Brasil

E se Marty McFly chegasse ao futuro perguntando sobre o futebol dos últimos 30 anos?

Esta quarta-feira é um dia especial para os fãs da trilogia De Volta Para o Futuro: 21 de outubro de 2015 foi o destino final da viagem transcendental de Marty McFly, com a máquina do tempo do professor Emmett Brown. Resolvemos imaginar, em um universo paralelo em que Marty é brasileiro, como seria um hipotético diálogo entre ele e um interlocutor que lhe explica o que aconteceu no futebol nos últimos 30 anos.

Marty mal podia acreditar. A engenhoca do professor Emmett Brown havia funcionado. Pelo menos, o carro não bateu e ele foi transportado para outro lugar. Encontra-se no centro da cidade de São Paulo, mas não entende como um lugar que era lindo está tão deteriorado. Andando pelos arredores da Praça da Sé, para em frente a uma banca de jornais e olha para um diário de esportes. Confirma que hoje é dia 21 de outubro de 2015, o que significa que, de fato, ele viajou três décadas para frente. Mas, naquele momento, uma grande curiosidade passa a deixá-lo aflito: o que será que aconteceu no futebol nesses últimos 30 anos?

E puxa papo com o vendedor da banca.

– Eu vim do passado.
– Aham.
– É verdade.
– Eu acredito. Só não vomita na minha banca, por favor, acabei de limpar o chão.
– Não estou bêbado!
– Eu sei. Você veio do passado.
– Vim. De 1985.
– Foi um bom ano, 1985, eu tinha mais cabelo, um carro legal e namorava o amor da minha vida.
– Hoje ela é sua mulher?
– Hoje ela recebe 42% do meu salário de pensão alimentícia. Eu posso ajudar o senhor com alguma coisa?
– Eu estou um pouco confuso.
– Isso eu confesso que havia deduzido sozinho.
– O que aconteceu nos últimos 30 anos?
– Não acha melhor ser mais específico?
– No futebol?
– Bom, o Brasil sediou uma Copa do Mundo ano passado.
– Sério? Deve ter sido uma grande festa!
– Foi. Eu tive que limpar o chão da minha banca muitas vezes.
– E como nós nos saímos? Fomos campeões?
– Não. Perdemos.
– Nossa, em casa?
– Em casa.
– Deve ter sido traumático. Mas duvido que tenha sido pior que a derrota para a Itália na Copa de 1982. Eu chorei muito naquele dia. Que time maravilhoso era aquele! Falcão, Cerezo, Zico, Sócrates…
– Então…
– Foi pior?
– Foi pior.
– É melhor eu não saber os detalhes.
– Quem dera eu pudesse esquecê-los.
– Falando em Zico, quantas Copas do Mundo ele ganhou? Aposto que pelo menos duas.
– Nenhuma.
– Como é possível?
– Em 1986, ele perdeu o pênalti que eliminou o Brasil contra a França, depois se machucou e não defendeu mais a seleção.
– Bom, azar da Copa do Mundo, então!
– Eu já ouvi isso em algum lugar.
– O que o Zico anda fazendo hoje em dia?
– Ele foi treinador do Japão, de alguns clubes da Europa, dirigente do Flamengo, comentarista de televisão, é dono de um clube no Rio e está tentando se candidatar a presidente da Fifa. Para ser sincero, não sei nem se ele sabe direito o que faz hoje em dia.
– Nossa, imagina o Zico presidente da Fifa? Será que ele consegue vencer a eleição?
– Vamos mudar de assunto.
– Tudo bem. E o Brasil? Ganhou quantas Copas?
– Duas.
– Temos quantas no total, então? Cinco?
– Cinco.
– Que legal! Qual era o técnico?
– Em 1994, Parreira e Zagallo.
– Não, acho que você se confundiu, esses eram os técnicos de 1970.
– E também de 1994. Só que dessa vez o Parreira era o principal, e o Zagallo auxiliar.
– E no outro título?
– Em 2002, foi o Luiz Felipe Scolari, o mesmo técnico da Copa do Mundo do ano passado.
– Deixa eu ver se eu entendi. Em 2002 e 2014 foi esse tal de Luiz Felipe não sei o quê. Em 1994, foi o Parreira e o Zagallo, certo?
– Certo.
– E em 1998?
– O Zagallo.
