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E se Viola marcasse o gol que daria o tetra à Seleção?

“Ei, Viola, vem cá! Termina o aquecimento que você vai para o jogo!”. O sol forte era um incômodo em Pasadena. Já tinham se passado 105 minutos de jogo quando Carlos Alberto Parreira tentou sua cartada final. Zinho foi o escolhido para sair, e o técnico queria dar mais gás ao ataque, mas quem tirar? Entre as muitas opções do ataque, o escolhido acabou sendo Viola. Nada de apostar na juventude de Ronaldo ou na tarimba de Müller. Era final de Copa do Mundo e o comandante queria alguém com poder de decisão, que não sumia sob pressão. O centroavante provocador, então no Corinthians, estava com a bandeira amarrada nas costas. O espírito patriota que Parreira (e Dona Lúcia, em algum lugar do país) queria em campo.

Viola entrou bem em campo. Dadas as condições físicas da zaga italiana, que estava cansada e tinha Baresi em seu limite, o substituto ajudou a bagunçar a Azzurra. Deu correria e também chamou a responsabilidade. Para se consagrar com apenas seis minutos em campo. O camisa 21 recebeu a bola na intermediária. Passou por Donadoni, que não o acompanhou. Depois, abriu um clarão entre Evani e Benarrivo. Fintou com um drible Mussi e Baresi, antes de deixar Maldini no chão. Ao invés de passar para Romário e Bebeto, mais livres na esquerda, Viola preferiu então decidir logo e arriscar o chute. Para se consagrar como um herói de Copa do Mundo. O tiro rasante acertou o canto, sem chances para Pagliuca.

O fanfarrão atacante já sabia como comemorar. Mantendo a sua própria tradição, foi à forra com os italianos ao fingir que estava comendo uma bela macarronada. E deu a taça nas mãos de Dunga. A partir de então, o Brasil só precisou se segurar contra uma Azzurra já impotente. Roberto Baggio acertou a trave nos minutos finais e quase se consagrou, levando a decisão para os pênaltis. No entanto, Viola escreveu a história do tetra. Saiu com o pessoal da comissão técnica para virar cambalhotas dentro de campo. Queria levar o troféu para casa. Não pôde. Mas, com honras, se tornou o mestre de cerimônias no desfile a céu aberto pelas ruas do Brasil. Romário era o herói, mas Viola foi o cara.

A partir de então, a carreira de Viola chegou a outro patamar. Parreira estava louco para levar o atacante ao Valencia em seu início no clube. O gol na final se tornou a chave para os espanhóis aumentarem a proposta e acelerarem sua saída do Parque São Jorge. Na Seleção, com Zagallo, o centroavante tinha lugar garantido. Para o Velho Lobo, ele seria o futuro da equipe ao lado de Ronaldo. E assim se manteve chamado sempre, mesmo com uma temporada mediana no Mestalla.  Com a concorrência de Oleg Salenko, outra sensação no Mundial dos Estados Unidos, o brasileiro anotou oito gols, e o time não passou do meio da tabela.

viola

Só que Viola era um herói de Copa. Tinha perdão até por comer bolachas na concentração. E o Valencia resolveu dar um crédito de confiança, por mais que Parreira tivesse sido demitido. Apesar de um primeiro turno ruim, marcou 12 gols e ajudou os Ches a terminarem com o vice-campeonato de La Liga. Só não queria mais ficar no Mestalla. A saudade do feijão até pesava, o Palmeiras o queria, mas o centroavante seguia com mercado para ganhar dinheiro. Tanto que a Parmalat resolveu levá-lo ao Parma, melando o negócio com o promissor Hernán Crespo, que parecia quase certo.

Antes de tentar a sorte na Serie A, Viola disputou as Olimpíadas de Atlanta como um dos jogadores maiores de 23 anos, vencendo a disputa com Bebeto. Só que o time de Zagallo passou vergonha, ao só empatar na última rodada com a Nigéria, eliminado pelo Japão. Em seu início no Parma, o centroavante não fez o que se esperava. Marcou nove gols, deixando o time na sexta colocação. Então é que sua volta ao Brasil se concretizou. O Santos pensou em trazê-lo, mas a Parmalat facilitou o esperado negócio com o Palmeiras.

Sem o mesmo moral na Seleção, Viola ainda permaneceu como talismã, o cara que decidiu o tetra na prorrogação. Conquistou a Copa América e a Copa das Confederações em 1997. Já com o Palmeiras, por mais que disputasse posição com Oséas, fez boas partidas na campanha vitoriosa da Copa do Brasil de 1998. O suficiente para carimbar seu passaporte para a França. Com o corte de Romário, Zagallo apostou na mística da amarelinha e levou o goleador para o seu segundo Mundial. Agora, vestindo a 11.

Viola entrou poucas vezes em campo naquela Copa. Sua chance de ouro, contudo, viria outra vez pelo acaso. A convulsão de Ronaldo abriu uma brecha no titular. O que o técnico faria: apostava no melhor do mundo ou botava Edmundo em grande fase? Nenhum dos dois, pesou a estrela de Viola. Que não adiantou muito. Zidane estava inspirado de qualquer e marcou os dois gols na vitória por 3 a 1. Ao menos o camisa 21 conseguiu marcar o gol de honra. E pôde tentar ganhar mais algum dinheiro fora do país, negociado com o Sporting.

Por mais que a língua ajudasse, Viola não passou mais de uma temporada e meia no Alvalade. Com apenas cinco gols na bagagem, também Vanderlei Luxemburgo esqueceu dele na Seleção. De Portugal, seguiu para o Kashima Antlers, o que fez alguns defenderem sua convocação para a Copa de 2002. Afinal, além de ser autor de gols em duas finais de Copas do Mundo, feito raríssimo, Viola também conhecia bem o país do Mundial. Nada feito. Em 2003, após deixar a J-League e passar seis meses na Turquia, voltou o Brasil. Realizou o sonho de Santos e Vasco, que muito o desejavam, mas não agradou. Rodou por clubes médios. Arrastou sua carreira até os 40 e tantos anos. Mas ainda atraía público como herói do tetra. Na base do jeitinho brasileiro, nem foi preso por porte ilegal de arma. Afinal, seu nome estava escrito na história.

Seguia uma figuraça. Que usava muito bem a imagem de redentor do futebol brasileiro para faturar e gerar audiência. A diferença em relação ao que realmente acontece nos dias atuais? Viola causou muito mais repercussão. Se alguém quisesse rebater os 7 a 1, tinha uma carta irreverente na manga. E com o trunfo de que o camisa 21 ainda decidiu uma Copa do Mundo.

Como você percebeu, o texto inteiro é fictício, mas com umas pitadas de realidade. Uma homenagem aos 21 anos do tetra, comemorados nesta sexta. Viola fez fila na zaga italiana, mas preferiu passar a bola. Jogou no Valencia e foi vice-campeão espanhol, voltou ao Brasil para defender Palmeiras, Santos e Vasco com mais relevância, além de uma dúzia de times em passagens fugazes. Tetracampeão, mas sem ser herói, ainda é uma figuraça.

Ah, a imagem que ilustra o texto é real, de uma edição do Estado de S. Paulo de 1994. Já o lance do golaço que nunca saiu acontece a partir de 5:50 no vídeo abaixo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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