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A contusão de Mirandinha e a ascensão de Serginho

Por Alexandre Giesbrecht

Publicado originalmente em Jogos do São Paulo

tarde de 24 de novembro de 1974, um domingo, começou festiva para Mirandinha em São José do Rio Preto, cidade onde cresceu e começou sua carreira. O São Paulo enfrentaria o América local, no Estádio Mário Alves Mendonça, e o atacante até recebeu uma homenagem antes do jogo. Aos oito minutos do segundo tempo, oportunista como costumava ser, pegou o rebote de uma falta cobrada por Piau e abriu o placar. Onze minutos depois, entretanto, toda a alegria transformou-se em dor. O atacante entrou em uma dividida com o zagueiro Baldini — Mirandinha também era famoso por não tirar o pé das divididas —, para tentar arrematar contra o gol de Aulus.

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Dona Maria, mãe de Mirandinha, escutava o jogo pelo rádio, algo que não costumava mais fazer. “Não ouço mais [os jogos pelo rádio]”, explicou. “Falam tão mal do meu filho, que sofro muito. Os locutores ficam criticando, fazendo piadinhas. Então, eu só ligo o rádio para saber o resultado e se ele fez gols.” Mas, naquele domingo, ela acabou ouvindo o lance pela Rádio Gazeta, porém só ficou sabendo da gravidade quando o dirigente e ex-técnico Vicente Feola foi visitá-la à noite. “[O locutor da rádio] disse que não acreditava que fosse nada grave, então eu acreditei nele”.

Mas ele estava errado, e o filho de Dona Maria levou a pior no lance. Acertou com a canela esquerda o joelho do zagueiro e teve fratura dupla na tíbia e na fíbula. “Nem sei direito como foi a jogada”, recordaria depois. “Vi o Piau parando a bola e saindo de lado. Achei que dava para fazer o gol e tentei pegar de meia-virada. Acertei algo duro demais, ouvi o barulho e senti minha perna esquerda amolecer. Senti minha queda, forte, no chão, mas não senti dores”.

O grito no instante e o choro que se seguiu denunciavam a gravidade da situação. “Dentro do campo, foi um momento horrível”, descreveu o meia Pedro Rocha. “Alguns colocavam as mãos na cabeça, outros não queriam olhar. E ele ali, caído. Corri para o banco do São Paulo, gritando para o médico entrar correndo.” O médico Dalzell Freire Gaspar imediatamente ordenou que ninguém encostasse na perna do atacante enquanto a maca não chegava. Levado ao hospital para radiografias, nem a anestesia fazia com que parasse de se contorcer. A família do jogador teve de esconder-lhe os jornais que mostravam Gaspar juntando as duas partes em que sua perna se dividira. A foto do lance, de Domício Pinheiro, da Agência Estado, saiu na primeira página do Jornal da Tarde do dia seguinte e ficou famosa, sendo até citada em um anúncio de câmeras fotográficas, algum tempo depois.

Terto, que estava perto do lance, também contou o que viu: “Pensei que fosse ‘fita’. O Piau começou a se enervar, todos correram, e o coitado do Baldini não sabia o que fazer. Mirandinha estava caído, e a perna, virada. Uma cena horrível. O Silva começou a falar, e eu tinha que pedir para ele parar. Senti um nó na garganta e nem sabia direito o que fazer mais. Mas o jogo continuou”. Continuou, mesmo, com Serginho no lugar de Mirandinha. O centroavante reserva marcou dois gols, e a partida terminou com vitória são-paulina por 3 a 0. Só que uma vitória nada comemorada.

Baldini não deu entrevistas no campo, mas, ao visitar Mirandinha no hospital, logo após o jogo, ganhou um abraço e foi absolvido. “A culpa foi minha”, assumiu o são-paulino. “Eu queria fazer aquele gol e tentar ser o artilheiro do campeonato”. A afirmação soa estranha, pois Mirandinha estava onze gols atrás do artilheiro Geraldo, do Botafogo de Ribeirão Preto, com no máximo mais seis jogos para disputar. O zagueiro americano parecia aliviado: “Foi um acidente; juro. Não tive culpa. Ele mesmo concorda com isso. Ele foi muito inocente. Jamais poderia fazer uma jogada como aquela. Eu não esperava que ele fosse girar. A pancada foi, mesmo, muito forte”.

O diretor de Futebol José Douglas Dallora queria mandar o jogador de volta à capital no voo das 21 horas, mas Mirandinha preferia outra opção. Assim, foi alugado um Galaxie para a viagem, que teria bastante espaço para o jogador ficar o mais confortável possível durante a longa viagem, que seria direta até o Hospital Santa Catarina, onde os atletas são-paulinos eram atendidos na época. “[Ele] veio no banco de trás, cercado de almofadas”, descreveu Gaspar. “Falou que o Baldini não teve culpa, lembrou várias vezes o lance e repetiu que é moço, que tem tempo para se recuperar.”

