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Gaúcho, o atacante voador que protagonizou um épico de luvas e levou os rubro-negros às alturas

A partida mais memorável da carreira de Gaúcho, sem dúvidas, aconteceu diante dos rubro-negros. O duelo entre Flamengo e Palmeiras no Campeonato Brasileiro de 1988 se tornou um clássico. Quando Zetti se machucou na meta alviverde, o atacante precisou vestir as luvas. Transformou-se em herói improvável. Naquela edição do torneio, os empates acabavam levando aos penais. Pois o goleiro improvisado chegou prometendo: “Vou pegar e nós vamos ganhar”. Defendeu as cobranças de Aldair e Zinho para ir à desforra. Uma noite que, por linhas tortas, também representa os símbolos do auge de Gaúcho no futebol. No Maracanã, mas de vermelho e preto, é que ele viveu as maiores conquistas. E voando nas áreas, para cabeçadas fulminantes. Era um goleador nato, também adorado por sua entrega e por sua irreverência.

Embora tenha nascido em Canoas, Gaúcho é cria das categorias de base do Flamengo, mas não foi aproveitado de imediato na Gávea. Passou por XV de Piracicaba, Grêmio, Verdy Kawasaki e Santo André, até aportar no Palmeiras. Entre os palestrinos, o atacante começou a receber reconhecimento, mesmo durante a seca de títulos do clube. Até que aqueles pênaltis decisivos provocassem o Flamengo. O antigo algoz chegou como solução para o ataque, ocupando a vaga de Bebeto. Teve grande importância em tempos vitoriosos dos rubro-negros.

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Logo em seu primeiro ano de volta ao Flamengo, Gaúcho terminou como artilheiro do time, com 38 gols. Mas sua importância ia além, pelas amizades que logo formou no Rio de Janeiro. A maior parceria era com seu conterrâneo, Renato Gaúcho, companheiro de ataque e de galhofa. Além disso, os flamenguistas viam surgir uma geração de novos talentos, encabeçada por Marcelinho, Djalminha e Paulo Nunes. Todos seguiam na onda do veterano, que não economizava nas gozações para comemorar gols e dar entrevistas. Só que Gaúcho também fazia a diferença com a bola rolando. Foi titular em todos os jogos da conquista invicta da Copa do Brasil e balançou as redes cinco vezes.

Em 1991, mais um ano espetacular de Gáucho, outra vez goleador do time, com 35 gols. Seu maior sucesso veio no Campeonato Carioca – no qual registrou a segunda artilharia consecutiva. Na Taça Guanabara, o atacante fez gols nos três clássicos. Já na Taça Rio, resolveu o jogo extra como Botafogo para erguer o troféu. E havia a final contra Fluminense, para enfim definir o campeão estadual. Sem problemas para Gaúcho, que também deixaria a sua marca nos 4 a 2. Naquela temporada, ainda foi o artilheiro da Libertadores. O rubro-negro anotou oito tentos, incluindo um na eliminação para o Boca Juniors nas quartas de final. Chamou tanta atenção que acabou virando substituto para Batistuta na Bombonera.

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O Campeonato Argentino de 1990/91 realizou uma finalíssima entre o vencedor do Torneio Apertura e o do Clausura. Mas havia um sério problema de calendário, já que as decisões aconteciam durante a Copa América. Referência ofensiva do Boca, Batistuta estava na seleção. Então, Gaúcho chegou para ocupar o seu lugar nas duas partidas contra o Newell’s Old Boys. Não deu certo. O brasileiro estava desentrosado e pouco apareceu em campo. Com uma vitória para cada lado, os xeneizes perderiam a taça nos pênaltis. Seguiam atravessando o jejum de 11 anos que durou até 1992, o maior do clube durante o profissionalismo. E o reforço emergencial voltou mesmo à Gávea.

A fonte de gols de Gaúcho secou um bocado em 1992. Foram 14 gols ao longo daquele ano. Todavia, o ídolo contava com a compreensão da torcida. Mais importante que a sua forma, era a vontade que demonstrava dentro de campo. E ela teve papel primordial na conquista do Campeonato Brasileiro. Na fase final, sacramentou a vitória por 3 a 1 sobre o Santos, que garantiu o lugar do Fla na decisão. Já no primeiro confronto com o Botafogo do amigo Renato Gaúcho, definiu o triunfo por 3 a 0 na ida, que encaminhou o título. Na volta, o 2 a 2 com os alvinegros foi suficiente para a comemoração.

O gol decisivo, mais uma vez, ressaltou a grande arma de Gaúcho, mesmo sem ser um gigante (1,82 m): as cabeçadas. A fama era tanta que o goleador virou até paródia de samba, entoado no Maracanã lotado: “Ó que beleza, mais um golaço do Gaúcho de cabeça”. Se não era um jogador talentoso, compensava com ótimo posicionamento e impulsão. A ponto de, certa vez, brincar antes de um duelo decisivo contra o Botafogo: se Valdeir era o “The Flash”, ele era o “The Flyer”. Já a raça em cada dividida era outra característica que rendia gritos de “eô eô, o Gaúcho é terror” das arquibancadas.

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Sua despedida da Gávea aconteceu em 1993. Anotou os últimos 10 de seus 98 tentos com a camisa rubro-negra. Já começava a amargar a reserva e, no principal objetivo do clube no primeiro semestre, pouco pôde fazer para evitar a eliminação diante do São Paulo de Telê Santana nas quartas de final da Libertadores. Do Fla, rumou para o Lecce, nos anos dourados do Campeonato Italiano. Não se adaptou e pouco jogou. Depois, ainda rodou por Atlético Mineiro, Ponte Preta, Fluminense e Anápolis. Pendurou as chuteiras em 1996, aos 32 anos.

Depois disso, o Gaúcho com alma de carioca se transformou em fazendeiro. Morou em Mato Grosso e em Goiás, administrando as suas cabeças de gado. Ainda assim, deu sua contribuição ao futebol do Centro-Oeste. Em 2001, ele fundou o Cuiabá Esporte Clube, permanecendo no comando até 2006. Em março de 2014, quando completou 50 anos, teve o seu último encontro com a torcida. Recebeu a homenagem no Maracanã, antes de um jogo contra o Nova Iguaçu. Já nesta quinta, Gaúcho não resistiu à luta contra um câncer de próstata. Faleceu aos 52 anos, sob a certeza que suas lembranças junto à torcida rubro-negra não serão apagadas tão cedo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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