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Há 30 anos, o início de uma história eterna: Romário estreava pela seleção principal

Aquele 23 de maio de 1987 poderia representar uma data para a seleção brasileira apagar de sua memória. Afinal, a equipe de Carlos Alberto Silva perdeu para a Irlanda, uma seleção que até aquele momento nunca tinha participado de competições internacionais. A ascensão sob as ordens de Jack Charlton aconteceria justamente a partir dos anos seguintes, mas a consideração pelos Boys in Green não era tão grande, mesmo com vários jogadores de destaque no cenário europeu. Liam Brady, o mais tarimbado naquele momento, decretou a vitória por 1 a 0 em Dublin. E se o Brasil tinha jogado mal, um novato merecia ao menos algumas linhas nos jornais elogiando seu lampejo ao sair do banco de reservas: Romário. Naquele dia, o Baixinho estreava pela equipe nacional. Uma data marcante.

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A ocasião proporcionava o ressurgimento da Seleção após a queda na Copa do Mundo de 1986. Desde a fatídica derrota nos pênaltis para a França, o time não se reunira mais. E, em tantos momentos de bagunça da CBF, aquele foi um dos piores. Carlos Alberto Silva tinha sido chamado para suceder Telê Santana às pressas, após a recusa de Cilinho. Tinha uma bomba a desarmar, assumindo a equipe em março, às vésperas do pré-olímpico. Ao menos conseguiu cumprir a missão com sucesso, o que garantiu seu emprego até o final do ano, tomando conta também do elenco principal. Em maio, viajaria para uma excursão por diversos países para a Europa.

A reconstrução da seleção brasileira pensando na Copa de 1990, e que traria resultados mais profundos em 1994, começou naquele momento. E o treinador precisou lidar com mais adversidades. Alguns clubes se recusaram a liberar seus jogadores, diante da ingerência da CBF, para não desfalcar suas equipes. Careca estava inicialmente na lista, mas acabou de fora. Assim, Romário ganhou uma chance, se refazendo da decepção por não ter sido incluído na primeira chamada. Com passagens pelas seleções de base, o atacante se juntaria a um grupo cheio de principiantes querendo mostrar serviço – entre eles Ricardo Rocha, Dunga, Raí, Valdo, João Paulo. Aos 21 anos, a excelente fase referendava o Baixinho. Máximo goleador do Campeonato Carioca do ano anterior, brigava pela artilharia novamente em 1987, embora muitas vezes entrasse como ponta no Vasco, compondo trinca ofensiva com Roberto Dinamite e Mauricinho.

A turnê começou pela Inglaterra. Do banco, Romário viu o empate por 1 a 1 contra a Inglaterra em Wembley. Gary Lineker abriu o placar e Miradinha (que semanas depois se tornaria o primeiro jogador brasileiro no Campeonato Inglês, contratado pelo Newcastle) empataria. O atacante palmeirense, aliás, era o principal concorrente do Baixinho na equipe titular. Vinha com moral, após marcar gols importantes no pré-olímpico. E, quatro dias depois, na visita a Dublin, o treinador reiterou sua confiança no camisa 9. Enquanto isso, muito se especulava sobre o interesse de clubes europeus sobre Romário. Segundo suas palavras na época, ele recebeu três propostas logo em seus primeiros dias na Europa: de Fiorentina, Arsenal e Servette.

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Mirandinha não se saiu bem contra a Irlanda e deixou o campo no intervalo, para a entrada de Romário. O novato não fez tanto para evitar a derrota, mas acabou elogiado pelos jornais por dar mais movimentação ao time. Com a vantagem estabelecida na primeira etapa, a Irlanda se posicionou na defesa para segurar o resultado. E o jovem conseguiu dar dois chutes, um deles desviado pelo goleiro Pat Bonner para escanteio. Na saída de campo, o atacante falava em ganhar mais minutos em campo e buscar a primeira partida como titular.

Romário precisou esperar um pouco mais até deslanchar. Também não saiu do banco três dias depois, na vitória por 2 a 0 sobre a Escócia em Hampden Park, com tentos de Raí e Valdo. Seu retorno ao time só aconteceria com um bocado de sorte, contra a Finlândia, em Helsinque. Mirandinha se lesionou e o vascaíno entrou logo na primeira etapa. Marcou o gol de empate da partida, o seu primeiro na Seleção, e infernizou a defesa adversária. Os brasileiros venceriam o duelo por 3 a 1, com Valdo e Müller complementando o placar. O entrosamento com o são-paulino, aliás, era enorme, apesar dos poucos treinamentos. Dois atacantes possantes e de qualidade técnica.

Por conta da lesão de Mirandinha, enfim, Romário seria titular no último compromisso da excursão. O Brasil pegou Israel em Tel-Aviv. E o craque não teve dó. Balançou as redes duas vezes na goleada por 4 a 0. Inclusive, anotou um verdadeiro golaço, para sublinhar ainda mais seu sucesso naquele momento: matou no peito, passou por três marcadores e tocou no contrapé do goleiro. Voltou para casa como um dos jogadores mais festejados, apontado como nome para o presente e para o futuro da Seleção. Era discutido até mesmo como alvo do São Paulo para substituir Careca, negociado com o Napoli. Para alegria dos vascaínos, eles puderam desfrutar de seu xodó na Colina por mais alguns meses, até a venda ao PSV.

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No final de junho, Romário voltaria a ser convocado. Cavou o seu espaço na equipe que disputou a Copa América de 1987. Entrando quase sempre a partir do segundo tempo, saiu ileso da sentida eliminação para o Chile nas semifinais. Depois disso, a Seleção passaria mais alguns meses inativa, até julho de 1988, aprumando-se para os Jogos Olímpicos de Seul. O Baixinho foi titular em toda a preparação, com bons resultados diante de seleções europeias, e comeu a bola na campanha que culminou com a medalha de prata. A partir de então, já não existiam mais dúvidas da simbiose entre o artilheiro e a camisa amarela. Uma combinação que renderia tantas alegrias.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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