foi na Gávea também que viveu seus piores dias. O artilheiro entrou em litígio com o presidente Gustavo de Carvalho por se recusar a viajar em uma excursão à Argentina. O jogador convivia com uma séria lesão no joelho e, forçado a entrar em campo pelo clube, se prejudicava cada vez mais. Enquanto isso, os rubro-negros o acusavam de fazer corpo mole, insatisfeitos com os amistosos menos lucrativos sem Leônidas, e por ser mercenário, pela quantidade de peças publicitárias que participava.

A solução dos dirigentes flamenguistas para punir Leônidas, porém, foi um tanto quanto extrema: pediu a prisão do astro. “Ele foi preso por tabela. Mesmo sendo o melhor jogador do Brasil, Leônidas não ganhava tão bem e foi buscar um emprego público. Mas, para regularizar a documentação, arranjaram um certificado de reservista falsificado”, contra André Ribeiro. “O Flamengo entrou com um processo e ele foi preso pelo exército. Imagine, uma estrela como Leônidas, na gaiola! A prisão durou oito meses e foi folclórica, ainda que os militares precisassem cumprir a pena”.

O Diamante Negro tentou ficar livre do Flamengo, mas a justiça manteve seu passe preso aos cariocas. A resolução para o imbróglio só aconteceu quando o São Paulo manifestou seu interesse pelo craque. Por 200 contos, valor recorde envolvendo um jogador brasileiro na época, os tricolores contratavam Leônidas. O atacante trocou o Rio por São Paulo, deixando milhares de fãs – muitos mais do que tinha quando chegara à Gávea.

“Leônidas abriu as portas para o São Paulo ser grande”

leonidas bike

Apesar das divergências conflitantes sobre a fundação do clube, o fato é que o São Paulo era um clube sem expressão no início da década de 1940. Leônidas foi contratado justamente para mudar esse panorama, sendo a estrela do forte time montado pelos tricolores. “O São Paulo investiu pesado para montar um esquadrão. E isso foi importante, já que Leônidas não teve tanto peso por ser o grande nome. Eu considero a década de ouro para o clube, que garantiu o primeiro título e o tornou popular”, diz Ribeiro.

As desconfianças sobre Leônidas eram grandes em São Paulo. Afinal, o jogador vinha sofrendo com os problemas no joelho e acabara de passar oito meses na prisão. “A própria imprensa paulista o tratava como um bonde, um jogador ultrapassado, velho demais”, afirma Assaf, ressaltando a forte rivalidade entre paulistas e cariocas. Mas o craque provou que era capaz de dar a volta por cima e o próprio período na cadeia o ajudou a isso, como conta o biógrafo: “Os meses preso ajudaram o Leônidas a se recuperar dos problemas físicos, foram fundamentais. O clube apostava tudo no maior jogador da época e ganhou um herói”.

A recepção na chegada em São Paulo foi marcante. Leônidas desembarcou na Estação do Brás e foi recebido por quase 10 mil pessoas. Já a estreia, contra o Corinthians, ainda hoje é o recorde de público do Pacaembu: 72.108 pagantes. “Os relatos dos jornais da época são incríveis. As pessoas se espremeram, ficaram de lado para ver o jogo. Às 10 horas o público começou a chegar, ao meio-dia o estádio estava lotado e às 13 horas os portões foram trancados. Não dá nem para dizer que contavam as pessoas a mais, porque não dava para entrar e sair. E, como não existia o tobogã, muitos viram o jogo nos morros do lado de fora”, narra André Ribeiro.

Recém-fundado, o São Paulo não era tão popular assim. A imagem de ídolo de Leônidas é que causava tamanha comoção: “É evidente que não existiam tantos são-paulinos. Foi a cidade que se mobilizou para receber Leônidas, ver o melhor jogador da época”, analisa Ribeiro. Até então, os tricolores nunca tinham conquistado um título. Dizia-se que se uma moeda fosse jogada para cima e desse cara, o Corinthians seria campeão; se desse coroa, o Palmeiras ficava com a taça. Em 1943, o São Paulo rompeu o domínio da dupla e a brincadeira era de que a moeda caíra em pé.

O grande time montado pelo São Paulo rendeu não só um, mas cinco conquistas do Campeonato Paulista, na década mais vitoriosa do clube até os anos 1980. O time cresceu graças ao talento de Leônidas, como confirma Ribeiro: “Ele representou tudo para o São Paulo, não é à toa que o clube o reverencia até hoje. Leônidas abriu as portas para o São Paulo ser grande. A contratação foi o marco zero para o clube, levando-o aos títulos e garantindo uma grande massa de torcedores”.

Leônidas da Silva encerrou a carreira em 1950. Presente em duas Copas do Mundo, não teve a chance de participar da terceira, tendo atuado a última vez com a camisa amarela em 1946. Mesmo sem entrar em campo, permaneceu ligado ao futebol como dirigente e como comentarista. Já em 1974, teve que se afastar dos trabalhos ao ser diagnosticado com Mal de Alzheimer. O craque viveu até os 90 anos, falecendo em 2004. Deixou como legado uma história riquíssima, a lembrança por ter sido um dos melhores jogadores da história e a transformação de dois dos clubes mais vitoriosos do Brasil.

* Para conferir mais sobre a história de Leônidas e também sobre livros de futebol, vale conferir o site Literatura na Arquibancada, escrito por André Ribeiro. Além disso, outro bom material sobre o Diamante Negro é o documentário produzido pela TV Cultura, para o programa Grandes Momentos do Esporte

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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