Copa do Brasil

O São Paulo registrou sua segunda maior goleada na história da Copa do Brasil, mas o 4 de Julho ainda assim leva boas lembranças do torneio

4 de Julho até abriu o placar no Morumbi, mas o São Paulo atropelou os piauienses com nove gols

O choro de Dudu Beberibe no Morumbi significava demais. O gol que permitiu ao 4 de Julho abrir o placar logo no primeiro minuto parecia um sonho. Depois da vitória por 3 a 2 no Albertão, uma das mais importantes do futebol piauiense na história da Copa do Brasil, o time de Piripiri parecia esboçar uma façanha. A sequência do primeiro tempo serviu para o São Paulo se acertar, buscando a virada com três tentos. Já o segundo tempo viu uma atuação de pura fúria dos tricolores: anotaram mais seis gols e fecharam a contagem em 9 a 1. Foi a segunda maior goleada do São Paulo na história da Copa do Brasil, em seu maior placar desde 2001. Mas, apesar da lavada, o 4 de Julho ainda sai com uma pontinha de orgulho. Considerando todas as diferenças a um clube com folha de pagamentos na casa dos R$140 mil mensais, os piauienses se despedem como uma das grandes histórias dessa edição do torneio – e do futebol de seu estado.

A vitória por 3 a 2 no Piauí já parecia um tanto quanto circunstancial. A arbitragem ruim contribuiu, assim como o São Paulo não fez uma boa atuação com seus reservas. Ainda assim, considerando que o elenco inteiro do 4 de Julho não ganha tanto quanto alguns dos jogadores tricolores em campo na ocasião, o feito dos colorados merecia sim ser destacado. A equipe teve uma boa exibição além dos erros de arbitragem e incomodou muito os paulistas no jogo aéreo. De qualquer maneira, parecia difícil esperar por um milagre no Morumbi, considerando a urgência dos anfitriões em busca da reviravolta.

Até pela necessidade de vitória, o São Paulo entrou em campo com os titulares. Tiago Volpi, Miranda, Luciano e outros davam muito mais peso à equipe, que ainda contava com o novato Emiliano Rigoni pelo lado direito. Mesmo assim, o 4 de Julho surpreendeu. No primeiro minuto, os colorados abriram o placar com uma bela jogada coletiva. Esquerdinha ajeitou de calcanhar, Hiltinho enfiou a bola e Dudu Beberibe escapou da marcação para definir às redes em velocidade. Um gol que representa demais a um jogador de quarta divisão, não apenas pelo sonho com o 4 de Julho na competição ou pela vitrine que o tento pode gerar. Beberibe é torcedor do São Paulo e poderá contar aos netos que balançou as redes do Morumbi.

A partir de então, o desafio do 4 de Julho seria segurar o resultado. E o time não se conteve à defesa, com algumas escapadas perigosas e mesmo alguns momentos de mais ofensividade. Mesmo assim, o São Paulo tinha controle da partida e empatou aos 17, com Luciano escorando após cobrança de escanteio. Cinco minutos depois, Luciano ajeitou para Pablo virar. E a classificação já ia ficando com os tricolores aos 31, numa cabeçada de Gabriel Sara. Se o segundo gol são-paulino tinha sido irregular, o time acabaria prejudicado com dois tentos de Pablo anulados – a falta de VAR, como na ida, teve seu peso. E a diferença de dois gols permitiu ao 4 de Julho acreditar, com Esquerdinha mandando uma cobrança de falta no travessão aos 42.

Na volta ao segundo tempo, a péssima arbitragem negou um pênalti ao 4 de Julho. Os colorados, de qualquer forma, lutavam. Pica-pau também ameaçou o segundo tento, exigindo ótima intervenção de Volpi. Todavia, não demoraria ao time piauiense desmoronar de vez. Durante o primeiro tempo, a fragilidade defensiva tinha ficado expressa na forma como o São Paulo trocava passes com facilidade. Depois disso, os visitantes passaram a entregar uma porção de lances para os tricolores emplacarem seu massacre.

Pablo marcou o quarto, aos 11, girando na área. Luciano acertou a trave, antes de Rigoni contar com um desvio para deixar sua marca aos 18. O sexto, aos 20, surgiu numa cabeçada de Bruno Alves. E o sétimo seria uma cortesia tremenda de Chico Bala, desviando de cabeça para encobrir o goleiro Jaílson. Difícil colocar a culpa no lateral, porém, considerando as repetidas falhas dos colorados. Mesmo com a entrada dos reservas, o Tricolor buscou mais. Pablo fez o oitavo, seu terceiro, aos 38 – aproveitando um rebote. Por fim, Luciano marcou seu segundo aos 45 e concluiu o chocolate são-paulino. Resultado fácil, mas com seus poréns.

Em suas 124 partidas pela Copa do Brasil, o São Paulo conquistou apenas uma vitória mais elástica: os 10 a 0 sobre o Botafogo da Paraíba em março de 2001. Na ocasião, os tricolores tinham vencido a ida por 1 a 0, mas o placar era insuficiente para a classificação antecipada permitida pelo regulamento da época em caso de diferenças iguais ou superiores a dois gols. Desta vez, os são-paulinos precisaram responder à derrota no Piauí e cumpriram sua obrigação com louvores, afastando as críticas pela atuação insuficiente na ida.

No fim das contas, os 9 a 1 do Morumbi são bem mais condizentes às diferenças entre os adversários. Até por isso, o 4 de Julho tem seus motivos para sair desta Copa do Brasil com boas lembranças. Venceu um time de Série A (algo raríssimo para os clubes piauienses na história da Copa do Brasil) e ainda assustou no Morumbi. A um time que já banca sua folha salarial de um ano com a premiação conquistada nas duas primeiras fases do torneio nacional, tomar nove na visita a São Paulo não é vergonha. Dudu Beberibe será muito mais lembrado em Piripiri, afinal. Essas histórias dizem muito mais sobre a essência da Copa do Brasil.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo