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Futebol mambembe: veja como era difícil comprar a camisa do seu time em 1988

Às vezes não parece, mas o mundo de hoje é melhor que o do passado em vários aspectos. Não é uma questão do futebol de raiz x futebol moderno, um debate que se desmembra também em arenas x estádios tradicionais, torcedores-clientes x torcedores-torcedores ou autenticidade x marketing. É uma questão que um pouco de profissionalismo e organização é bom, simples assim. E isso pode ser visto em um ato dos mais singelos, como comprar a camisa oficial de seu clube.

ESPECIAL: Por que a camisa do seu clube custa tão caro

O amigo Humberto Peron, editor da revista Monet, achou uma preciosidade e a publicou em pedaços em seu Twitter. Uma reportagem da revista Placar Mais (nome da Placar no finalzinho dos anos 80) de dezembro de 1988 mostrando o que era preciso fazer para comprar a camisa dos times da Copa União (Campeonato Brasileiro) daquele ano. Era um outro mundo, em que era preciso fazer muito esforço para não comprar uma peça pirata. Confira:

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Placar 1988_venda de camisas

Veja um apanhado das melhores histórias:

– Corinthians: “A chave se chama Miranda, roupeiro do time. Ele vende até por telefone”;

– Cruzeiro: “Como no caso do rival Galo, uma boa pedida é falar com os jogadores do time. Eles têm seis camisas que podem distribuir à vontade”;

– Fluminense: “A Flu-Boutique é a principal revendedora do clube. Também atende aos pedidos por carta. Ou procurando o roupeiro Chimbica”; “Preço: com o roupeiro é mais barato: Cz$ 4 mil. Na loja, sai por Cz$ 10,9 mil a listrada e Cz$ 8,6 mil a branca”;

– Goiás: “Os jogadores mal têm camisas suficientes para utilizar nos jogos. Estão proibidos de trocá-las ou vendê-las no final das partidas”;

– Guarani: “O lateral-esquerdo Élcio é o encarregado das vendas depois dos jogos”;

– Portuguesa: “No Canindé, onde cada jogador tem uma cota de dez camisas para vender, ou escrevendo para o goleiro Waldir Peres, presidente da caixinha”;

– Santa Cruz: “O encarregado das vendas é o lateral-esquerdo Lóti. Ele atende tanto no clube como por carta”;

– Em vários clubes, como Santos, Sport e São Paulo, o melhor jeito era enviar um cheque pelo correio;

– Os números também chamam a atenção. O Corinthians vendia 350 camisas por mês. O Internacional comercializava apenas 90 e o Cruzeiro, só 80.

GALERIA: Como seriam essas camisas antigas bizarras nos dias de hoje?

Basicamente, não havia sistema de distribuição das camisas para as lojas. Os fabricantes (e, na época, os clubes já tinham fornecedores oficiais) enviavam remessas aos clubes e por lá elas ficavam. Algumas equipes montavam uma lojinha na sede e só. O resto era resolver com os próprios jogadores ou com o roupeiro.

Era um futebol quase mambembe, em um nível que o desconforto causado é muito maior que o ar romântico. Afinal, o estádio com arquibancada de concreto, torcida em pé e ninguém tirando selfie é legal, mas vender a camisa oficial em qualquer loja esportiva da cidade é o mínimo que se espera em 2015.

Atualização às 14h46

Um lado positivo desse universo mambembe. A maioria das camisas custavam cerca de Cz$ 7 mil. Considerando que a Placar Mais custava Cz$ 750, um uniforme oficial era menos de dez vezes o valor de uma revista (sendo que a Placar mais tinha papel de baixa qualidade pra ter um preço mais acessível que as revistas normais da época). Hoje, a Placar custa R$ 13. Ou seja, dá para projetar que as camisas oficiais custavam o equivalente a pouco mais de R$ 100.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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