Brasil

Fato a fato, como chegamos à torcida única nos clássicos paulistas em dois meses

A decisão saiu apenas um dia depois das brigas envolvendo torcedores de Palmeiras e Corinthians. Apesar de a maioria dos enfrentamentos, inclusive a morte de uma vítima não-identificada, ter acontecido a quilômetros de distância do Pacaembu, onde os times jogaram, as autoridades paulistas decidiram que os clássicos paulistas terão torcida única pelo menos até dezembro.

LEIA MAIS: Torcida única em SP é um escárnio e um atestado de incompetência para lidar com o problema

Essa medida não foi tomada de supetão. Desde o final de janeiro, a Gaviões da Fiel, com participações especiais de outras torcidas organizadas, está em conflito constante com a Polícia Militar, com o Ministério Público e com o ex-promotor Fernando Capez, atualmente presidente da Assembleia Legislativa do estado e responsável por uma das maiores cruzadas contra as organizadas nos anos noventa.

A torcida única, nesse contexto, é apenas o resultado de uma sucessão de fatos, alguns deles não muito bem explicados, que ocorreram nos últimos dois meses e que relatamos a seguir:

22/01/2016 – Suspeitos da operação Alba Branca, da Polícia Civil e do Ministério Público Federal, afirmam que o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez (PSDB), recebeu propina no esquema de superfaturamento e fraude na merenda escolar do estado. Quando era promotor público, Capez foi o responsável por uma cruzada contra as torcidas organizadas.

25/01/2016 – A torcida organizada corintiana Gaviões da Fiel leva sinalizadores para o Pacaembu na final da Copa São Paulo de Futebol Júnior, em que o Corinthians perdeu nos pênaltis para o Flamengo.

Gaviões da fielFesta do povão! A arquibancada pede liberdade. Não ao futebol moderno!! Gaviões da Fiel Torcida!

Publicado por Gaviões da Fiel Torcida em Quinta, 28 de janeiro de 2016

 

27/01/2016 – Federação Paulista de Futebol pune a Gaviões da Fiel com 60 dias de suspensão dos estádios por causa dos sinalizadores. A organizada não pode portar nenhum adereço (faixas, bandeiras, instrumentos musicais) que a identifique durante esse período.

31/01/2016 – Gaviões protesta na porta da Federação Paulista de Futebol, na Barra Funda, e solta nota explicando que já previa a punição, mas queria proporcionar à “molecada da base a festa que sempre fizeram para todos que vestiram a camisa do Corinthians”. Criticam a elitização dos estádios, Fernando Capez (PSDB) e o promotor público Roberto Senise (segundo eles, tentou fechar a organizada cinco vezes) por acusações de suborno, além da própria federação.

03/02/2016 – Mancha Alvi Verde emite nota de repúdio à Federação Paulista de Futebol por ter se recusado a modificar a data de partidas de Palmeiras e Corinthians que haviam sido marcadas para o mesmo dia. O Corinthians enfrentaria o Audax, em Osasco, às 19h30, e o Palmeiras, o São Bento, às 21h, no Pacaembu. A organizada alega que a estação de metrô da Barra Funda fica próxima do Paulo Machado de Carvalho e é uma passagem obrigatória para quem vai a Osasco. Teme pelo que pode acontecer se elas se cruzarem. Não aconteceu nada.

08/02/2016 –  Em entrevista ao Blog do Boleiro, de Luciano Borges, no UOL Esporte, o promotor Paulo Castilho advoga a favor do fim das escoltas das torcidas organizadas para o estádio, mesmo quando há risco de conflito com facções rivais. “Eles querem marcar briga? Eles que se matem. Metade vai para o cemitério, metade vai para a cadeia”, disse.

11/02/2016 – Gaviões da Fiel leva três faixas de protesto para a partida contra o Capivariano, na Arena Corinthians: “Rede Globo, o Corinthians não é seu quintal”, “Jogo às 22h também merece punição” e “cadê as contas”, em relação ao próprio estádio do clube paulista. No intervalo, a Polícia Militar do Estado de São Paulo retirou essas faixas. Devolveu-as em seguida e depois voltou a retirá-las. Teve tumulto.

