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Folclore da Libertadores, Banguera foi além da galhofa para brecar o Botafogo em Guayaquil

Máximo Banguera já virou parte do folclore da Copa Libertadores. Não bastasse a figura peculiar (de boné por puro estilo) e o comportamento deveras mormaceiro, o experiente goleiro do Barcelona de Guayaquil protagonizou uma das cenas mais bizarras da história recente do torneio. Em 2015, durante os últimos minutos do confronto com o Atlético Nacional, o equatoriano simplesmente fingiu um desmaio em campo. Tudo para tentar enganar o juiz: em contra-ataque verdolaga, o arqueiro fez falta fora da área e pensou rápido para evitar a expulsão. Não deu certo. E a ação foi tão descarada que, dias depois, o camisa 1 pegou um pênalti pelo Campeonato Equatoriano e comemorou a defesa fingindo o desmaio da mesmíssima maneira. Foi este o homem que cruzou o caminho do Botafogo nesta quinta, um dos protagonistas no empate por 1 a 1 no Estádio Monumental, eleito o melhor em campo.

Afinal, acima da galhofa, Banguera tem muita competência na sua profissão. Não fosse assim, não seria goleiro da seleção equatoriana, convocado periodicamente desde 2008 e reserva na Copa do Mundo de 2014, além de presente em duas edições da Copa América. Não fosse isso, também não seria titular no Barcelona de Guayaquil, um dos maiores clubes do seu país, por quase oito anos. Neste intervalo, conquistou dois títulos nacionais e somou mais de 300 jogos pelos Canários. É ídolo da torcida e referência no elenco, dono da braçadeira de capitão, assim como tem seus predicados sob as traves. Faz milagres, comete erros inacreditáveis, provoca os adversários. Desta vez, ficou só no lado bom: cresceu para cima dos alvinegros e contou com um bocado de sorte para auxiliar no resultado.

Banguera precisou de apenas dois minutos para mostrar que não era apenas “um goleiro de boné”. O Botafogo ganhou um pênalti precocemente no Estádio Monumental, em falta boba cometida sobre Roger. Camilo não bateu tão bem, mas não se pode tirar os méritos do camisa 1. Ele defendeu a cobrança e ainda realizou outra defesaça quando João Paulo emendou no rebote. Os alvinegros eram bem melhores no início da partida e conseguiam pressionar no campo de ataque. Esbarravam no arqueiro em suas melhores oportunidades. Poucos minutos depois, ele operou milagre em cabeçada de Emerson Silva e teve a sorte de ver Pimpão acertar a trave no rebote. Faria mais duas defesas, antes de contar com a ajuda dos companheiros, salvando uma bola na pequena área.

O Barcelona começou a aparecer mais no ataque só a partir de então. Tramava com velocidade, enquanto o Botafogo não demonstrava a mesma solidez na cabeça de área em relação a outros jogos. Gatito Fernández respondeu com duas boas intervenções, mas nada pôde fazer aos 31 minutos, diante da inteligência de Christian Alemán. O atacante partiu em velocidade, tabelou com Jonatan Alvez e se infiltrou na defesa com facilidade. De frente para o gol, driblou o arqueiro botafoguense e só rolou para a meta vazia. Os alvinegros pareciam pagar pelos desperdícios.

Após o gol, Banguera já tinha saltado como um louco para celebrar. E, depois, passou a se sobressair também por outras características. Tentou ganhar um tempo fingindo uma lesão no ombro. Salvou novamente batida rasteira de Camilo. E, na sequência deste lance, chutou a bola contra a placa de publicidade e resolveu tirar o boné. Daqueles jogadores que promovem mais do que uma partida – querem mesmo é encenar e provocar o espetáculo. Garantindo a vitória do Barcelona, tudo se saía perfeitamente bem.

A partir do segundo tempo, mesmo sem criar chances tão claras, o Barcelona tomou o controle do jogo. Atacava com velocidade e atordoava a marcação do Botafogo. Os alvinegros melhoraram a partir das alterações de Jair Ventura, com as entradas de Sassá e Guilherme, deixando a equipe mais ofensiva. Os visitantes não estavam a salvo, mas voltaram a ameaçar mais no ataque. Já aos 34, ficaram em vantagem numérica, depois que Jefferson Mena recebeu o segundo amarelo. O Barcelona tentava gastar o tempo. Mas não teve jeito, quando Arreaga cometeu pênalti aos 43. Na cobrança, Sassá enfrentou um Banguera sem boné. E tal qual um Sansão, perdeu os seus poderes, permitindo o empate satisfatório aos cariocas.

As chances de vitória foram bastante reais. Mas, pela campanha que faz até o momento, o Botafogo certamente não reclama do placar final. São sete pontos, quatro deles conquistados fora de casa. Divide a liderança do Grupo 1 justamente com o Barcelona, que, entretanto, jogou duas em casa neste momento. A dupla vai surpreendendo Estudiantes e Atlético Nacional, bem mais tarimbados na Libertadores durante os últimos anos, mas que não vêm se exibindo bem. Melhor para aqueles que aproveitam o momento. Que não sejam perfeitos, alvinegros e canários fazem por merecer o sucesso. Banguera, apesar da galhofa, inclusive.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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