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Fizeram uma liga de Cartola para o torcedor ajudar o Flamengo a pagar suas dívidas

O Campeonato Brasileiro começou, e junto com ele, as suas tradições. Uma mais recente é o fantasy game organizado pelo canal SporTV, o Cartola FC. Você escala o seu time, dentro de um orçamento, participa de ligas e ganha pontos. Um grupo de torcedores do Flamengo encontrou um jeito de você fazer tudo isso enquanto ajuda a pagar as dívidas do clube com a Receita Federal (sim, uma empreitada difícil).

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Os “darfeiros”, como eles gostam de se chamar e o nome da liga, fazem parte de um projeto maior chamado “Fla em Dia”. Esse site disponbiliza aos torcedores a opção de ajudar a saldar a dívida fiscal do Flamengo, mediante o pagamento de DARFs, sigla para Documento de Arrecadação de Receitas Federais, com contribuições mínimas de R$ 10. A cada DARF de R$ 500, uma camisa do Flamengo é sorteada entre aqueles que auxiliaram. São 13 grupos ao redor do país: Aracaju-SE, Curitiba-PR, Manaus-AM, Niterói-RJ, São Paulo-SP, Mossoró-RN, Lajinha-MG, Palmas-TO, Macaé-RJ, Rio de Janeiro-RJ, Petrolina-PE, Sobral-CE. “Tem grupo que já pagou mais de R$ 20 mil em DARFs”, conta Geraldo Farias, do grupo amazonense e um dos administradores da liga.

A iniciativa orgulha-se bastante de dois aspectos. O dinheiro não passa pelas mãos da diretoria porque é imediatamente direcionado ao credor (no caso, o governo federal). Não há ligação nenhuma com o clube, e os administradores de grupos são no máximo sócios ou sócios-torcedores. O outro é a transparência. Geraldo Farias afirma que todos os resultados são publicados nas redes sociais e nos grupos de whatsapp. O site também oferece um acompanhamento. Já foram pagos R$ 559.110,09 da dívida total de R$ 6.323.030,59 com a Receita desde que a “Fla Em Dia” começou, no meio do ano passado.

Quando Geraldo e seus companheiros perceberam que muitos “darfeiros” jogavam Cartola, decidiram criar a Liga do Darf para reforçar o projeto. Cobram R$ 45 de inscrição e uma mensalidade de R$ 20 durante o Campeonato Brasileiro. O objetivo é juntar R$ 4,5 mil e pagar nove DARFs. “Zico tem abençoado o nosso projeto da Liga do DARF. Com a ajuda dos veículos de comunicação rubro-negros, os FlaDarfeiros e as redes sociais, as primeiras 25 vagas foram preenchidas rapidamente”, conta Geraldo. Outra liga já foi aberta e está com 18 pessoas. A arrecadação já chegou a R$ 2.940,00, 60% do total. Os melhores jogadores levam três prêmios: uma camisa Adidas Originals, autografada por craques dos anos oitenta, como Zico, Júnior e Adílio; um uniforme de 2013 assinado pelo Galinho; e um outro manto da temporada retrasada autografada por jogadores do elenco atual.

Com a benção de Zico, tudo é muito mais fácil, mas dentro dos parâmetros que os próprios idealizadores estabeleceram, a iniciativa é um sucesso. O que levanta uma questão importante: por que o Flamengo, com muito mais poder de alcance, não pensou nisso antes? “Eu concordo que se o Flamengo cedesse seu pesado nome e marca a um projeto como esses, as adesões seriam muito maiores”, pondera Geraldo. “Mas entendo que o Flamengo hoje trabalha com prioridades e não pode fazer tudo ao mesmo tempo. Segundo o que sai na mídia, a equipe de marketing é reduzida. Eu prefiro que eles foquem no sócio-torcedor”.

Sem contar que toda iniciativa de marketing depende da empolgação da torcida, e o Flamengo não tem exatamente inspirado esse sentimento. A política de poucos gastos do presidente Eduardo Bandeira de Mello divide a base de fãs do clube. Mesmo entre torcedores que ajudam a pagar as dívidas dos clubes, como os da “Fla Em Dia”, há discordâncias. Geraldo, por exemplo, apoia a gestão responsável do dirigente, mas acha que ele ainda não encontrou um equilíbrio entre poucos gastos e times competitivos. “É nosso dever ético, como o maior clube do país, pagar os impostos em dia”, diz. “Entendo as dificuldades, mas penso que com o montante da nossa folha poderíamos e merecíamos ter um elenco melhor. Hoje não temos nenhuma referência no time. A maior referência do elenco hoje é o Paulo Victor”.

Uma liga de fantasy ou qualquer outra iniciativa é apenas um exemplo de oportunidades que às vezes os clubes, seja por falta de imaginação ou de recursos. É louvável que esses torcedores do Flamengo assumam a bronca de ajudar a pagar as dívidas, mas é responsabilidade dos clubes encontrar maneiras de engajar os seus apaixonados e gerar renda a partir deles. Sem nunca explorá-los, claro.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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