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Entidades místicas do futebol brasileiro: a eterna promessa

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Começa com os burburinhos. “Dizem que tem um moleque na base que joga demais”. Normalmente é um jogador precoce, que começa a jogar em uma categoria acima da sua durante toda a carreira. Ele tem 15 anos, mas já atua no sub-17. Ele tem 17, mas atua pelo sub-20. E assim vai. É aqueles jogadores que assinam contrato aos 12 anos, aos 13 já coleciona uma série de reportagens sobre ele ser um futuro craque e aos 15 já defendeu a seleção do país em inúmeros torneios.

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Tem uma fama enorme de ser o craque do time, de ter marcado centenas de gols atuando pelas divisões de base. Usualmente recebe o apelido de “Novo (algum craque)”, que já o faz ficar sob uma pressão ainda maior para vingar. Mal passou dos 16 anos e as notícias sobre ele já fazem a torcida ficar ansiosa para vê-lo entre os profissionais. Começa uma certa pressão para que o garoto vá logo para o time de cima, mas os discursos são parecidos: ele ainda é novo, temos que dar tempo ao tempo.

Como o jogador é um craque em potencial, o empresário pede um salário alto para alguém que nunca sequer entrou em campo pelos profissionais. Aos 16 anos, idade que pode finalmente assinar como profissional, ganha um salário maior do que a maioria das nós, mortais, vai ganhar na vida. Tem tudo, é protegido, às vezes é até escondido em algum lugar no exterior para fugir do assédio de clubes estrangeiros. Mimado por todos, protegido, muitas vezes nem precisa marcar, “porque ele tem muito talento para desperdiçar marcando”. Não tem só um empresário: tem um staff, com gente que cuida da sua carreira, do seu estilo e de mais um monte de coisas que nem se sabe direito o que é, mas dizem que é legal ter porque tem uns nomes em inglês.

Aos 17, a pressão já é grande demais. Todo mundo quer ver aquele fenômeno em campo. As pessoas começam a procurar os jogos do time de base para assistir. Na categoria sub-20, ele é um novato, joga com companheiros muito mais velhos. É reserva, porque seu corpo ainda é de um adolescente, enquanto os mais velhos da categoria já têm barba na cara e físico de gladiador. Sempre que ele entra em campo e toma uma falta mais dura, já se fala em “proteger o talento”.

No noticiário, o empresário já diz que ele será o futuro da seleção. Já surgem notícias que grandes clubes europeus, aqueles mais ricos, fizeram propostas por ele, mas o clube dono do seus direitos rejeitou. O empresário fala maravilhas, e fica ainda mais maravilhado de poder falar o quanto quiser e ganhar páginas de jornal, minutos no rádio e posts na internet. A conta do jogador no Twitter é seguida por milhares e milhares de pessoas. Ele assina contrato com uma marca famosa de material esportivo.

Até que finalmente chega a hora. Os centenas de gols na carreira da base geram uma enorme expectativa. A torcida já grita o seu nome antes mesmo de ele ter pisado no gramado com o time principal. Quando ele vai para o aquecimento pela primeira vez, a torcida se anima. “Lá vem o nosso garoto”, dizem uns para os outros os torcedores na arquibancada. Chega a hora. O técnico chama. Ele recebe as instruções. Corpo franzino, rosto de adolescente. Sobe a placa. A torcida se alvoroça. Ele entra em campo com pé direito, toca o chão, faz sinal de cruz, levanta aos mãos ao céu.

Na primeira bola que recebe, ele dá uma pedalada, parte para cima. Passa pelo primeiro, mas o segundo marcador chega e tira a bola. A torcida se anima. “O garoto é bom de bola!”, diz o torcedor, olhando para o lado, sem conter a alegria. No fim, não deu para fazer muito na estreia. Era a primeira vez, o garoto nem tem idade para dirigir e enfrentou uns marcadores malandros. É normal, todo mundo pensa, ele precisa de tempo.

O garoto prodígio já é chamado de “jóia” pela imprensa. Dá entrevistas em programas de TV. Alguns analistas dizem que é cedo para avaliar o jogador. É xingado no Twitter, porque o acusam de ser torcedor de um rival e de estar com inveja do novo futuro supercraque que está pintando.

Os primeiros jogos já ficaram para trás e o garoto ainda não explodiu. Surgem os primeiros pedidos de paciência, porque o jogador é muito novo, ele precisa se adaptar. O time, em crise, começa a sofrer com os resultados. A torcida pede para que a promessa seja titular. O técnico fala em entrevista coletiva que é preciso de tempo. Diz que o jogador precisa “ganhar corpo”, que ainda não está pronto. O time continua sofrendo com resultados, vencendo algumas partidas e tropeçando em tantas outras.

Finalmente, o garoto é colocado como titular. A expectativa é alta, ele é muito acionado, a torcida faz festa para absolutamente qualquer lance dele. Não brilha. É o nervosismo, alguns dizem, é jovem, jovem oscila. Em jogos seguintes, ele entra, mas o time não muda. Sua vontade e habilidade estão ali, é evidente, mas ele não consegue fazer valer o seu talento. A confiança some. Ele passa a errar lances simples. Os pedidos por ele já não são tão frequentes. Já surgem os primeiros xingamentos ao jogador. Acusam-no de falta de humildade.

A temporada acaba, o time não foi lá grande coisa. Chega um novo técnico. Diz que o garoto não está nos planos. Pede para emprestá-lo, porque ele precisa ganhar experiência. Ele vai para um time da Série B com a expectativa de jogar mais. Começa bem, titular, mas acaba indo para o banco quando os resultados não vêm e o gol não sai.

Ao final da temporada, o garoto volta ao clube de origem, que o empresta novamente a um outro clube. Até que o contrato acaba. O mundo girou, ele não volta mais. Não há mais interesse de Barcelona, Chelsea ou Real Madrid. Nem de times da Série B. Começa a ter que procurar times do interior para jogar o campeonato estadual. Aquele salário que ele ganhava aos 13 passou a ser o salário que ele ganha aos 20, 21 anos.

Alguém sempre o contrata achando que ele voltará a ser aquilo que nunca foi, um craque que irá decidir jogos, brilhar, ser a estrela do time. Vive de “ah, aquele”, sendo contratado mais pelo barulho que fará do que epla bola que (não) irá jogar. Aos 22 anos, já tem mais de uma dezena de clubes no currículo. Você verá alguma notícia dele acertando com algum clube nos próximos meses. Alguém lembrará que era aquele jogador promissor, que jogou com aquele outro que vingou e virou mesmo craque. Ele continuará a sua vida de trabalhador da bola, tentando reviver o sonho que ele quase chegou a realizar.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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