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Fleitas Solich: o feiticeiro paraguaio que poderia ter treinado o Brasil em 1958

Por algum tempo, Pep Guardiola chegou a ser mencionado como um possível nome para assumir o comando da seleção brasileira. Ao menos pela imprensa, depois da queda de Mano Menezes. Não se concretizou, apesar da abertura do espanhol à possibilidade. E nem foi a primeira vez que aconteceu de um técnico estrangeiro estar entre os preferidos para assumir a Seleção. Manuel Fleitas Solich poderia estar à frente do Brasil no Mundial de 1958, quando Vicente Feola (influenciado por outro forasteiro, Béla Guttmann) conquistou a taça.

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O paraguaio foi preterido pela simples condição de não ter nascido no Brasil. Apesar disso, o seu trabalho como treinador foi reconhecido por outro grande esquadrão: o Real Madrid de Di Stéfano. Solich não foi bem em Madri, é verdade, mas o mero reconhecimento ao que fazia no Flamengo já ajuda a dimensionar o peso de seu trabalho. El Brujo saiu do Rio de Janeiro para assumir o melhor time do mundo na época – e que, ainda hoje, é o mais vitorioso da história. Algo que dificilmente se viverá tão cedo no futebol brasileiro.

O maestro paraguaio

Manuel Fleitas Solich começou a escrever sua história no futebol como jogador do Nacional, de Assunção. Era conhecido pela excelente técnica que apresentava no meio-campo dos tricolores, alto e elegante, ajudando a conduzir a equipe a dois títulos do Campeonato Paraguaio, em 1924 e 1926 – quando o clube ganhou o apelido de ‘La Academia’. Após uma excursão por Argentina e Uruguai em 1928, a fama era tanta que o Boca Juniors foi até o Barrio Obrero buscar o craque, quando o profissionalismo no país era apenas de fachada. Tornou-se o primeiro jogador paraguaio da história a se transferir para o exterior. Com a camisa xeneize, Solich foi capitão e bicampeão argentino em 1930 e 1931, no início do profissionalismo. Ainda defendeu o Racing antes de se aposentar.

“Fleitas Solich não gostava de perder nem nos treinamentos. Se sua equipe estava em desvantagem, ele fazia a partida seguir até que o empate saísse. Assim, muitas vezes anoitecia e, então, já rendidos, deixávamos ele sozinho com a bola para que marcasse e ficasse contente. Depois voltava a ser o grande companheiro, nos pegava pelo cabelo e dava conselhos para sermos bons jogadores e pessoas melhores”, Arsenio Erico, melhor jogador da história do futebol paraguaio e colega de Solich no Nacional.

O talento também garantiu vida longa a Fleitas Solich na seleção paraguaia. Fez sua estreia pela albirroja quando tinha apenas 18 anos e se tornou nome cativo na equipe. Mais do que isso, se tornou uma liderança ainda muito jovem. Meses depois da primeira conovação, já era capitão. E a partir de 1922, aos 21 anos, o meio-campista também passou a acumular a função de técnico da equipe nacional. E os resultados não foram tão ruins: o Paraguai chegou a ser vice-campeão do Torneio Sul-Americano de 1922, superado pelo anfitrião Brasil, resultado que repetiria sete anos depois. Contudo, deixou a seleção antes que pudesse participar da Copa de 1930.

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A capacidade de observar o jogo fez com que Fleitas Solich começasse a trabalhar como técnico logo após pendurar as chuteiras. Assumiu o Lanús e passou a rodar por equipes médias do futebol argentino, fazendo fama por salvá-las da degola. Assim, também esteve à frente de Newell’s Old Boys, Quilmes e Talleres, antes de voltar ao Nacional Querido. À frente do tricolor, o comandante marcou época. Campeão paraguaio por duas vezes, fez fama pelo futebol vistoso e pelos jogadores formados. No país, também treinou o River Plate, o Libertad e o Olimpia.

Fleitas Solich, técnico do Flamengo na década de 1950

O futebol paraguaio, no entanto, deve muito mais a Fleitas Solich. Em 1938, o técnico ajudou a criar os Torneios de Bairro de Assunção, que revelaram diversos jogadores locais, sobretudo para reforçar a seleção que ele mesmo reassumiria, em diversas passagens ao longo dos anos 1940. A mais marcante aconteceu entre 1947 e 1953, quando a Albirroja disputou a Copa de 1950, foi duas vezes seguidas vice-campeã do Torneio Sul-Americano e levantou a taça continental pela primeira vez, em 1953. Na decisão, os paraguaios venceram o Brasil por 3 a 2, em partida na qual abriram três gols de vantagem. O título que o consagrou.