14/02/2016 – Clássico contra o São Paulo. Polícia impede camisas que faziam alusão à goleada por 6 a 1 no Campeonato Brasileiro do ano passado. A revista também visa impedir a entrada de faixas de protesto na Arena Corinthians. No entanto, a torcida da casa consegue exibir quatro mensagens: “Quem vai punir o ladrão da merenda?”, sobre Capez, “CBF e Federação Paulista, vergonha do futebol”, “ingresso mais barato” e “futebol refém da Rede Globo”. A partida é paralisada pelo árbitro, vinculado à Federação Paulista de Futebol. Ele pede ao capitão Felipe que interceda para que a torcida guardasse as faixas. A Rede Globo transmite tudo ao vivo, mas não mostra o protesto.

Torcida do Corinthians protestou contra Capez, contra Globo, FPF e CBF no clássico com o São Paulo
Torcida do Corinthians protestou contra Capez, contra Globo, FPF e CBF no clássico com o São Paulo

18/02/2016 – A Federação Paulista de Futebol solta nota oficial “esclarecendo que não se opõe a nenhum tipo de manifestação pacífica durante os jogos e que seus regulamentos não vetam a exibição de faixas ou bandeiras de protesto”. Cita especificamente que os protestos da torcida corintiana não feriram a lei e diz que não orienta árbitros, delegados e mesmo policiais militares a oprimirem manifestações.

21/02/2016 – Polícia Militar anuncia punição às duas principais organizadas do São Paulo, Dragões da Real e Independente, por terem brigado com torcedores comuns no jogo contra o The Strongest, quatro dias antes. A sanção de duas partidas impede as entidades de levarem faixas e baterias para os estádios.

27/02/2016 – No jogo do Corinthians contra o Oeste, a Gaviões da Fiel volta a protestar contra Capez, FPF, CBF e a elitização do futebol brasileiro. As novidades são faixas em inglês, para atrair atenção internacional, e a adesão de outras três organizadas: Estopim da Fiel, Pavilhão Nove e camisa 12.

02/03/2016, à tarde – Líderes de torcidas organizadas de Corinthians, Palmeiras e São Paulo reúnem-se com o promotor público Paulo Castilho no Fórum Criminal da Barra Funda. Assim que saem do encontro, o presidente da Gaviões da Fiel, Rodrigo Fonseca, o Diguinho, e o primeiro-secretário Cristiano Morais, dirigem-se ao estacionamento do supermercado onde haviam deixado o carro. Aparece outro veículo. Três homens sem uniformes de organizadas e portando barras de ferro descem dele e agridem os dois dirigentes da organizada corintiana. Diguinho teve os dois braços quebrados, Cristiano perdeu os dentes.

02/03/2016, à noite – Intervalo de Corinthians x Independiente Santa Fé, pela Libetadores. A Rede Globo filma as faixas de protesto da torcida corintiana, contra os mesmos alvos de sempre, inclusive ela, e o narrador Galvão Bueno comenta que “protestar é um direito de todo cidadão”. Em seguida, defende a emissora. Na mesma partida, um torcedor grava uma ação truculenta e violenta da PM nas arquibancadas.

03/03/2016 – Polícia Civil instaura inquérito para investigar as agressões contra Rodrigo Fonseca e Cristiano Morais. O advogado que representa os dirigentes da Gaviões da Fiel afirma que os seus clientes foram agredidos por homens encapuzados.

04/03/2016 – Gaviões da Fiel emite nota em que desconfia da hipótese de a agressão aos seus dirigentes ter sido realizada por torcidas rivais, “embora a imprensa e o promotor Paulo Castilho” estivessem sugerindo isso. A opinião da organizada é que se trata de uma retaliação aos protestos. “Assumimos uma declarada guerra ideológica com setores da sociedade que, apoiados no conservadorismo, não estão acostumados com a contestação. Se em 1969, quando fomos fundados travando uma luta contra Wadih Helú, ex-presidente compromissado com a ditadura militar, fomos repreendidos por capangas, não nos espantaria se a tentativa de repressão fosse implementada novamente, nos tempos atuais”.

06/03/2016 – A Torcida Jovem, principal organizada do Santos, faz um protesto em conjunto com os corintianos no clássico da Vila Belmiro. Os donos da casa levam faixas com as mensagens “Ingresso caro, arquibancada vazia” e “O monopólio acabou”. O Santos é o único clube grande paulista que assinou contrato de direitos de transmissão de TV fechada com o Esporte Interativo, em detrimento da Rede Globo. A Polícia Militar infiltra-se no meio da torcida santista para retirar as faixas, e torcedores denunciam que a ação, para variar, foi violenta.