– E em 2006?
– O Parreira.
– Eu acho que estou ficando cada vez mais confuso.
– Imagino. Rolou uma espécie de rodízio entre eles.
– Benzadeus, que falta de criatividade. Aliás, quem é o atual campeão brasileiro?
– Você consegue entender que eu trabalho em uma banca de jornais e não em um balcão de informações?
– Tudo bem. Quanto custa o pôster do último campeão brasileiro?
– Muito espertinho.
– Tenho meus momentos.
– O atual bicampeão, na verdade, é o Cruzeiro.
– Que legal! O Palmeiras conquistou quantos títulos?
– Venceu dois no começo dos anos noventa, mas desde que foi rebaixado não conseguiu mais brigar pelos grandes títulos.
– O Palmeiras foi rebaixado?
– Duas vezes.
– Duas vezes??
– Calma, o Corinthians também foi. E o Vasco, o Botafogo, o Grêmio, o Atlético Mineiro.
– Meu Deus, foi uma epidemia!
– É que desde que o Campeonato Brasileiro passou a ser disputado por pontos corridos, ele ficou mais sério. Não tem mais virada de mesa.
– O Brasileirão é por pontos corridos? Não tem mais final? Que coisa chata.
– Bom, eu ouço na televisão que agora temos 38 finais.
– Se for assim, o Maracanã deve receber mais de 100 mil pessoas todos os jogos.
– A capacidade do Maracanã não chega a 80 mil agora.
– O que fizeram com ele?
– Um crime, mas, se eu for entrar em detalhes, e explicar a organização da Copa do Mundo, o conceito de arena moderna, o que é um consórcio e tudo mais, passarão mais 30 anos.
– Agora você acredita que eu vim do passado?
– Não. Ainda acho que você está bêbado, mas não tenho nenhum outro cliente e estou um pouco entediado.
– Os estádios estão menores, mas devem estar sempre cheios.
– Não.
– Por quê?
– Vários fatores. Violência. Muitas torcidas brigam entre si, às vezes do próprio time.
– Nossa, que nem na Inglaterra?
– Na Inglaterra quase não brigam mais.
– Mas os caras são presos?
– Poucas vezes.
– Por quê?
– Quando eu souber a resposta, eu te ligo.
– Quais são os outros fatores?
– Bom, a televisão agora passa praticamente todos os jogos.
– Mas e quem não tem dinheiro para comprar televisão faz como? Vai ao estádio?
– Vou te falar que às vezes a televisão sai mais em conta que ir ao estádio. Os ingressos estão muito caros.
– Então, os estádios estão menores, mais vazios e mais violentos, e os ingressos, mais caros? Pelo menos, quem enfrenta essa roubada deve gostar muito do time, cantar o tempo inteiro, levar bandeiras e tudo mais.
– É, com certeza, deve, sim.
– Posso fazer uma última pergunta?
– Agora você decide pedir permissão?
– Tinha um jogador que eu adorava, o Michel Platini. Um gênio, muito elegante, craque da seleção francesa e da Juventus. Eu o via jogar no Campeonato Italiano, que passava na Bandeirantes. O que ele anda fazendo? Só falta ele também querer ser presidente da Fifa, como o Zico.
– Ele quer.
– Quer?
– Sim. Ele é o presidente da Uefa, mas está suspenso.
– Por quê?
– Envolvido em um escândalo de corrupção.
– Corrupção?? Mas ele era tão inteligente, tão polido, um gentleman. Não acredito. Mas nunca se sabe, né? Pelo menos em campo ele sempre será o melhor jogador da história da França!
– Também não.
– Não?
– Não.
– Ah, deixa para lá. O futebol está muito estranho, muito diferente. Meus ídolos me decepcionaram, meu time foi rebaixado, minha seleção perdeu uma Copa do Mundo em casa, o Campeonato Brasileiro está chato, os estádios estão vazios. Não quero mais falar sobre isso. Podemos mudar de assunto?
– Sobre o que você quer falar agora?
– Me conta o que rolou na política nos últimos 30 anos.
– Meu amigo…

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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