Assim que chegou ao hospital, encontrou uma equipe de plantão para atendê-lo, mas só foi operado na manhã seguinte, durante cerca de duas horas e meia. Vários jogadores, inclusive de outros times, foram ao Santa Catarina, para acompanhar as notícias sobre a operação. O quarto 236 serviu como espécie de “concentração” para eles. Mirandinha estava, na verdade, no quarto 240, no fim do corredor, mas o paciente neste outro quarto era o volante Chicão, operado de uma úlcera duodenal na semana anterior. Ao deixar a sala de operações, passou pela mãe e brincou, com um sorriso no rosto: “Mãe, vamos jogar futebol?”

A operação foi acompanhada por Gaspar, que deu uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo para explicar como foi feita: “Mirandinha sofreu o que chamamos de fratura cominutiva, em que os ossos se partem formando dentes. Os médicos tiveram que juntar os pedaços dos ossos que se espalharam pela perna, como se fosse um quebra-cabeça, encaixar os dois ossos e reforçar as fraturas com placas e parafusos de um material especial. Hoje, não se usa mais platina”.

Inicialmente, o prognóstico era de que ele ficasse pelo menos seis meses parado, com imobilização total ao longo do primeiro mês. “Ele volta a jogar”, garantiu o médico Renan Azzi Leal, responsável pela operação, à Folha de S. Paulo. “Deve ficar noventa dias com o gesso, depois será preciso um longo e específico tratamento fisioterápico. A medicina pode fazer uma parte. Depois disso, depende do organismo, e cada pessoa reage de um modo. Ele é moço. Acredito que sua recuperação não seja demorada.”

Após a operação, a administração do hospital colocou na porta do quarto uma placa onde se lia “Não pode receber visita”, e Mirandinha, sedado ao longo da tarde, ficou apenas na companhia da namorada e de Dona Maria, a não ser pelo breve momento em que alguns fotógrafos se aproveitaram da distração do enfermeiro e invadiram o quarto, batendo algumas poucas fotos Com o filho dormindo, Dona Maria perambulava pelo corredor, conversando com jogadores e repórteres. Sobre o futuro, Dona Maria garantia: “Ele vai voltar, tenho certeza. Ele vai voltar. Eu conheço o meu filho.”

Ela também tinha uma curiosa teoria para tentar explicar a contusão do filho, envolvendo o clube anterior que ele defendia. Ela revelou o que pensava para o técnico José Poy (que, até pouco antes, ela não sabia quem era): “Olha, seu Poy, acho que tem alguma coisa prejudicando o meu filho. Eu não sei direito o que é, mas tem, mesmo. O senhor lembra aquela vez que ele cortou o lábio? Era véspera de um jogo contra o Corinthians. [Mirandinha jogou com vinte pontos na boca.] Depois disso, ele não jogou contra o Corinthians porque foi para a Seleção, porque tinha a Libertadores e, agora, porque quebrou a perna. Isso está me deixando nervosa. Acho que tem alguma coisa, mesmo, por trás disso tudo.”

No dia seguinte, Mirandinha falou à imprensa: “Estão dizendo que desmaiei depois que quebrei a perna, mas isso não é verdade. Senti tudo e não houve dor. A perna ficou dormente, e eu apenas fechei os olhos para não olhar. Vi quando o Dalzell cobriu minha perna com uma toalha, quando me carregaram de maca para o vestiário, quando me deram a injeção e quando me levaram para o hospital. Só na volta de Rio Preto é que fiquei meio zonzo e cheguei a São Paulo já sem saber direito o que estava acontecendo.” As palavras, contudo foram bastante diferentes das que proferiu, quase cochichando, ao colega de time Samuel, zagueiro que havia dois anos tinha passado por uma operação no joelho e fazia alguma ideia do que Mirandinha enfrentava. “Já não sinto dor alguma, [mas] na hora foi duro. Pensei que o estádio estava desabando sobre mim. Senti a perna dormir, ficar insensível, e depois desmaiei.”

