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Criolo sustenta a crítica social de suas músicas também quando fala de futebol

Poucos compositores contemporâneos sabem traduzir tão bem o cotidiano do Brasil quanto Criolo. As letras do músico têm um peso enorme como retrato social, representando principalmente a realidade da periferia das grandes cidades. Em seu último álbum, Convoque seu Buda (2014), o rapper mistura ritmos para falar de questões como a opressão sobre os mais pobres e o direito ao protesto. Uma visão crítica que ele também demonstra analisando o futebol em um contexto mais amplo.

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Nesta quarta, a revista francesa So Foot publicou uma entrevista com Criolo em seu site. E o paulistano, atualmente em turnê pela Europa, entra em diferentes assuntos relacionados ao esporte. Como, por exemplo, a forma como a especulação imobiliária, a expansão das grandes cidades e a importância do dinheiro têm atrapalhado as peladas de garotos nas periferias. Para o ele, as questões estão interligadas.

“É o esquema clássico: você é um garoto pobre, você não tem como se vestir adequadamente, você não tem uma ‘boa cor de pele’. E, para transformar as suas ideias, o cinema é muito caro, não resta muito além do futebol. A bola é a única maneira de se evadir do cotidiano. Mesmo se você for bom, se puder se tornar alguém. Ainda assim, isso é cada vez menos possível”, afirma o músico. “Há poucos lugares nas periferias para se treinar. A pressão imobiliária é muito forte, o crescimento das cidades afasta cada vez mais as favelas. E as crianças sofrem. Como ser descoberto por um clube se você não pode jogar? Como continuar a produzir esses jogadores técnicos se, no futuro, os únicos que chutarão uma bola serão os filhos de classe média com suas chuteiras novas? Todos os dias, o sonho se torna um pouco mais distante”.

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Criolo também apresentou ideias bastante fortes sobre a Seleção e a Copa do Mundo de 2014 no contexto político do Brasil. Para o rapper, não é possível comparar o 7 a 1 da Alemanha no Mineirão com o Maracanazo de 1950. E não foi a humilhação da equipe nacional que afeta a própria identidade da população nacional.

“Não tem nada a ver com a derrota contra o Uruguai. Não era sequer uma final, e nem mesmo uma surpresa. Todo mundo sabia que a Alemanha era imbatível. Somente as crianças sonhavam com a vitória, e os adultos não tiveram coragem de lhes desmentir. Na verdade, mesmo antes de começar, a Copa do Mundo teve um gosto amargo. Com todos os movimentos sociais, havia menos entusiasmo. Não vamos cair em depressão por um jogo de futebol, ou mesmo em humilhação. Com todas as merdas em que estamos presos no país, temos a pele grossa e sofremos autodepreciação suficiente para nos sentirmos ultrajados”, analisou.

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O músico ainda afastou as relações entre as manifestações de 2013 e a pressão sobre a Seleção no Mundial, que poderia se traduzir no choro de Thiago Silva: “Eu não estive em seu coração, mas, francamente, isso não importa. De onde veio essa pressão pela vitória, essa pressão imperativa por ganhar? De uma miragem coletiva, e não das manifestações. Como se uma vitória na Copa do Mundo pudesse mudar tudo. É uma loucura quando você pensa nisso. Colocamos sobre a Seleção uma responsabilidade social enorme, totalmente desconectada com a realidade. Se o seu país é uma bagunça, reclame isso com seu presidente, seu governador e seus deputados. O que o esporte tem a ver com isso? E, quanto à contestação social, estamos apenas no início. Nos próximos meses, isso pode realmente esquentar. Em São Paulo, os políticos foram incapazes de prever as consequências da seca por causa das mudanças climáticas. E as reservas de água secaram para 20 milhões de pessoas na região. No Rio, a mesma história. Todo mundo surta, mas eles nem se importam. O interesse público é um conceito muito vago entre nós”.

A postura crítica de Criolo sobre a Copa de 2014, aliás, vem de muito antes da realização do torneio ou da onda de manifestações. Em fevereiro de 2012, em entrevista à Revista ESPN, o paulistano apontou: “O Brasil não precisa de Copa ou Olimpíada, e sim de um prato de comida. Mas a gente ama esporte, e por esse lado seria maravilhoso receber eventos como esses, o encontro dos povos é lindo. Já o circo que se monta, isso é outra história. Deveria haver um equilíbrio. Tudo tem seu valor, mas algumas coisas são emergenciais. Se resolvêssemos nossos problemas com a mesma pressa que viabilizamos uma Copa do Mundo… Acho que o grande lance é perceber e valorizar as pessoas que buscam a comunhão entre essas questões”.

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Por fim, Criolo também falou à So Foot sobre a sua paixão pelo Corinthians. Quando tinha sete anos, o garoto do Grajaú via seu pai se entusiasmar com a Democracia Corintiana – para ele, um símbolo forte contra a ditadura. Mas o motivo de se tornar mais alvinegro vai além: “É que você nunca escolhe o Corinthians, mas ele que te escolhe. Ser corintiano não é para todo mundo. Você está destinado a fazer parte ou não. É um pouco místico (risos). É difícil de explicar o sublime, o maravilhoso. Uma relação de amor é possível, mas tal paixão é impossível. Uma comunhão como esta não existe em outros lugares. Quarenta milhões de torcedores ainda!”.

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Por mais que você não concorde com todas as ideias de Criolo, vale demais saber como pensa alguém com visão tão ampla sobre as questões sociais. O músico, hoje, representa muito como voz da periferia. E o futebol, como tantas outras coisas da vida, também está fortemente inserido nesta realidade.

Para ler a entrevista completa de Criolo à So Foot (em francês) clique aqui.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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