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[E se…] A estrondosa campanha do America de Adriano no Carioca 2016

Você deve ter visto que Adriano acertou sua volta ao futebol nesta sexta. Vai jogar em uma das ligas secundárias dos Estados Unidos, pelo Miami United, clube do qual também se tornou sócio. Porém, durante as últimas semanas, muito se especulou para onde o Imperador iria. E o tradicionalíssimo America apareceu como um dos interessados. Resgatando a seção “E se…”, da antiga revista Trivela, imaginamos o quão épica poderia ser a participação do centroavante no Carioca de 2016 com o Mequinha. Viagem pura, é claro. Uma brincadeira com o folclore e com as histórias mais simples do futebol.

Quando, às vésperas da estreia no estadual, o America convidou em peso a imprensa carioca para uma entrevista coletiva, alguns já suspeitavam o que esperar. A especulação tinha surgido nos noticiários dias antes, mas parecia fantasiosa demais para acontecer. Só que aconteceu de verdade. Quem quisesse se surpreender, poderia ficar à vontade. Na chegada à sede do clube, os repórteres eram recebidos por um rapaz sorridente, com a felicidade reproduzida em suas fotos nas redes sociais. Adriano prometeu voltar, e voltou. Aceitou a proposta do Mequinha para disputar o Campeonato Carioca de 2016.

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A primeira coletiva deixava claro que não tinha nada de engenharia financeira dos alvirrubros. O antigo Imperador seria trabalhador comum, recebendo simbolicamente um salário mínimo. Viu no espaço oferecido pelo tradicional clube do Rio de Janeiro a chance de voltar sem se arriscar tanto e sem precisar abandonar todo aquele ambiente que tanto amava. A Vila Cruzeiro seguiria ao seu alcance quando quisesse se refugiar. E o próprio contrato proposto pelo America permitia essas escapadas do centroavante, ao contrário de seus últimos clubes. Se não existia grande investimento, também não havia muito direito de cobrá-lo. Didico só queria ser feliz, e o que os americanos fizeram foi abrir as portas para isso.

A apresentação em Édson Passos escancarava o clima que Adriano iria ter em sua nova casa. Parte das arquibancadas foi tomada por jornalistas sedentos por fotos do Imperador. Mas em sua maioria dos presentes era composta mesmo por torcedores do Mequinha e por admiradores do artilheiro. Uma parte do alambrado acabou tomada pela faixa: “Chegou Chatuba”. E nada mais justo que a escola de samba Chatuba de Mesquita, ali do reduto, fosse chamada para embalar a festa. Didico, em bermuda e chinelo, não escondia a alegria. Sua volta parecia mesmo um reencontro entre seu verdadeiro mundo e a antiga vida no futebol. O “retiro espiritual” no morro recuperou a gana de estar novamente em um campo.

adriano

Durante os treinos, Adriano demorou pouco para se adaptar. A recuperação física já tinha acontecido, mesmo sem o vigor de antes. E o America, recém-promovido à elite do Carioca, contava com um elenco de velhos conhecidos do veterano. Wagner Diniz, Fábio Braz e Jean ajudavam o restante dos companheiros a entender as pequenas quebras de limites do companheiro famoso. Um atraso ou outro não tinha muitos problemas. Não só por aquilo que o Imperador poderia fazer em campo, mas pelo próprio clima que ele trazia para dentro do clube. Era ouvir as gargalhadas do centroavante e ver o que poderia acontecer.

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Não que o fôlego fosse problema, mas o America preferiu poupar Adriano da estreia do Carioca, contra a Cabofriense. Ainda assim, o veterano quis se concentrar com o grupo – e, como ninguém é de ferro, dar uma passada breve nas praias de Cabo Frio. A estreia ficou para o compromisso seguinte, em Édson Passos. Motivação suficiente para o velho artilheiro: o Mequinha receberia o Vasco. A primeira chance para o homem brilhar.

Na entrada em campo, eis que o vulto segue direto para o banco de reservas. E, nas costas, o número chamou atenção, surpreendeu: Adriano largou mão da camisa 10. Vestia a 11, uma digna homenagem ao torcedor alvirrubro mais ilustre, Romário – também, claro, uma pequena jogada de marketing. Passaram-se 70 minutos no relógio quando, enfim, Adriano voltou a pisar no gramado. O cenário nem era dos mais favoráveis, com o Vasco já vencendo por 3 a 0. A movimentação, ainda limitada, deixava algumas interrogações. Mas aí veio a prova irrefutável do retorno. Uma sobra de bola na entrada da área, pingando, no jeito para a canhota de Didico. O chute forte seguia calibrado. Bola no ângulo do goleiro, para diminuir o prejuízo dos mandantes e encher os torcedores de esperança.

Adriano não precisou de tempo para aparecer entre os titulares. No entanto, mesmo em forma, não conseguia completar mais do que 60 minutos em campo. Já era o suficiente. Tinha problemas na mobilidade, mas sua qualidade era de sobra diante dos adversários. Por mais que não fossem abundantes, os gols apareciam. De cabeça, definiu o empate fora de casa contra o Macaé. Já contra o Bangu, levou a galera ao delírio em Edson Passos ao balançar as redes duas vezes, garantindo a segunda vitória na campanha. Passou em branco nas duas partidas seguintes, diante de Boavista e Portuguesa. Mas, no fim da primeira fase, teve papel fundamental contra o Fluminense. A cabeçada certeira, no fim do primeiro tempo, valeu o empate com o Tricolor. Também a classificação no último instante para o grupo principal da segunda fase, arrematando a quarta posição, a última disponível.