Diante das perguntas sobre se voltaria a jogar, tinha apenas uma palavra para soar o mais enfático possível — “Vou.” —, e a justificativa era simples: “Eu preciso voltar, porque tenho só 22 anos, um contrato para cumprir, mãe e irmãos para cuidar. Não sei fazer outra coisa, ainda.” Já em relação ao prazo, ele questionava os seis meses previstos por Dalzell Gaspar: “Nada disso! No máximo em dois meses, vou voltar a jogar”. Não dá para dizer se a frase era séria, mas pouco depois ele estava definitivamente brincando: “A meia do São Paulo é branca, então basta pintar de preto esta parte aqui de cima do gesso e entrar em campo.” Pediu para descansar um pouco, e foi atendido. Nem os repórteres de televisão, que chegaram depois, puderam entrar para entrevistá-lo, para decepção de algumas crianças que queriam ganhar seu autógrafo. A única exceção foi o cardeal são-paulino Porfírio da Paz, que abriu caminho com sua impavidez habitual: “Eu sou o general José Porfírio da Paz!”

Enquanto Mirandinha descansava, no Morumbi os seus colegas lamentavam sua ausência. “Todo o time sentiu”, revelou Pedro Rocha. “Não houve quem não ficasse traumatizado, e uma prova disso é que ninguém festejou a vitória diante do América. Mas isso passa. Hoje, a turma fez um treino bom para espairecer”. Já o técnico José Poy não podia se dar ao luxo de lamentar, pois tinha de planejar como o time ficaria sem o jogador que mais marcou gols no Morumbi em 1973 e 1974. Ele tinha três candidatos para a vaga: Terto (que jogaria deslocado da ponta direita), Picolé e Serginho.

Oriundo dos juvenis, Serginho tivera algumas chances no Campeonato Brasileiro, disputado no primeiro semestre, e não decepcionou, marcando nove gols em onze partidas. Mas uma contusão sofrida na partida contra o CEUB afastou-o dos gramados por dois meses, com a fíbula quebrada — uma fratura muito mais simples que a de Mirandinha. Voltou, já no Campeonato Paulista, mas teve nova contusão, ficou mais quase dois meses parado e depois enfrentou uma seca de gols que só terminou justamente na partida de Rio Preto, após substituir Mirandinha. “Fui para a área, briguei e marquei os outros dois gols”, lembrava. “Isso não é um bom sinal?”

Apesar da situação, ele queria aproveitar a chance para se firmar no ataque: “Agora chegou a minha chance. É uma pena que tenha sido deste modo, mas eu preciso aproveitar. Meu contrato termina em dezembro, e eu ganho muito pouco. Mas vou aproveitá-la, porque sei que ele vai estar torcendo por mim. Quando ele voltar, a gente resolve a parada de outra maneira, na amizade”. Originalmente um ponta-esquerda, tinha sido deslocado para a posição de centroavante, por não ser um jogador veloz. “Meu físico me ajuda a jogar dentro da área, pois fico mais à vista por causa da altura. Para se fazer gols, a gente tem que estar sempre ali perto, na área, até que apareça a oportunidade. A bola vai e vem, e uma hora tem que sobrar para a gente”.

Era justamente essa característica que Poy pretendia aproveitar quando decretou que Serginho seria o substituto de Mirandinha, ao menos provisoriamente: “Assim, de princípio, ele é a melhor solução que tenho. É mais lento que o Miranda, mas é também mais alto, sendo mais bem encontrado pelos pontas. Não deve voltar muito, precisa ficar mais na zona da área e, para usá-lo bem, só terei que adiantar um pouco mais meu meio-campo.” O atacante, por sua vez, mostrava-se confiante: “Espero que me passem bolas curtas, e não na corrida. Bola no pé e não na frente. Façam isso e deixem o resto com o Serginho aqui”.

Serginho começou a fazer exatamente isso já na quarta-feira, em um amistoso contra o União Mogi, de Mogi das Cruzes. Com os dois gols marcados na goleada por 5 a 1, ratificou a decisão de Poy de escalá-lo no clássico contra o Corinthians. O São Paulo precisava da vitória, para manter-se na caça ao Palmeiras pelo título do segundo turno do Campeonato Paulista, e a consequente vaga na decisão, contra o próprio Corinthians, que havia ganhado o primeiro turno.

O resultado de 3 a 0 teve muito a ver com o desinteresse corintiano pela partida, por já estar garantido na decisão e não ter mais chances de conquistar o segundo turno. Mas a atuação de Serginho também foi decisiva, como explicava Poy depois do jogo: “O São Paulo jogou solto e descontraído. Achei que o resultado foi normal, mesmo sabendo que 3 a 0 não é comum num clássico. Poderíamos até ter feito mais, porque o Corinthians só soube se defender. O Serginho esteve muito bem, tanto que ganhou todos os prêmios oferecidos pelas emissoras de rádio, mas o time todo me agradou.”

