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E a maior hipocrisia é o Ba-Vi ter sido chamado, antes do jogo, de “clássico da paz”

O Ba-Vi deste último domingo será lembrado por muito tempo. E poderá ser mencionado de diferentes maneiras: o clássico que não terminou, o da pancadaria, o dos cartões vermelhos aos montes. Mas, no final das contas, algo importante precisa ser lembrado. Este deveria ter sido o “Ba-Vi da Paz”, com a presença de rubro-negros e tricolores nas arquibancadas do Barradão, após um ano de duelos com torcida única. Acabou se transformando no “Ba-Vi da Vergonha”, em que as tentativas de se conscientizar sobre a convivência pacífica dos torcedores rivais se transformou em exemplo claro de demagogia por parte dos jogadores.

A preocupação era evidente antes do jogo. O Ministério Público da Bahia deu o sinal verde para que as duas torcidas pudessem estar presentes no estádio, encerrando o embargo que vinha desde o início de 2017. Por conta dos atos de violência, as autoridades determinaram que, ao longo dos últimos meses, apenas os mandantes contariam com seus torcedores nas arquibancadas. Pode-se discutir a eficácia do método para se impedir os conflitos entre facções rivais. Todavia, se havia permissão para que as cores se misturassem no Barradão desta vez, a postura dos clubes deveria ir de encontro à conciliação, para que as canetadas não prejudicassem mais o direito de quem deseja estar presente nos clássicos.

Ao longo da semana, Vitória e Bahia trabalharam justamente em torno da conscientização. Na entrada em campo, houve o ato mais contundente: abraçados no círculo central, os jogadores de ambos os clubes tentavam passar uma imagem de tolerância, ao mesmo tempo em que faziam um minuto de silêncio pela morte de Danilinho, meio-campista da Juazeirense que faleceu após se sentir mal em um treinamento no início da semana. Antes que a bola rolasse, mais formalismos entre os capitães. Algo que se quebrou no início do segundo tempo, diante de toda a confusão após o gol de empate do Bahia. E o jogo sequer terminaria, com o Vitória recebendo cartões vermelhos em excesso no reinício do clássico.

Há várias abordagens possíveis em meio à vergonha no Barradão. Uma delas é a exaltação da violência no futebol, cada vez mais perceptível nas redes sociais. Por outro lado, surge a subjetividade em relação às provocações. E ao invés de concentrarmos argumentos apenas em um foco, no qual surgirão opiniões distintas, é preciso pensar como um todo. O futebol não se dissocia em nada da sociedade. Pelo contrário, é um microcosmo no qual se escancaram alguns dos sentimentos mais carnais. O que aconteceu no Ba-Vi ou no Comerário pelo Campeonato Sul-Mato-Grossense, de certa maneira, não deixa de ser reflexo de uma intolerância cada vez mais latente.

Não vou entrar no mérito aqui de quem estava mais errado ou menos errado (numa pancadaria dessas, afinal, não tem como querer dizer que alguém estava certo), porque isso acaba se tornando superficial – e, muitas vezes, atrelado ao clubismo. Há entidades para julgar o que deveria ser tratado criminalmente, afinal. O ponto maior é a inconsequência que se alastra. Não se mede os atos antes de fazê-los. Muito menos se furta de usar os punhos para tentar resolver. E se esquece que toda a rivalidade, toda a provocação, toda a animosidade, poderia ter sido resolvida do jeito mais justo e natural possível: dentro de campo, na bola. É nas quatro linhas que se fazem os clássicos. A vitória, sempre, é o direito de resposta mais justo possível. A provocação está dentro do futebol há décadas e, quando não é colírio aos próprios olhos, não pode ser transformada em sinônimo de ignorância – seja por quem aja e, especialmente, por quem reaja. Em um “mundo dos espertos”, mais esperto é quem sabe tirar o proveito da situação para mostrar o melhor de si, não o pior.

O que se perpetua, no entanto, é a reação explosiva e a falta de diálogo que se repete em diferentes ambientes. Há excessos de todos os lados possíveis. Principalmente daqueles que transmitem a mensagem de que os problemas são resolvidos apenas no muque – e ainda mais em um clássico projetado justamente para servir de exemplo. A “defesa da honra” se eterniza no vexame. A tentativa de dizer “quem manda” perpetua a mediocridade. Boçais que deveriam ser esquecidos por seus atos, mas serão lembrados justamente pelo mais deplorável que há. O valor de um clássico válido por um campeonato deprimente e “decidido” por jogadores irrelevantes se torna marcado pelo oposto do que se pautava – um exemplo de convivência.

Alguém pode justificar que não é a porrada generalizada que fará os torcedores brigarem entre si. Tudo bem, em um mundo racional isso costuma fazer sentido. Racionalidade, porém, é o que menos se viu no Barradão. E quem vai ao estádio disposto a brigar, expõe o mais irracional possível ao redor do futebol e da sociedade. Qualquer faísca serve de pretexto. O Ba-Vi terminou com 13 detidos e uma confusão também do lado de fora durante o pandemônio em campo. Por sorte, a irracionalidade não descambou para algo pior – aquilo que nos faz ter desgosto de um evento que deveria ser meramente esportivo. Que transmite a imagem de um entorno doente, muito além das arquibancadas. No qual não se ouve e as próprias verdades são impostas na força de um murro.

E a inconsequência traz mais um debate. O futebol que é reflexo da vida nos mostra o muito de autoritarismo e o pouco de autoridade. O árbitro, que estaria ali para avaliar uma possível provocação desmedida ou as entradas mais ríspidas, pouco desfruta de respeito em meio aos seus acessos de imperador. Não tem voz que impeça o desejo de justiça com os próprios punhos. Fica o caos, como se viu no Barradão. Não há conversa que solucione quando a totalitarismo individual parece não pensar em efeitos decorrentes. Acontece custe o que custar, para defender o próprio lado agredindo o outro.

Ao final, quem resolverá o problema? CBF, STJD, MP e qual outra sigla quiser se meter vai distribuir suas medidas paliativas, de início severas, mas abrandadas com o passar das revisões. Quem deveria, sim, atuar de maneira exemplar são os próprios clubes – estes que muitas vezes são coniventes ao jogo de poder “me engana que eu gosto” que se vê na organização do futebol, mas que não é exceção nos órgãos diretivos do país.

Os clubes precisam preservar seu patrimônio e entender o quão prejudiciais são os atos destes seus funcionários. As responsabilidades devem ser assumidas, não ocultadas em desculpas esfarrapadas ou um pretenso heroísmo sórdido. Sobretudo, os clubes têm que defender aqueles que são a sua razão de ser: seus torcedores, os que acabam mais prejudicados pela barbárie. Que sequer podem ver um jogo por completo, que pagam caro para não ter o que merecem, que são tratados como animais. Mas que, por outro lado, também precisam de humanidade se quiserem ser tratados como humanos. Não é aplaudindo imbecis e fomentando a boçalidade que se consegue isso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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