El Brujo chega à Gávea para se tornar lenda

O Flamengo sondava Manuel Fleitas Solich antes mesmo da conquista do Sul-Americano de 1953. Flávio Costa deixou o clube em dezembro de 1952 e foi substituído interinamente por Jaime de Almeida – o pai do técnico campeão da Copa do Brasil de 2013. O presidente Gilberto Cardoso chegou a declarar que queria efetivar o ídolo do tri de 1942-43-44 à frente da equipe, mas o ex-jogador não aceitou. Então, o paraguaio passou a ser assediado pelos rubro-negros.

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A negociação com Solich se arrastou por algumas semanas. O grande entrave era a questão salarial, já que o estrangeiro cobrava mais do que o dobro que o Flamengo estava disposto a pagar. Justificava que teria que abandonar a padaria que tinha em Buenos Aires, onde vivia. O título continental, contudo, reforçou as qualidades do técnico e fez com que os dirigentes flamenguistas cedessem. Em março de 1953, ele chegou ao Rio de Janeiro.

Em um primeiro momento, Fleitas Solich era apenas o observador técnico, para conhecer o elenco e o ambiente. Quem se mantinha como treinador da equipe era Jaime de Almeida. A partir de abril, o paraguaio tomou a linha de frente do clube e o ex-jogador foi transformado em seu auxiliar. Uma companhia importantíssima, pelo trânsito que Jaime tinha com o elenco e pela forma como ajudou na adaptação do novo comandante. Uma dupla que deu liga rapidamente.

O fim do jejum com o início do tricampeonato

O Flamengo não conquistava o Campeonato Carioca desde o tricampeonato da década de 1940. O elenco era elogiado pelos bons valores individuas, mas não obtinha grandes resultados. O mérito de Manuel Fleitas Solich foi formar um conjunto, de forte trabalho coletivo, toques rápidos e bom preparo físico. Entre os protagonistas da equipe, três jogadores paraguaios, que também contribuíam para a aclimatação do treinador: García, Benítez e Bria.

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Logo na estreia, o Flamengo de Fleitas Solich venceu o Santos por 3 a 2, pelo Torneio Rio-São Paulo. A campanha na competição, porém, foi decepcionante, com cinco empates e duas derrotas. Os rubro-negros acabaram na oitava colocação. A redenção só aconteceria mesmo com o Campeonato Carioca, a partir de julho. Em outubro, o resultado que respaldou o comandante: trocou jogadores de posição para arrancar três gols nos dez minutos finais contra o Olaria na Rua Bariri, em uma vitória que parecia impossível. Com apenas duas derrotas na primeira fase, o Fla venceu as cinco partidas que fez na etapa decisiva, recuperando o caneco. O paraguaio era aclamado principalmente pela forma como conseguiu fazer o time funcionar como um todo.

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“Solich demonstrou mais uma vez ser um grande condutor de homens. A sua primeira grande prova em 53 foi a conquista do Sul-Americano para o Paraguai e o seu segundo triunfo foi transformar um bando de bons jogadores, cujos esforços se desperdiçavam em jogadas pessoais, no conjunto que conquistou de forma brilhante os dois turnos iniciais do Campeonato Carioca”, analisou o Sport Ilustrado publicado depois do título. Era o futebol ‘ágil e solidário’, como ficou conhecido. O investimento que o Flamengo tinha feito começava a se mostrar acertado.

A mão certeira para revelar jogadores

Missão tão delicada quanto quebrar o jejum de títulos estaduais do Flamengo era liderar a reestruturação pela qual passava o elenco desde os tempos de Flávio Costa – entre os jogadores mais rodados que haviam chegado, Joel, Jordan, Dequinha e Índio. O time incorporava novos nomes desde o início da década de 1950. E Fleitas Solich demonstrou o seu tino para fazer promessas começarem a se firmar na equipe principal. O atacante Evaristo, revelado pelo Madureira, era um dos trunfos do técnico que começava a se sobressair. Já Zagallo, trazido do América, começou a ser nome mais frequente na equipe flamenguista. Além disso, ainda barrou Rubens, o maior talento do meio-campo, que o comandante pegou bebendo com torcedores durante uma viagem.