Serginho teve de chutar duas vezes para marcar o segundo gol, mas também foi o responsável pelo primeiro. Dentro da pequena área, ele chutou sem direção, mas contou com o desvio providencial do zagueiro corintiano Baldochi para dentro do gol. “O Serginho chutou com efeito, eu vi o [goleiro] Buticce atrás dele e tive a nítida impressão de que ele iria fazer a defesa”, explicou Baldochi. “O lance deu certo para eles. Eu tentei tirar o pé, mas acabei desviando a bola e marcando o gol”. Na cobertura que a Folha de S. Paulo fez do jogo, o atacante foi comparado a Dario, o “Dadá Maravilha”: “Serginho, um artilheiro imaturo, não é Pelé nem Mirandinha, mas um provável Dario, [pois] os dois são desengonçados e costumam cair sempre para a ponta esquerda.”

Mirandinha acompanhou a partida pelo rádio, do quarto 240 do Hospital Santa Catarina, onde só contava com um ventilador para combater o calor. Ele disse ter ficado satisfeito com o gol marcado por seu substituto: “Em futebol, isso é muito importante. O cara pode jogar bem, mas, se não fizer gol, todo mundo vem e pergunta: ‘O que está acontecendo?’”

O resultado serviu para melhorar um pouco o ambiente entre os atletas após o afastamento de seu artilheiro. “Todos entenderam que isso faz parte da profissão”, filosofou Poy. O resultado seguinte, vitória sobre o Botafogo pelo placar mínimo, no Pacaembu, teve mais uma vez a assinatura de Serginho, que marcou o único gol, após um belo lançamento de Pedro Rocha, que o deixou cara a cara com o goleiro Jorge. O atacante ainda perdeu quatro outras chances, mostrando que tinha potencial para ser o novo matador do time. “Estamos satisfeitíssimos com o Serginho”, comemorava Poy. “Não me importo quando ele desperdiça algumas oportunidades, afinal, ele está começando a carreira.”

O São Paulo não alcançou o Palmeiras no segundo turno e, assim, não disputou as finais do Paulista. Nos últimos três jogos, Serginho marcou um gol. Mesmo assim, para a temporada de 1975, o São Paulo contratou por empréstimo o centroavante Liminha, do Atlético Paranaense, considerado um “clone” de Mirandinha. Nos amistosos da pré-temporada, o ataque como um todo foi mal, e Poy optou por testar várias opções: “Eu preciso tentar armar um ataque agressivo e, por isso, não me incomodo em fazer modificações. O que não posso é forçar a escalação de jogadores que estão jogando mal.” Serginho começou o Paulistão de 1975 na reserva de Liminha. Nos dois primeiros jogos, entrou no lugar de Muricy no segundo tempo e marcou gol em ambos. Como Liminha foi expulso, Serginho ganhou a vaga de titular para a terceira partida, e os dois gols que marcou logo no primeiro tempo serviram como credencial para mantê-lo entre os onze.

O futebol apresentado pelo São Paulo nesse início de campeonato foi animador e, ao menos na opinião de Pedro Rocha, tentava emular o “Carrossel Holandês”, que encantara na Copa do Mundo do ano anterior: “Assimilar o futebol da Holanda. Ninguém guarda posição, todos se deslocam do meio-campo para frente e, quando a bola é nossa, atacamos em bloco, inclusive com [os laterais] Nélson e Gilberto. Quando somos atacados, fazemos justamente o contrário”. Esse estilo era perfeito para o futebol de Serginho, embora Poy estivesse cogitando passa-lo para a ponta-esquerda no jogo seguinte, com a volta de Liminha da suspensão automática. Quis o destino que essa mudança não se realizasse, porque Liminha fraturou a perna em um treino, ao pisar na bola e cair.

Garantido como centroavante, marcou sete gols nos primeiros oito jogos e dividia a artilharia do campeonato com Itamar, do Marília. Uma pancada do zagueiro Fernando, do XV de Piracicaba, provocou um derrame no tornozelo esquerdo de Serginho. Inicialmente diagnosticado como pouco grave, acabou deixando-o no estaleiro por três semanas. Como Liminha também não estava disponível, a Folha de S. Paulo lembrou-se de Mirandinha. “[Ele] continua fazendo exercícios fisioterápicos e precisará de mais uns vinte dias para iniciar os treinos.” Como escreveu José Maria de Aquino na revista Placar, “ninguém testemunha seu esforço, sua guerra íntima, sua vontade de voltar o mais depressa possível, antes que seu nome seja apenas uma lenda entre tantas outras que fazem a história do futebol”.

