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Como as óperas do século 19 explicam a torcida do Palmeiras

As antigas salas de ópera eram um grande jogo do Palmeiras. A plateia era uma torcida barulhenta, que cantava e vibrava – como diria, anos mais tarde, o hino do Palmeiras. Apenas uma baita apresentação era capaz de deixar a plateia em silêncio por alguns instantes – até que ela explodisse em aplausos emocionados a uma apresentação memorável. Isso só começou a mudar com Gustav Mahler, um dos maiores compositores de música da história. Quando ele assumiu a direção da Ópera da Corte de Viena, no final do século 19, as salas se tornaram ambientes mais sóbrios, contidos – mais ou menos como são hoje. Mahler deu uma espécie de “choque de ordem” nelas e implantou um padrão Fifa musical. Só que, ai, o estrago já estava feito na alma italiana.

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A Itália, país de origem dos fundadores do Palmeiras, é um dos berços da ópera. Você pode não gostar de ópera, de música clássica ou da Itália, mas saiba que, no século 19, ela era uma diversão gigantesca (embora a Itália, naquela época, já fosse um país bastante confuso). A ópera misturava entretenimento e cultura de uma forma primorosa. As salas viviam lotadas e vários compositores eram astros, ídolos, especialmente na Alemanha e Itália, com óperas que tinha muito, muito, muito drama. Se você já viu uma apresentação de uma obra do Wagner ou de Puccini, com o coração aberto, sabe bem do que estou falando. Se você é torcedor do Palmeiras, sabe ainda mais.

Com um olho na sala de ópera e outro nas arquibancadas do antigo Palestra Itália, não tem jeito. O diagnóstico é claro: a torcida do Palmeiras superou a Itália e o século 19, mas os apaixonados pelo time ainda guardam no peito algumas dores fossilizadas das plateias de ópera anteriores a Mahler. A torcida de brasileiros de todos os cantos vive intensamente o drama, no limite cardíaco. No final, acaba se transformando em parte do espetáculo: apoia, vaia, se desespera, como se a vida, ela inteira, dependesse do resultado e da qualidade do jogo. No limite, os palmeirenses poderiam cantar: “Puta que pariu/É a torcida/mais wagneriana (pucciniana) do Brasil”.

Até um dos melhores sambas sobre o Palmeiras é carregado deste sentimento operístico – porque, como diz o hino do Palestra, “que sabe/ser brasileiro/ostentando a sua fibra”. O maravilhoso “Seu Ferrera e o Parmera” é um samba-ópera que começa na zona leste de São Paulo, avança para a zona oeste e, se me permite o dramalhão, avança para a eternidade. Talvez seja a música em português que melhor resume a alma dos torcedores palestrinos. Porque o Palmeiras, no final das contas, não é apenas um time. Seus torcedores transformam qualquer jogo numa discussão sobre o sentido da vida – como mostram os vídeos que escolhi para acompanhar este texto.

O Palmeiras é uma performance

Existe uma discussão muito interessante na linguística sobre se a língua influencia o jeito que pensamos. Já é razoavelmente aceito que as línguas não são seres independentes, com uma estrutura fixa. Muita gente conhece a história dos esquimós, que têm mais de 30 palavras para a cor branca (faz sentido, uma vez que tudo ao redor deles é branco), e dos nativos das Filipinas, que têm três palavras para nós: uma para eu e você, outra para eu e outra pessoa, que não é você, e uma para eu e um grupo de pessoas.

Porém, é bizarramente controversa a afirmação de que há muitos filósofos alemães porque só em alemão é possível exprimir conceitos muito complexos, ou que o inglês é a língua dos empresários porque ela exige que você seja claro e objetivo, sem firulas. Aliás, há um livro excelente sobre o assunto (infelizmente, ainda sem tradução para o português): “Through the Language Glass: Why the World Looks Different in Other Languages” (Através do Vidro da Língua: Por que o mundo parece diferente em outras línguas).

Não sou linguista, mas tendo a achar que a língua é, de fato, uma carta de compromissos com um jeito de ver o mundo: a gente pode expandi-la, aceitá-la, romper com ela, mas não consegue escapar dela. A língua serve de ponto de partida para todas as pessoas que a falam e influencia profundamente quem a fala.