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Em 1954, o Flamengo começou o ano fazendo uma série de amistosos na Europa, enquanto outra vez ficou longe de disputar o título no Torneio Rio-São Paulo, ocupando apenas a sétima posição. A redenção ficou para o bicampeonato carioca. Outra vez, os rubro-negros só sofreram duas derrotas durante toda a campanha. Índio e Evaristo foram as estrelas da campanha, mas outro garoto de valor começava a aparecer pelas mãos de Manuel Fleitas Solich: o atacante Dida, comprado junto ao CSA naquele mesmo ano.

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E a consagração definitiva de Solich veio no ano seguinte, repetindo o tricampeonato faturado 11 anos antes. Depois de liderar a tabela no primeiro e no segundo turno, o Flamengo teve que decidir o título contra o América, que venceu o terceiro. As finais aconteceram a partir de março de 1956. No jogo de ida, os rubro-negros conquistaram uma vitória suada por 1 a 0, gol de Evaristo. Todavia, o Mequinha desmoralizou o Fla no reencontro: 5 a 1, frustrando a maioria da torcida que lotou o Maracanã. Então, o título seria definido na terceira partida.

Aquele confronto entrou para a história do Flamengo. Solich começou a trabalhar o psicológico logo depois da goleada humilhante: enquanto os jogadores entravam no vestiário, El Brujo saiu, gritando que “vencera o melhor”. A morte do presidente Gilberto Cardoso era mais um motivo para puxar os brios. E o paraguaio anunciou mudanças no time titular já no vestiário, minutos antes do jogo: saíram Jadir e Paulinho, entraram Servílio e o garoto Dida. Os próprios dirigentes foram questionar Solich, que argumentou as suas escolhas. Ele tinha razão. Dida marcou os quatro gols na goleada por 4 a 1. O velho feiticeiro completava a profecia daqueles que confiavam em suas glórias.

O paraguaio que poderia ter sido campeão em 1958

Entre as virtudes de Manuel Fleitas Solich como técnico, estava o apreço pelos treinos individuais. O craque dos tempos de jogador também queria fazer de seus comandados cada vez mais talentosos. Por isso, pendurava camisas nas traves para os atacantes acertá-las, pedia para os seus meias darem passes a caixotes e os mandava driblar cadeiras em campo. Já na parte tática, além da força coletiva que conseguia criar, também proporcionou algumas mudanças fundamentais na parte tática. O WM começou a ser transformado em 4-2-4 na Gávea com ele – um sistema em alta graças à seleção húngara e que Béla Guttmann ajudou a difundir de maneira mais sistemática no país. Somado a isso, o dedo de ouro para mudar jogadores e mexer no time. Não à toa, El Brujo era considerado um dos melhores técnicos do país.

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E, em meio à falta de comando que a seleção brasileira vivia às vésperas da Copa do Mundo de 1958, Fleitas Solich começou a ser cogitado para assumir a equipe canarinho. Os resultados no Flamengo em 1956 e 1957 haviam minguado, é verdade, sem novos títulos de relevância. Mesmo assim, o paraguaio teve seu nome mencionado nos corredores da CBD para dirigir o Brasil. Em fevereiro de 1958, logo depois de assumir a presidência da confederação, João Havelange ainda precisava encontrar um treinador para a Seleção.

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Os primeiros da lista eram Flávio Costa, que Havelange não queria, e Zezé Moreira, que não aceitou voltar ao posto. Logo depois é que o nome de Solich surgiu com força. Entretanto, Paulo Machado de Carvalho se opôs à contratação de um estrangeiro. E também fez um lobby favorável para que o técnico viesse do futebol paulista, o que seria bom para a política da CBD. Foi então que Vicente Feola chegou à seleção brasileira.

Fleitas Solich, ao menos, teve a chance de mostrar o seu valor à CBD. Foi em maio de 1958, em um dos últimos jogos-treino antes da viagem à Suécia. Flamengo e Brasil se enfrentaram no Maracanã, em dois tempos de 35 minutos. E os rubro-negros venceram por 1 a 0, em um jogo em que os astros da Seleção preferiram se poupar de um maior contato físico. Domínio total dos cariocas, que ainda não tinham seus quatro destaques que tinham sido convocados por Feola.