Seu tratamento seguia sendo feito na garagem de sua casa, e a maior preocupação era o ganho de peso. Ele continuava com a perna esquerda totalmente engessada, mas não imaginava ficar muito mais tempo de fora: “Eu vou voltar logo. Ainda quero jogar no segundo turno deste Campeonato Paulista e, quando entrar outra vez no time, vou fazer como fiz até quebrar a perna. Vou entrar em todas, correr e continuar jogando, mesmo que a perna esteja doendo ou que o dedo esteja quebrado.” Para tentar reforçar esse ponto, ele citou o lance de sua contusão: “Sabe por que foi que eu deixei o campo naquele jogo? Foi porque desmaiei de dor e porque não dava, mesmo, para amarrar tudo, juntando os pedacinhos.”

A previsão de volta no segundo turno não era tão infundada. Ela era compartilhada por Poy e por outros jogadores. O próprio Serginho dava como iminente o retorno do colega: “Até agora, não liguei para [a disputa por posição]. Sabia que era o titular para o primeiro turno, mas o Mirandinha, na certa, estará em condições de jogar no segundo turno. Se não conseguir ficar como centroavante, posso voltar para a ponta esquerda.” Sem o gesso desde abril, mas ainda com seis parafusos no local da fratura, começou a treinar com os companheiros no mês seguinte, embora ainda de maneira diferenciada. Era visível que ele mancava com a perna esquerda.

Não deu tempo de voltar para o Campeonato Paulista. O São Paulo ficou com o título e Serginho, com a artilharia, depois de marcar 22 gols. Por fazer parte do elenco, Mirandinha seria homenageado junto com o time, em jantar comemorativo oferecido pela diretoria, mas o atacante não se considerava um dos campeões e não foi receber a homenagem. Ele acreditava que voltaria no Brasileiro. “A fratura está bem consolidada e só estamos esperando a musculatura de sua coxa desenvolver-se um pouco mais, para fazer a pequena cirurgia que vai retirar os parafusos”, explicava o médico Dalzell Gaspar. Mirandinha não podia esperar pela hora de voltar à rotina de treinos normais. “Tenho saudades da bola”, avisava, em julho. “Pode ver que não perco uma chance de dar uns chutes no gol. E não é só com a direita, não, tenho chutado com a esquerda também”.

Naquele mesmo mês, os pinos foram retirados de sua perna. Essa boa notícia gerou alguns boatos de que ele não mais poderia voltar a jogar, e isso indignou o atleta: “Não sei de quem partiu essa afirmação maldosa. Eu estou bom. Fui operado novamente apenas para retirar a proteção usada no tratamento da fratura”. No início de setembro, o departamento médico entregou-lhe uma autorização, que o jogador comemorou como se fosse um diploma: “O atleta Sebastião Miranda da Silva Filho está liberado, a partir desta data, para os treinos com bola.” Com a autorização na mão, foi comemorar com a família. “Zirda, suas rezas deram certo”, disse para a mãe, tratando-a por um apelido carinhoso. “Eu já posso treinar com bola. E, se posso treinar, posso jogar. Para mim, é tudo a mesma coisa.” Só para ele, pois os médicos proibiram-no de seguir com o time misto para Campos Gerais, a fim de disputar um amistoso.

Ninguém dava uma projeção de quando ele estaria disponível para jogar de verdade — sempre que questionado, Dalzell Gaspar falava em “duas semanas” ou “vinte dias” —, mas os jogadores acreditavam que sua volta estava próxima, tanto é que Serginho praticamente ofereceu a vaga: “Ele é o titular; eu sei disso. Enquanto ele não estiver 100% recuperado, não correrei riscos, mas acho que tenho uma grande vantagem. Posso perder o lugar de centroavante, mas jogo também na ponta esquerda”.

Treinando com vontade, mas ainda mancando um pouco, cobrava sempre do técnico Poy sua volta ao time. Como teste, foi escalado para um jogo-treino em Guaratinguetá, naquele mês, disputado por um time misto. “Correu, chutou, travou bolas, caiu sobre a perna, pediu aos zagueiros para que o marcassem duro, mas para que o deixassem jogar, descolando das suas costas, fez quase tudo como fazia antes da contusão e só pediu para sair depois de 75 minutos”, escreveu José Maria de Aquino em Placar. Quando voltou a São Paulo, pediu para ficar no banco de reservas no jogo seguinte do time principal, mas ganhou foi uma bronca: “Você não vai ficar em lugar algum. Você tinha ordem para jogar um pouquinho, de leve, para ir se acostumando, mas não fez nada disso. Os médicos estão loucos da vida, e você vai ter que esperar por outra oportunidade. Não adianta precipitar as coisas”.

Em outubro, nasceu seu filho, Richard. “Com ele, minha responsabilidade aumentou”, disse Mirandinha. “Agora, preciso voltar rápido ao time.” Ele não sabia, mas sua volta ainda demoraria muito tempo. No mês seguinte, os médicos decidiram que ele precisaria operar novamente a perna, algo denunciado por uma saliência de três centímetros de espessura, posicionada próximo ao local da fratura. O atacante dizia que não era nada grave: “Não dói nada, aqui está tudo duro. Pode experimentar. Bate aqui”.

