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Quer brincar de Football Manager na vida real? É o que propõe novo time do Espírito Santo

Qualquer torcedor apaixonado por seu clube está em constante atrito com as decisões tomadas pelos dirigentes de seu time do coração. Discorda daquela contratação, reclama da maneira como foi gasto o dinheiro da venda do craque da equipe e garante que se estivesse na cadeira de presidente faria muito melhor que “esses que estão aí”. Por isso não é surpresa alguma que jogos como Football Manager façam tanto sucesso. Pois, pelo menos no Espírito Santo, esse conceito ganhará vida de alguma maneira, com o recém-criado Doze Futebol Clube, que disputará a Série B do Campeonato Capixaba em 2015. Nascido a partir de um conceito inédito, a equipe quer abrir precedente para uma maior participação dos torcedores em seus clubes do coração.

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O nome da equipe dá uma dimensão do que se trata a agremiação. Com a premissa de que o torcedor é o 12º jogador, a escolha por “Doze” foi perfeita para os planos do novo empreendimento.  Partindo do conceito de crowdmanaging, cunhado pelo próprio fundador e CEO do clube, Israel Levi, a ideia é “dar o poder à multidão”. O empresário estudou e desenvolveu a concepção por dois anos, em um processo que culminará na estreia do time na Série B do Campeonato Capixaba de 2015, em 28 de fevereiro, contra o Cachoeiro. Mas a expectativa é de que isso seja apenas um primeiro passo que inspire mudanças na maneira como o futebol é administrado.

“Estamos trazendo para o Brasil algo que a gente fez de estudo. Eu fui o fundador e idealizador do negócio, visando melhorar o entretenimento do futebol. Mas quando comecei a pensar, pensei como torcedor, o que eu poderia ter como torcedor que me deixaria mais alinhado ao futebol. Me sentia muito desanimado com o futebol e pensei em desistir. Mas, ao mesmo tempo, me sentia triste por estar abandonando algo que aprendi a amar desde garoto. Comecei (a ideia de crowdmanaging) como um trabalho acadêmico, passei a ver documentários, tive a sacada, comecei a buscar isso na internet e cheguei à ideia de que a multidão devia ter o poder”, conta Israel.

No Doze, haverá três processos de participação do torcedor, chamado no projeto de sócio-diretor. Partindo do crowdsourcing, passando pelo crowdfunding até chegar, de fato, ao crowdmanaging. Ele dá sugestões, fomenta financeiramente a ideia e, em conjunto com os outros, chega a um consenso sobre qual medida tomar em diversos aspectos, como quais jogadores e técnicos contratar, qual numeração o elenco usará ou qualquer outra decisão administrativa. Israel Levi acredita que um grupo de pessoas sempre será mais esperto que o mais esperto do grupo. “Se você pegar o poder, disseminá-lo para a multidão, com informação, ela toma decisões mais assertivas que o especialista”, observa o dirigente.

Com mais de 100 pessoas atualmente na tomada de decisões, o Doze já se prepara para sua estreia no futebol profissional. Com o moderno Hotel Fazenda China Park como centro de treinamento, algumas parcerias já estabelecidas e com seu fornecedor de materiais esportivos definido, o time passa pela montagem do elenco. Em sua página no Facebook, anuncia a procura por atletas de base e profissionais. Sem revelar muitos detalhas, Israel fala em levar para o Doze “jogadores que o Espírito Santo nunca esperava ver”.

Campo de treinamento do Doze
Campo de treinamento do Doze

A filiação à Federação Capixaba, aliás, não foi um problema para o novo time. Buscando algum protagonismo, o estado vê com bons olhos a chegada de empreendimentos ousados e ambiciosos. “A Federação Capixaba está doida para afiliar clubes, está carente de futebol. Hoje são extremamente comprometidos com o futebol capixaba. O trabalho deles é excelente. Estão realmente buscando investimento, mudanças, e querem que o futebol capixaba alcance um nível que se compare com outros estados”, diz o CEO do clube, que quer fazer parte desse crescimento regional, mas servir de modelo também para mudanças no restante do futebol brasileiro.

“Não estamos aqui para concorrer, estamos para mostrar um novo modelo de gestão que fazemos questão de mostrar. Queremos ajudar os demais clubes a implementar esse conceito. Quero provar que a tese funciona e terei o maior prazer de fazer isso”, diz Israel.

O Doze planeja para o fim de janeiro os eventos de divulgação de seu elenco, dos uniformes e de todos os detalhes importantes da equipe, decididos pelos investidores, dirigentes e sócio-diretores já envolvidos na empreitada. Uma ideia corajosa, inovadora e que pode até ser impraticável em clubes do porte de Corinthians, Palmeiras, Flamengo e Grêmio, por exemplo, mas que, independentemente do sucesso ou não dos capixabas, traz um lembrete: há demanda por participação do torcedor, por menor ou menos importante que seja. As pessoas querem ser efetivamente ouvidas, e não alienadas de espaços que as representem. Ter isso em mente não é demais para clube algum, de qualquer tamanho que seja.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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