À frente do melhor time do mundo

Se Fleitas Solich não ganhou confiança o suficiente para assumir aquela que se consagrou como a melhor seleção do mundo em 1958, no ano seguinte ele teve a chance de dirigir o melhor clube do planeta. Tetracampeão europeu, o Real Madrid foi buscar o paraguaio no Flamengo, após demitir Luis Carniglia. El Brujo era uma aposta do presidente Santiago Bernabéu para rivalizar com Helenio Herrera, El Mago que fazia sucesso à frente do Barcelona.

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Em Madri, Fleitas Solich tentou implantar o 4-2-4 nos merengues, sem sucesso. Havia a noção de que, com o novo sistema, ele tentava tirar Alfredo Di Stéfano do time. O aproveitamento não foi tão ruim, mas a equipe não correspondeu bem na reta final do Campeonato Espanhol. Demonstrando problemas na preparação física, o Real Madrid foi presa fácil no confronto decisivo contra os blaugranas pelo torneio nacional, derrotado por 3 a 1. Ao perder o título nacional, o paraguaio pediu sua carta de demissão. Saiu antes dos duelos decisivos contra o próprio Barça, pelas semifinais da Copa dos Campeões. Miguel Múñoz assumiu e conseguiu levar os blancos ao penta.

Três meses depois de deixar o Real Madrid, Fleitas Solich reassumiu o Flamengo, para uma passagem um pouco mais curta e menos vitoriosa. Ainda assim, com um grande feito: em 1961, o clube levantou a Taça do Torneio Rio-São Paulo. Depois de uma campanha regular na primeira fase, o time venceu todos os seus jogos na etapa final, batendo Palmeiras, Santos e Corinthians. Outra vez, o protagonista foi Dida, artilheiro do time no certame com oito gols. Mas dois garotos que o paraguaio lançou no final de sua primeira passagem ajudaram bastante no meio-campo: Carlinhos, o ‘Violino’, e Gérson, o ‘Canhotinha de Ouro’.

Uma década longe do Flamengo

Em 1962, Manuel Fleitas Solich saiu do Flamengo outra vez. Mas a reputação não o deixou muito tempo desempregado. Naquele mesmo ano, assumiu o Corinthians. Era um período duro no Parque São Jorge, com o jejum de títulos que durava desde 1954. E, apesar de levantar taças menores, não conseguiu triunfar no Paulistão. Depois de liderar os alvinegros em sua primeira excursão pela América do Sul, El Brujo pediu o boné diante da pressão pelo insucesso no Torneio Rio-São Paulo de 1963. A perda do título para o Santos foi bastante reclamada, mesmo com os 73% de aproveitamento do comandante com os corintianos.

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Ao mesmo tempo, ainda em 1962, Solich voltaria a assumir a seleção paraguaia. Foi vice-campeão da Copa América de 1963, mas saiu em 1965. Depois disso, começou a rodar por diversos clubes, com alguns sucessos esparsos. Participou da conquista do Campeonato Paulista de 1966 pelo Palmeiras. No Atlético Mineiro, venceu uma divisão regional da Taça Brasil de 1967. E foi bicampeão baiano em 1970-71 pelo Bahia, embora criticado pela maneira rígida como a equipe atuou nos seus tempos.

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O último trabalho da carreira de Manuel Fleitas Solich foi no Flamengo, o clube que ele tanto adorava. Didi e Telê Santana eram os favoritos para dirigir o time após a demissão de Yustrich, mas a história do paraguaio pesou. Permaneceu apenas seis meses na Gávea, disputando 39 partidas e fracassando no Campeonato Brasileiro de 1971. Deu tempo de, pelo menos, lançar mais um ídolo rubro-negro. Este, maior do que todos os outros que El Brujo havia projetado: Zico. O técnico via talento nos pés do garoto, mas desconfiava de seu físico franzino. Algo que o camisa 10 superou, tornando o legado do comandante ainda maior.

A partir de então, Solich deixou o futebol. Adotou o Rio de Janeiro como casa no restante de sua vida, por tudo o que fizera como técnico no Brasil. Faleceu em 1984, como um dos maiores nomes do futebol paraguaio em todos os tempos e também um dos estrangeiros mais influentes no futebol brasileiro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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