16/03/2016 – Ao final do jogo entre Corinthians e Cerro Porteño, a Polícia Militar do Estado de São Paulo persegue com cassetetes corintianos no setor das organizadas da Arena. Os torcedores revidam atirando o que encontram pela frente em direção aos policiais.

17/03/2016 – A CPI das Torcidas Organizadas, instaurada ano passado na Câmara Municipal de São Paulo, convoca os presidentes das quatro principais organizadas do estado para esclarecer as agressões a Rodrigo Fonseca e Cristiano Morais, dirigentes da Gaviões da Fiel. Os chefes da Independente, da Mancha Alvi Verde e da Torcida Jovem negam qualquer envolvimento com a agressão, e Fonseca, dirigente da Gaviões, concorda que a agressão não partiu de nenhuma torcida rival. O presidente da Mancha, Jânio Carvalho, fala em “jogo de cena para culpar as organizadas”.

19/03/2016 – Apenas três dias depois, também após o final da partida, Gaviões da Fiel e a Polícia Militar do Estado de São Paulo brigam novamente. Desta vez, o palco é fora do estádio corintiano, na região do estacionamento. A versão oficial da PM é que “torcedores, sem motivo aparente, agrediram três policiais na saída do setor das organizadas” e o apoio reagiu para detê-los. Segundo relatos colhidos pela reportagem da ESPN Brasil, as organizadas apenas provocaram com o canto “para de agitar e vem para luta”, e os policiais atenderam ao chamado. Bombas de efeito moral são lançadas indiscriminadamente e afetam também torcedores que não tinham nada a ver com a história. As críticas contra a ação policial são cada vez maiores.

20/03/2016 – Gaviões da Fiel emite nota lamentando que “em tempos de democracia, o motivo mais aparente para se suspeitar das ações policiais seja justamente a tentativa de uma censura opressiva”.

21/03/2016 – Após duas confusões seguidas em um intervalo de três dias, a diretoria do Corinthians exige uma reunião com a polícia para esclarecimentos e repudia qualquer ato de violência.

23/03/2016 –  O tenente coronel Luiz Gonzaga de Oliveira Júnior afirma ao Globo Esporte que o problema principal é que “a torcida não respeita o poder do Estado”. Afirma que, como a Federação Paulista, não se importa com as manifestações, mas que a Gaviões da Fiel, ainda por causa do incidente do sinalizador na Copinha, está proibida de entrar no estádio com faixas e adereços. Chama as faixas de “clandestinas”.

24/03/2016 – O encontro com o comando da Polícia Militar foi na terça-feira, mas apenas na quinta o Corinthians solta nota oficial reconhecendo “a legitimidade do Policiamento de Choque no que se refere a manter a ordem”, mas reforça sua “reprovação e repúdio” a qualquer ato de violência. Espera que eles não se repitam.

26/03/2016 – Membros da Mancha Alvi Verde vão à Academia de Futebol, centro de treinamentos do Palmeiras, protestar contra a frase do time. Para a organizada, trata-se um “bate-papo” produtivo. O clube denuncia entrada forçada dos organizados ao local e promete “estudar com Federação Paulista de Futebol, Polícia Militar do Estado de São Paulo e Ministério Público atitudes para que esses fatos lamentáveis não voltem a acontecer”.

30/03/2016 – Por solicitação do próprio Palmeiras, a Federação Paulista de Futebol suspende a Mancha Alvi Verde por tempo indeterminado até que se conclua a investigação da invasão à Academia de Futebol. Na semana do clássico contra o Corinthians, a organizada também perde o direito de entrar no estádio com faixas e instrumentos musicais.

31/03/2016, à tarde – Gaviões da Fiel protestam frente à Assembleia Legislativa de São Paulo pedindo uma “CPI da Merenda” para investigar o papel de Capez e de outros envolvidos no esquema de propina.

31/03/2016, à noite – Mancha Alvi Verde fica 42 minutos em silêncio durante a partida do Palmeiras contra o Rio Claro em protesto à punição imposta pela Federação Paulista de Futebol.