O doutor Dalzell discordava: “Não ocorreu a calcificação dos ossos de maneira correta. Ainda existem fragmentos que não se incorporaram ao calo ósseo. Ele voltou a fazer coletivos, mas teve que parar, porque sentiu dores.” Foi o segundo caso de nova cirurgia necessária no São Paulo em pouco tempo. O primeiro havia sido o lateral-esquerdo Osmar, que sofrera fratura em 1973 e, ao precipitar sua volta, foi obrigado a passar por uma segunda cirurgia. O médico tentou explicar a diferença entre os dois casos: “Trata-se de uma contusão bem mais grave que aquela sofrida pelo Osmar. Ele ficará bom e poderá dar sequência a sua carreira. Tudo foi feito com muito cuidado, desde o dia da fratura. O fato de ter sido operado uma segunda vez se deve à gravidade da situação”.

“Se for necessário, farei quantas operações quiserem”, garantia Mirandinha, ao saber da novidade. O atacante ainda recebia os salários do São Paulo — teria, inclusive, seu contrato, que vencia em dezembro de 1975, renovado —, e isso chegava quase a incomodá-lo: “Eu tenho que dar graças a Deus por ter-me machucado quando jogava no São Paulo. O São Paulo tem feito tanto por mim, que tenho vontade de entrar em campo, jogar, fazer muitos gols e pagar um pouco pelo que estão me fazendo”. Operado em 2 de dezembro, os médicos novamente garantiram que tudo tinha corrido bem. Novamente acompanhado da esposa e da mãe, Mirandinha parecia lamentar mais o fato de que só tinha saído com sua mãe no jornal em momentos tristes. “Minha mãe sempre quis sair no jornal ao meu lado, mas isso só acontece em momento ruim, como este agora”, explicou. “Mas ela pode esperar. Em 1978, quando eu voltar da Argentina [onde seria realizada a Copa do Mundo], campeão do mundo, nós vamos sair abraçados em todos os jornais.”

Enquanto não tirava o gesso, resolveu aceitar o convite de um amigo para trabalhar como relações públicas de uma imobiliária, assim poderia preencher seu tempo. “Ao menos, não fico sem nada para fazer”, resignava-se. “O difícil, mesmo, é a espera, e, sem fazer nada, o tempo parece demorar mais a passar.” O gesso só foi retirado no início de maio, cinco meses após a cirurgia. Era apenas o primeiro passo, pois Mirandinha ainda precisaria do auxílio de muletas por algumas semanas. Desta vez, o progresso era muito mais lento. Ao longo de 1976, o atleta não chegou nem perto de poder voltar aos treinamentos, mesmo com carga mais leve. No fim do ano, o São Paulo renovou mais uma vez o contrato do jogador.

No início de 1977, entretanto, uma junta médica contratada pelo clube decretou o fim da carreira de Mirandinha, após realizar vários exames. Ele não gostou da decisão e pediu autorização para consultar médicos de sua confiança. “Antes de resolver parar de vez, quero pelo menos tentar uma volta”, objetou. “Não sinto nada na perna. Quero treinar normalmente, participar dos coletivos, ver mesmo o que dá. Eu ainda acho que tenho condições de voltar a jogar futebol”.

O médico escolhido por ele agendou para fevereiro uma terceira operação. A intenção era fazer um enxerto ósseo maior do que o feito na operação de dezembro de 1975. “Agora me cortaram atrás, em dois lugares”, descreveu Mirandinha. “Tiraram mais alguns pedacinhos de osso, aqui na bacia, e fizeram novo enxerto”. E concluiu, demonstrando alguma confiança: “Está certo que eu ando meio acostumado com essa história de põe-e-tira o gesso, de entra-e-sai de hospital, mas agora estou sentindo que a perna vai bem e que eu volto, mesmo.[Há] gente que não acredita que eu vou pisar novamente no gramado do Morumbi, com a camisa de titular, mas eu vou!”

O dia 25 de maio de 1977, uma quarta-feira, ficará para sempre marcado na vida de Mirandinha. Foi quando ele finalmente tirou o gesso da perna esquerda. Ou melhor, quando ele finalmente tirou pela última vez o gesso da perna esquerda, pois isso já tinha acontecido algumas vezes antes, sempre para ter de voltar a colocá-lo. A narrativa que o repórter Michel Laurence fez da sessão na edição do dia 26 de O Estado de S. Paulo, é tocante.