Adriano

Já era uma vitória para o America. Depois de quatro anos no inferno, não corria mais riscos de voltar à segunda divisão do Carioca. Mas ainda mais notável era a felicidade de Adriano por tudo o que estava a sua volta. Era visto na noite, sim, e daí? Resolvia em campo. E dava diversas provas de sua leveza. Depois de cada jogo em casa, ficava ali por Mesquita, cadenciando um samba com a galera para animar o verdadeiro show da rodada. Durante os treinos, se rodeava com os garotos da base, não só para ensinar, como para também brincar.

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Tal qual um Garrincha (sem os dribles fascinantes), o Imperador demonstrava o mesmo magnetismo pela inocência. Os repórteres, que no começo amontoavam-se nos treinos, nem incomodavam tanto. Tinham mais causos que polêmicas para publicar. O convite para um bate-bola ao menino de rua na porta do treino, o telefone trocado com uma fã em meio à distribuição de autógrafos, o baile de favela com os companheiros comemorando a classificação. Ainda assim, também era preciso jogar bola.

Na segunda fase do Carioca, os encontros com os grandes se tornaram mais frequentes. E a tarefa de Adriano, mais difícil. Passou em branco contra Vasco e Botafogo – quando, pelo menos, o Mequinha empatou por 0 a 0. No Fluminense, fez um belo gol de pivô, o que não evitou a derrota. Mas compensou quando ia para os subúrbios. Em Moça Bonita, o gol de canela valeu os três pontos. E diante do calor costumeiro em Bangu, não se fez de rogado ao aceitar uma cervejinha nos arredores do estádio. Também se sentiu em casa na visita à Rua Conselheiro Galvão, marcando dois contra o Madureira e partindo para o Cacique de Ramos logo ao ser substituído, sem nem deixar o jogo acabar. Faltou só fazer a diferença contra a Portuguesa, o que deixou a situação na tabela mais complicada.

A classificação para a fase principal do Campeonato Carioca já não era possível. Ainda assim, o America poderia buscar naquela etapa final a vaga na Taça Rio – neste ano, uma espécie de “prêmio de consolação” no estadual. Já estava ótimo para as suas pretensões. O problema era barrar o Flamengo, errante, precisando ao menos de um empate para seguir na disputa pelo título carioca. Adriano estava claramente incomodado. Perdeu um gol feito no primeiro tempo, que até parecia de propósito, para não ferir seu coração. Pela primeira vez na campanha, o Mequinha não abriu mão de seu camisa 11 durante os 90 minutos. E viu as desconfianças se dissiparem aos 38 da etapa final. Uma sobra de bola na pequena área e a canhota não falhou. Não houve comemoração, sobrou um sorriso amarelo pelo empate. Que não eliminou o Fla e ainda botou o Diabo na Taça Rio.

didico

Como as pipas que soltava na Vila Cruzeiro, Adriano chegou às semifinais da Taça Rio voando. E não perdoou contra o Volta Redonda, com uma bomba na cobrança de falta para dar a classificação ao America. Na decisão, restaria apenas o confronto com o Bonsucesso, valendo também vaga na Serie D. Édson Passos ficou pequeno para tamanha multidão que enchia as arquibancadas. Tanto quando os alvirrubros campeões, também queriam ver o reerguimento de Adriano, nem que fosse no local humilde que escolheu para trilhar o retorno. Estava acontecendo.

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O jogo foi pegado. A zaga adversária abusava das faltas em Adriano. E quem disse que isso tirava o sorriso de seu rosto? Correu muito, ao contrário do que poderiam prever, embora não conseguisse se aproximar do gol. Mas quem é craque não precisa estufar as redes para decidir. E, puxando três marcadores, o Imperador deu um passe de calcanhar para Jean arrematar. Não era só Didico que sentia o gostinho da glória. O Mequinha também ganhava a oportunidade de reviver os seus bons tempos, com a taça (de segundo escalão) do estadual e a volta às divisões nacionais. Vitória sofrida por 1 a 0, suficiente para o pagode logo começar.

Na entrega do troféu, Adriano preparou uma camisa especial. Na frente, um clássico: “Que Deus perdoe essas pessoas ruins”. Mas a inovação veio às costas, com uma clara referência ao apelido do America: “Porque o Diabo não vai perdoar”. Nas caixas de som do estádio, a voz de Tim Maia cantando o hino americano ecoava. E a coroação veio com a presença de Romário, agradecendo o antigo pupilo pelo afago. Adriano era um menino naquela festa, que rolou noite adentro. Terminou a campanha ainda como terceiro na artilharia do estadual, com 11 tentos. Difícil imaginar uma volta que combinasse tão bem o triunfo com a liberdade de não perder noitadas ou as tardes na Vila Cruzeiro.

A partir de então, pairavam as dúvidas. O que vai ser do futuro de Adriano a partir de então? Alguns grandes já estavam em seu encalço, ele iria aceitar a proposta? Ou ficaria no America também para jogar a Serie D? Naquele momento, para o próprio veterano, toda aquela conversa pouco importava. O que valia mesmo era a alegria imensa de sentir o futebol outra vez, sem perder a sua essência pessoal. De provar que ainda podia fazer muito. De escrever o folclore da bola. Quem acompanhou de perto a sua vontade, no fim, também se sentiu satisfeito. Só tinha a agradecer Didico pela história que puderam presenciar. Mais do que um grande jogador, o Imperador provou mesmo que é um grande ser humano.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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