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Vamos aos exemplos, trazendo a discussão para o mundo das coisas que realmente interessam: futebol. E, nesta semana, para o Palmeiras. O time pelo qual você torce influencia profundamente quem você é ou quem você é influencia profundamente o time pelo qual você torce? Eu tendo a achar que as duas coisas correm juntas, acontecem ao mesmo tempo. Mas, sinceramente, tendo a achar que o time pelo qual eu torço exerce uma influencia maior em mim do que o contrário.

Como a língua, você pode expandir os motivos pelos quais torce, aceitar, romper, mas não consegue escapar de uma série de características que te fazem se portar no mundo (pelo menos para as pessoas que realmente se envolvem com futebol). Quer um exemplo simples, evidente? O hino do seu time. Ele é uma carta de princípios e um resumo do torcedor. No caso do Palmeiras, está tudo lá: o Palestra é uma performance. O Palmeiras tem tantos sucessos e fracassos quanto qualquer outro clube. Mas os torcedores do Palestra têm a incrível capacidade de transformar cada um deles em um épico ou em uma tragédia grega. Uma ópera do século 19, digamos assim.

O hino

Nenhum outro clube fala de time que entra imponente no gramado – especialmente no começo do hino. Descreve um time, mas poderia ser um tenor: “Quando surge o Alviverde imponente”. Nenhum hino encara o futebol como algo tão teatral quanto o hino do Palmeiras: a canção não diz que o Palmeiras é o maior campeão de todos os tempos, não diz que tem trocentas mil tradições. Não. Porque, para o Palmeiras, o título é importante, ter torcida é legal, mas estes são apenas um dos tantos aspectos que fazem com que seus torcedores se apaixonem pelo clube.

Conheço muitos palmeirenses que torcem o nariz para a Libertadores de 1999 porque o título foi vencido nos pênaltis – não teria sido bonito o suficiente. Mas, para outros, foi espetacular justamente porque foi DRAMATICAMENTE vencido nos pênaltis. De qualquer forma, esses dois grupos trocam a Libertadores pelo Paulista de 1993, quando o Palmeiras venceu o Corinthians na final e encerrou uma fila de 17 anos. Aquela final teve tudo: a dor (a derrota no primeiro jogo, com direito à famosa imitação de porco de Viola), o drama (a prorrogação no segundo jogo) e a redenção catártica (a goleada por 4 a 0 e o fim da fila). Não basta vencer. Tem um jeito palmeirense de vencer.

Tem mais. O hino do Palmeiras fala de uma partida específica, da “dureza do prélio não tarda” porque o “Palmeiras no ardor da partida / transformando a lealdade em padrão/ sabe sempre levar de vencido e provar / que de fato é campeão”. O hino não é um samba-exaltação do clube, mas a celebração de um jeito próprio de jogar futebol – é como se o Palmeiras se colocasse além futebol, como se o futebol fosse apenas um pretexto para a existência do Palmeiras. Afinal, é o clube que se denomina “Academia de Futebol”, uma escola que define e implanta uma ideia de jogo, uma forma de se expressar por meio da bola. Há uma certa arrogância ai, é claro. Mas, ali, no silêncio da arquibancada, a torcida vive o Palmeiras muito além campo.

No final das contas, para os palmeirenses mais fervorosos, o ato de jogar futebol de um jeito palestrino é tão importante quanto a posição no campeonato. É como se o Palmeiras do século 20 fosse a encarnação de um jeito de jogar bola e também de uma forma de se portar diante do futebol e da vida. Os times de Felipão e, posteriormente, os rebaixamentos enfraqueceram essa ideia – mas ela continua forte. Ainda há um jeito palmeirense de vencer, embora vencer esteja cada vez mais difícil, que aparece nos passes de Ademir da Guia, nos gols de Evair, nos dribles de Edmundo, na vibração de Felipão. Os palmeirenses não sabem muito bem descrever o que é o jeito palmeirense de jogar, mas sabem reconhecer – e gritar “Festa no Chiqueiro!”- quando estão diante de um desses momentos.

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Isso tem consequências muito claras. Ao contrário de outros times, apesar da má fase recente e a despeito da impossibilidade lógica, os palmeirenses sempre querem uma performance, uma atuação dramática inesquecível – contra o XV de Piracicaba, o Comercial do Piauí ou o Manchester United. É um caso raro de falta de critério – mas quem disse que a palestrinidade tem critério? Até Galeano já virou personagem dramática.

