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Da lama à favela, exposição mostra a mulher jogando, torcendo e amando o futebol

(Foto: Ana Araújo/Museu do Futebol)

Os pés descalços pisando a lama somam 32. Dois para cada mulher, oito de cada lado. O horário da partida depende do movimento das águas do Rio Amazonas. O carrinho causa respingos, mas executa bem o desarme. A bola morre no peito coberto apenas por um top, com os barracos do Morro do Alemão como plano de fundo. Entre um círculo de homens vestindo a camisa do Botafogo, do Jaçanã, a dona do time masculino de várzea Eloá, com uma camisa pendurada na nuca, trata da preleção e conta com a atenção exclusiva dos seus jogadores.

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Do Amapá, onde é disputado um campeonato de futebol sobre a lama, às favelas do Rio de Janeiro, da várzea paulistana aos quilombos de Pernambuco, as lentes de 11 fotógrafas registraram essas e outras cenas com o objetivo de mostrar a relação entre as mulheres e o futebol, seja praticando o esporte mais popular do país, que ainda não as recebe de braços tão abertos quanto deveria, seja torcendo apaixonadamente pelo seu clube, de pé nas arquibancadas ou à frente da televisão. Essas fotos compõem a exposição As Donas da Bola, inaugurada na última terça-feira, no Museu do Futebol, situado debaixo do concreto do Pacaembu.

A releitura com 42 das 110 imagens da mesma mostra que ficou no Centro Cultural de São Paulo durante a Copa do Mundo é o último ato do ano em que o Museu se dedicou ao futebol feminino como nunca antes. Inaugurado em 2008, o seu acervo sobre o assunto era pequeno demais para a crescente demanda do público por mais material. Ao longo do ano, foram realizados oito debates sobre o jogo das mulheres, a história dele foi inserida na linha do tempo das exposições fixas e houve um trabalho de pesquisa que reuniu um material que, segundo o próprio Museu, trata-se do maior acervo sobre futebol feminino do Brasil em uma única instituição.

Os debates continuarão, com menos frequência, no ano que vem, e algumas inserções sobre a trajetória do esporte seguirão presentes na exposição fixa, como a época em que as mulheres eram proibidas de jogar bola no Brasil. Além disso, Marta e Formiga alinham-se com Pelé e Garrincha na seção Anjos Barrocos, que reúne os grandes heróis do futebol brasileiro. “O Museu do Futebol tinha uma lacuna em sua formação: faltava-nos conhecer a trajetória feminina no esporte mais popular do país”, admite o texto de introdução da exposição. “Encerramos o ano com chave de ouro”, continua a diretora técnica do Museu, Daniele Alfonsi. “O material é rico para desmistificar a ideia de que a mulher não joga bola no seu cotidiano”.

E ela joga. Até na lama, como testemunhou a fotógrafa Ana Carolina Fernandes. Quando juntou-se ao time das Donas da Bola, queria, a princípio, mostrar o futebol feminino nos presídios. Depois de várias negativas aos seus pedidos de autorização para visitar as detentas, lembrou-se de quando visitou o Amapá, pela Folha de S. Paulo, para cobrir uma das campanhas de José Sarney ao Senado. Da janela do seu hotel, acompanhou a movimentação das pessoas correndo atrás da bola na maré baixa do Rio Amazonas e ficou fascinada.

“Acho (a exposição) de extrema importância para dar essa visibilidade (ao futebol feminino)”, afirma à Trivela. A outra ideia de Ana Carolina era acompanhar a craque Marta, mas as agendas não bateram. E a cinco vezes melhor jogadora do mundo serviu como exemplo para a fotógrafa ilustrar o quanto é essencial dar atenção ao futebol feminino. “Sou apaixonada pela Marta e nunca consegui comprar uma camisa oficial dela em lugar nenhum. Como é que não tem?”

Bel Pedrosa teve outra ideia. Mais uma curiosidade. Queria descobrir qual a diferença entre homens e mulheres na hora de demonstrar a paixão pelo seu clube preferido, na intimidade das suas casas, com adereços, coleções, bandeiras, camisas e decorações. E qual seria essa diferença? “Não sei”, responde, dando risada.  “Acho que não tem muita diferença. A paixão é a mesma. Não quis mostrar as mulheres, apenas as coisas”.

Raíssa Costa, Jéssica Lima e Vitória Alanis tiraram os itens das suas coleções do armário e os vestiram com orgulho. Caminhavam pelas fotos da exposição com agasalhos da Dragões da Real, atendendo ao pedido do presidente da organizada do São Paulo para conferir algumas das fotos que mostram a torcida nas arquibancadas do Morumbi. “Pelo futebol ser um lugar muito masculino, (a exposição) é importante”, afirma Raíssa. “Na verdade, passou um pouco da hora de mostrar a mulher no futebol”, arremata Jéssica.

A Dragões da Real não tem um facção feminina, mas um “bonde”, como as meninas caracterizaram, de mulheres que se reúnem nas arquibancadas para torcerem juntas. Raíssa, Jéssica e Vitória não fazem isso. Preferem ficar no meio da multidão, junto com os homens. “Nos sentimos muito confortáveis. Somos uma família”, disse Vitória. Isso ficou visível quando mais colegas da organizada chegaram à exposição, e juntas, todas cantaram o hino do São Paulo e outros gritos de guerra com a mesma voz. Com a voz das mulheres, no espaço das mulheres, dentro do esporte que sempre foi considerado exclusivo dos homens.

As fotógrafas

Ana Araújo, Ana Carolina Fernandes, Bel Pedrosa, Eliária Andrade, Evelyn Ruman, Luciana Whitaker, Luludi Melo, Marcia Zoet, Marlene Bergamo, Mônica Zarattini e Nair Benedicto.

Serviço

Exposição As Donas da Bola
Local: Museu do Futebol
Período da exposição: de 2 de dezembro a 03 de abril
Entrada: R$ 6,00 inteira e R$ 3,00 meia
Endereço: Praça Charles Miller, s/n – Estádio do Pacaembu Tel.: (11) 3664-3848

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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