Ontem, aconteceu um milagre no Sanatório São Lucas: um rapaz de 25 anos, que estava morto [havia] dois anos e meio, ressuscitou. Levantou-se de uma maca onde estava deitado e, estranhamente, saiu mancando de uma perna, cantando alto e gritando para o povo emocionado, que “não estava louco, apenas feliz”, apesar dos olhos cheios de lágrimas. Entrou num carro e sumiu pelas ruas da Liberdade.

(…) Tudo recomeçou para Mirandinha a partir do momento em que um médico entrou na sala onde estava deitado, a calça da perna arregaçada, deixando à mostra uma cicatriz ainda recente, e com um gesto positivo do polegar, lhe disse: “Levanta daí e anda!”

As lágrimas começaram a correr pelo rosto de Mirandinha, que ainda tentou protestar: “Andar, não, não é, doutor? Pular!” O médico, emocionado, respondeu: “Não estou dizendo que está tudo bem. É para você andar”.

Mirandinha desceu da maca, meio inseguro, tentando esconder as lágrimas com as duas mãos e, depois de muito tempo, teve a sensação de pisar em terra firme, sentir o solo debaixo de sua sola do pé, sem ter uma bota de gesso entre os dois.

“Não estou sentindo nada! Estou bom, estou curado! Dois anos e meio depois, estou curado! Não acredito!”

No dia seguinte, já estava de volta ao Morumbi, tentando disfarçar o passo ainda manco, para dar início à primeira sessão de fisioterapia sem o gesso da terceira operação. “Nunca desanimei”, garantia. “Vou treinar com bola bem antes do que muita gente pensa. E depois jogar, com a mesma confiança de antes”. Em agosto, já treinava com bola, chutando com as duas pernas nos coletivos de dois toques do time.

Mirandinha começava a treinar forte e vislumbrava sua volta ao futebol, que poucos meses antes soava como improvável. “Tenho fome de bola”, garantiu. “Com a vontade que estou, ninguém vai me segurar. Sábado, em Lins, começará tudo de novo para mim. O passado é passado.” Sua volta aos gramados deu-se num jogo-treino em que os reservas enfrentaram o Linense, em Lins, no dia 8 de setembro. Ele foi aplaudido de pé pela torcida antes do jogo e marcou o único gol da vitória tricolor, mas ainda teria de esperar mais algumas semanas até voltar a disputar uma partida oficial. Enquanto isso, seguia participando de jogos-treino pelo interior paulista, de Jundiaí a São João da Boa Vista.

Em São Sebastião da Grama, ele marcou três gols contra a Associação Atlética Gramense, e essa atuação fez com que fosse cogitada sua volta ao time principal contra o Santa Cruz, no lugar de Serginho, que tinha sido expulso contra o Palmeiras e precisaria cumprir suspensão. “Tenho me saído bem jogando na equipe mista, o suficiente para estar tranquilo e torcendo para entrar em campo já no domingo”, avaliou o atacante. Mas às vésperas do jogo Minelli decidiu que ainda lhe faltava ritmo. “Ele parou muito tempo e é natural que tenha dificuldades em dominar a bola, o que será readquirido jogando, mas não em compromissos importantes, como o de domingo, contra o Santa Cruz”, explicou o técnico, frustrando o atacante, que, em vez de pegar o Santa no domingo enfrentaria o Pinhalense na terça-feira, com o time misto, em Espírito Santo do Pinhal. O São Paulo ganhou por 1 a 0, mas jogou mal e aos 25 minutos de jogo a torcida já pedia Mirandinha, mesmo sem o atacante estar no banco.

Na estreia tricolor na segunda fase do Brasileiro, contra o Corinthians, em 4 de dezembro, mais uma vez a volta de Mirandinha foi cogitada, assim como a do ponta Zé Sérgio, que não atuava desde o início da fase anterior. Com ambos sem ritmo de jogo, especulava-se que apenas Zé Sérgio poderia começar jogando, enquanto Mirandinha seria uma opção para o segundo tempo, mas nenhum dos dois apareceu na escalação no domingo. O clássico foi desastroso do início ao fim. Logo aos cinco minutos, o Corinthians abriu o placar e, pouco mais de vinte minutos depois, Estevam foi expulso por entrada forte em Palhinha. Com a expulsão, o plano de usar Mirandinha foi pelos ares (Zé Sérgio ainda entrou no segundo tempo).

