Brasil

Iniciativa privada investindo no futebol. Copa? Não. Icasa

De time com menos recursos da Série B e favorito ao rebaixamento a uma das maiores surpresas (provavelmente a maior) da temporada brasileira. O Icasa está perto de se tornar o primeiro clube do interior do Nordeste a chegar à elite nacional desde que Treze e Central entraram na segunda fase da Copa Brasil de 1986 após vencerem seus grupos no Torneio Paralelo (sim, o regulamento era confuso nesse nível). E a história dessa campanha, que já é legal por si só, fica melhor a cada dia.

A Rádio Vale, de Juazeiro do Norte, decidiu ajudar o clube. Por isso, pediu contribuições financeiras aos ouvintes para engordar o bicho dos jogadores. A boa vontade dos torcedores foi gigantesca. A campanha fica aberta durante o programa de esportes, das 18h às 19h (local) e, em quatro dias, a arrecadação superou os R$ 50 mil. Segundo o radialista Delton Sá, à frente da ideia, geralmente o elenco divide entre R$ 10 mil e 15 mil.

A iniciativa de ajudar o Icasa é muito legal, mas o que chama a atenção é como essa ideia despertou o, digamos, espírito empreendedor de Juazeiro do Norte. Os taxistas de uma cooperativa do Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes preparam uma doação conjunta. “Eles disseram que vão se beneficiar se o time chegar à Série A porque mais gente vai visitar (a cidade)”, contou Sá. O pensamento é parecido ao do dono de uma empresa de ônibus que recebe as equipes que vão jogar em Cariri e prometeu desembolsar R$ 3 mil. “Se o Icasa subir, ele é beneficiado”, explicou.

O dinheiro não está nas mãos da rádio. Há um compromisso dos ouvintes de irem até a rádio no dia seguinte ao acesso – se ele de fato se confirmar – e fazer as doações, que serão entregues ao volante Guto, capitão do time. Uma conta de banco será disponibilizada para as pessoas de outras cidades e estados. Para confirmar a vaga neste sábado, o Icasa precisa ganhar da Chapecoense e torcer para tropeços de Ceará e Figueirense, na penúltima rodada da Série B do Campeonato Brasileiro.

Uma vez na elite, o clube vai continuar precisando de ajuda. Já tem a menor folha salarial da segunda divisão e precisa usar a academia do Sesi porque não tem uma própria. A prefeitura prometeu auxiliar na reforma do estádio Romeirão, para adaptá-lo às exigências da Série A, mas a iniciativa privada não vai ficar fora dessa.

Sá quer usar a influência da Rádio Vale para aumentar o conselho contribuinte do clube – que ajudam a pagar as contas – e já entrou em contato com o presidente do conselho deliberativo Ademir Alencar, conhecido como Ademir do Casarão. “A intenção é tornar o conselho contribuinte muito maior, com colaborações maiores, que serão destinadas ao clube. A rádio será trampolim para instigar o empresário e os comerciantes da cidade a fazerem parte desse conselho”, explicou o radialista. Porque captar recursos privados para o futebol não é tão difícil. Basta querer.

Pois é. Os comerciantes e taxistas de Juazeiro do Norte perceberam o impulso econômico que o futebol pode dar a seus negócios e resolveram investir. Curioso ver esse caso e comparar com a organização da Copa do Mundo de 2014, feita com dinheiro público por suposta falta de interesse e de retorno que a iniciativa privada teria. A gente finge que acredita.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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