Porque, quando o time entra em uma arena, há uma claque excitada aguardando tanto a redenção quanto uma atuação inesquecível de um jogador. Os palmeirenses só querem um atleta para admirar e amar, seja um Pirata, um Mago ou um Gladiador. Como os espectadores da ópera de Viena, os palmeirenses esperam de cada jogo uma experiência transformadora, conduzida por personagens memoráveis.  Duvida? Até o nome dos ídolos verdes têm algo de teatral: o Divino, o Animal, o Matador, o Santo, o Maluco. Os palmeirenses gostam de pessoas que são mais do que jogadores – gostam daquelas personas de teatro. Até poema o Ademir da Guia virou, eternizado por um dos maiores poetas brasileiros, o pernambucano João Cabral de Melo Neto. Um jogador que vira poema é basicamente o supra-sumo da palestrinidade.

Ademir impõe com seu jogo 
o ritmo do chumbo (e o peso), 
da lesma, da câmara lenta, 
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando 
no adversário, grosso, de dentro, 
impondo-lhe o que ele deseja, 
mandando nele, apodrecendo-o

Ritmo morno, de andar na areia, 
de água doente de alagados, 
entorpecendo e então atando

o mais irrequieto adversário.

Portanto, os torcedores amam jogadores que não se resumem a jogar futebol. Eles gostam de atletas que contribuam para um espetáculo inesquecível. A relação da torcida com Edmundo e, ultimamente, com Valdivia, só consegue ser explicada nesta chave. A adoração é explicada muito mais pelo papel que eles desempenham do que pelo futebol que jogaram – embora apenas Edmundo tenha, de fato, sido craque.

Isso não acontece, óbvio, só no Palmeiras. Todos os clubes têm gente de todas as classes sociais. Porém, o time pelo qual as pessoas torcem acaba unificando essa multidão em um conjunto de características bem próprias.  O hino do Corinthians, clube nascido de operários pobres e hoje grande em todo o país, começa com “é um campeão dos campões”, orgulho do Brasil. Tem uma energia de superação que resume muito bem o que é o Corinthians – e ajuda a explicar por que o Ronaldo, essa grande história de superação, deu tão certo no clube. O mais novo entre os times paulistanos é o único que fala das glórias que vêm do passado. O São Paulo é o mais jovem entre os rivais e acumulou uma enorme quantidade de títulos nos últimos anos. Apesar da juventude, o São Paulo cultivou ao longo da sua história um ar meio aristocrático, tradicional, tão bem materializado em ídolos como Raí, o rei do Morumbi, e apelidos como “O Soberano”. Também está presente em todas as classes sociais, mas a relação entre torcida e time passa por um certo ar de nobreza que as últimas gerações de dirigentes gostam de cultivar – e que encanta uma parte grande da torcida. Porque algumas coisas continuam, apesar do tempo, e acabam definindo quem são os torcedores desses dois times também.

A maior diferença entre os times se manifesta, sobretudo, na dor. Não me atrevo a escrever sobre a dor corintiana ou sãopaulina ou santista – cada um sabe o que sente, e seria prepotente descrever o que nunca senti. No caso da torcida do Palmeiras, até a dor é performática. Os rebaixamentos, as eliminações, tudo é vivido como uma apresentação de Cavalleria Rusticana. A mistura entre time e torcida é tão intenso que até o jogo mais banal se transforma em sentimentos à beira de um precipício.

Se o debate sobre a língua ainda está muito longe, mas muito longe de ser resolvido, o do futebol me parece cada vez mais claro: quem torce pelo mesmo time é profundamente influenciado pelo time que torce. Pode até ser atraído pelas coisas mais disparatadas, mas sempre existe algo, algo muito específico, muito pessoal, que leva uma pessoa a torcer por um time e não por outro. Talvez seja por esse motivo que o futebol fascine tanto. A influência que ele exerce sobre quem gosta dele é comparável à língua que o sujeito fala.

No caso da torcida do Palmeiras, isso é cristalino. Todo palmeirense, tenha a origem que tiver, é um espectador de ópera do século 19. Até os mais indiferentes, as pessoas que só ligam para títulos, têm lampejos wagnerianos. Isso, no final das contas, explica os grandes e os pequenos momentos do Palmeiras. Essa relação entre torcida e time expõe um bocado a dor e a delícia de amar o Palestra. É um time, para o bem e para o mal, que não conhece sentimentos mornos. Tudo precisa ser absurdamente intenso na vida da torcida que canta, vibra e se emociona como se não houvesse amanhã.

*Este post é uma versão modificada de um texto que escrevi há alguns anos, no meu blog pessoal. Qualquer semelhança, portanto, não é mera coincidência.

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