A volta do atacante acabou ficando para o jogo seguinte, contra o Brasília, no Pacaembu, no dia 7. Ele retornou ao futebol no segundo tempo, exatos 1.108 dias após sua contusão. A facilidade proporcionada pela goleada por 5 a 0 permitiu que os holofotes fossem todos apontados para Mirandinha. O atacante estava tão eufórico com a boa atuação — só não foi premiado com um gol porque o goleiro Déo fez uma grande defesa, para desespero dos reservas no banco do São Paulo — que foi o último a deixar o campo ao final da partida. “Nem tive tempo para ficar nervoso”, contou. “O Minelli chamou-me num canto e disse: ‘Entra no lugar do Serginho. Seja feliz.’” Os companheiros pareciam tão felizes quanto Mirandinha. “Cheguei a ficar arrepiado”, confessou Chicão. “O time todo procurou jogar para ele. Queríamos que ele fizesse o gol e, com isso, o jogo ficou ótimo, apesar do gramado ruim [devido às chuvas].”

Mirandinha também entrou no segundo tempo da partida contra o Internacional, em Porto Alegre, mas, depois, teve de esperar mais de um mês para voltar a campo novamente. Nada a ver com a contusão, mas, sim, com as férias, que interromperam o Campeonato Brasileiro por quarenta dias. Ele entrou no segundo tempo dos três primeiros jogos da terceira fase e foi titular no quarto deles, contra o Sport, no Morumbi, graças à expulsão de Serginho contra o Botafogo de Ribeirão Preto, por chutar o bandeirinha Vandevaldo Rangel. “O futebol é engraçado”, comentou Mirandinha. “Ele entrou no meu lugar quando eu estava na melhor fase da minha vida. E agora eu entro no lugar dele exatamente na mesma situação.”

Em seu primeiro jogo como titular desde o fatídico 24 de novembro de 1974, Mirandinha viu o São Paulo começar mal, com dois gols do Sport antes dos trinta minutos. Felizmente, o time empatou ainda no primeiro tempo e Zé Sérgio virou no início do segundo. Quatro minutos depois, Mirandinha deixou o seu, 1.179 dias após comemorar seu gol anterior. Ele parecia nem saber como se sentir: “Quem passou por uma tristeza tão grande não tem mais lágrimas para chorar”.

Com a perspectiva de Serginho pegar uma longa suspensão quando fosse julgado pela expulsão em Ribeirão Preto, ele foi deslocado para a ponta-esquerda contra o Grêmio (no lugar de Zequinha, que não podia enfrentar o clube que o emprestou ao São Paulo), com Mirandinha sendo mantido como centroavante. Os dois marcaram, na vitória por 3 a 1 que garantiu o São Paulo nas semifinais. Em seu gol, Mirandinha avançou para a área incentivado pelos berros de Minelli, que pedia para ele seguir com a bola, em vez de tentar o passe.

Mirandinha foi mantido no time para o primeiro jogo contra o Operário de Campo Grande, no lugar de Zequinha. Para Minelli, como ídolo, o centroavante poderia encarar melhor uma eventual pressão negativa da torcida em caso de um mau início. Com três gols de Serginho, o São Paulo venceu por 3 a 0 e garantiu uma larga vantagem para o jogo de volta, mas perdeu seu artilheiro, suspenso por nada menos catorze meses, em audiência realizada três dias depois. “Acho que eles foram rigorosos comigo”, lamentou. “São coisas da vida. Vários jogadores passaram por momentos mais difíceis. Só consigo me conformar quando me lembro do caso do Mirandinha, que ficou afastado por três anos por um problema físico”.

Animado por voltar a ser o centroavante titular do São Paulo, ele dizia estar quase voltando à forma ideal: “Acho que já estou com a mesma velocidade que tinha há três anos e, aos poucos, não sentirei diferença alguma.” O São Paulo perdeu por 1 a 0 no Mato Grosso e classificou-se para decidir o título contra o Atlético Mineiro, mas Mirandinha novamente não se destacou. O São Paulo foi campeão brasileiro no domingo seguinte, ao derrotar o Atlético Mineiro nos pênaltis em pleno Mineirão, com uma atuação razoável de Mirandinha, que, mesmo bem marcado, perdeu uma boa chance no segundo tempo, após cruzamento de Zé Sérgio, e não fugiu das divididas que caracterizaram a atuação do Tricolor naquela tarde.

Ao contrário de Serginho, que aproveitara a ausência do concorrente em 1974 e estabeleceu-se como centroavante titular do São Paulo, Mirandinha claramente não era mais o mesmo. Marcou mais cinco gols no Campeonato Paulista e na Libertadores, mas perdeu a posição para o jovem atacante Milton Cruz. Deixou o São Paulo em 1979, para defender clubes nos Estados Unidos e no México. Voltou ao Brasil em 1981 e rodou por vários times menores. Passou por Atlético Goianiense (1981), Taubaté (1982), ABC (1983), Guará (1983), Douradense (1983), União Mogi (1984), Saad (1984) e Independente de Limeira (1984), até encerrar a carreira em 1985, defendendo o Ginásio Pinhalense.

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