01/04/2016, pela manhã – Polícia Civil prende um integrante da Mancha Alvi Verde suspeito de ter participado do espancamento ao presidente da Gaviões da Fiel. Ligações à central de atendimento da Polícia Militar denunciaram a placa do carro dos agressores, identificado como sendo de Deivison Correira, organizado palmeirense que já havia se envolvido na agressão a Vagner Love, em 2009, e na briga na avenida Inajar de Souza, em 2012. As primeiras pistas do caso chegaram apenas duas semanas depois de o inquérito ser aberto. A prisão ocorre quase um mês depois da agressão, na manhã do dia em que as organizadas reúnem-se com a polícia para definirem o esquema do clássico de domingo.

01/04/2016, à tarde – Polícia Civil cumpre mandato de busca e apreensão na quadra da Gaviões da Fiel com o objetivo de encontrar as armas da agressão ao presidente da torcida organizada. A versão dos oficiais é que integrantes da Gaviões teriam recolhido as armas na cena do crime quando foram socorrer os amigos. Encontra três bastões de madeira e metálicos, mas não confirma que foram os mesmos utilizados para espancar Rodrigo Fonseca e Cristiano Morais.

03/04/2016 – Três brigas entre torcedores do Palmeiras e do Corinthians eclodem antes do clássico no Pacaembu, em várias regiões da cidade, e uma pessoa morre baleada, em São Miguel Paulista. De acordo com o tenente-coronel Luiz Gonzaga, a vítima não identificada tinha 60 anos e não participava da briga. Ele também afirmou que os briguentos eram integrantes da Mancha Alvi Verde e da Gaviões da Fiel e que foram os corintianos quem provocaram as agressões. Na avenida Doutor Arnaldo, na região do Pacaembu, dois palmeirenses foram agredidos por corintianos depois da partida. As outras brigas ocorreram em Guarulhos e no Brás.  No total, 32 pessoas foram detidas.

03/04/2016, à noite – Em entrevista ao SporTV, o promotor Paulo Castilho pede a extinção das torcidas organizadas em São Paulo. “Não consigo vislumbrar outra saída, a não ser que eles fossem vinculados ao clube, sócios do clube”.

04/04/2016, pela manhã – Todos os 32 detidos nas brigas de domingo são liberados pela polícia.

04/04/2016 – O secretário de segurança do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes, anuncia que todos os clássicos paulistas serão realizados com torcida única até dezembro. Assim, não será mais necessário deslocar contingente policial para fazer a escolta das organizadas e o patrulhamento de outras regiões da cidade pode ser reforçado, segundo Moraes. Todas as organizadas também estão proibidas de levar faixas, adereços, instrumentos musicais ou qualquer tipo de identificação ao estádio. Os clubes não poderão mais entregar ingresso separadamente para as organizadas. O secretário afirma que 50 torcedores estão sob processo de identificação e serão banidos dos estádios.

05/04/2016, pela manhã – A Gaviões da Fiel emite nota posicionando-se contra torcida única nos clássicos e afirmando que “não assume a responsabilidade e a autoria das brigas, principalmente por considerar que as mesmas não têm ligação direta com qualquer tipo de entidade”. Diz estar surpresa com a “série de coincidências” que antecederam o clássico, como a invasão de policiais à sede da Gaviões, um dia depois de a organizada realizar um protesto na Assembleia Legislativa do Estado contra Capez; afirma que sua atenção foi aguçada com a operação da polícia que apresentou um suspeito das agressões contra diretores da Gaviões, que por acaso é um membro da Mancha Alvi Verde, às vésperas do clássico entre Palmeiras e Corinthians; e manifesta “estranheza” com o fato de tal cruzada repentina pelo fim das organizadas ter acontecido após meses de “intermináveis protestos por parte da Gaviões da Fiel contra alicerces conservadores da sociedade, não habituados com contestação, como FPF, CBF, Rede Globo, dirigentes do Corinthians e o deputado Fernando Capez”.

05/04/2016, à tarde – A reportagem do Estado de S. Paulo, em contato com o Instituto Médico Legal, descobre que a pessoa morta em São Miguel Paulista, quase 48 horas antes, ainda não foi identificada. Sabe-se apenas que se trata de um homem por volta de 60 anos, com 1,70 metros de altura, pele branca, cabelos grisalhos, calvície parcial e porte físico “forte”. O prazo pode ser estendido, mas, a partir da 72ª hora sem identificação, a vítima pode ser enterrada como “corpo desconhecido não-reclamado”.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo