Campeonato Brasileiro

O Sport venceu no Rio e confirmou a melancolia alvinegra: num sem-fim de erros, o Botafogo está rebaixado

A melancolia batia à porta no Estádio Nilton Santos. Botafogo e Sport se enfrentavam numa partida importante na briga contra o descenso, e uma derrota decretaria o rebaixamento dos alvinegros. O Leão da Ilha, então, tomou o papel de mensageiro do caos no Rio de Janeiro. O revés botafoguense por 1 a 0 pode até ser questionado, em mais um dos tantos pênaltis discutíveis marcados no Brasileirão. Não é isso, porém, que minimiza o tamanho do fracasso do clube carioca ao longo da temporada. O Botafogo cumpriu integralmente o roteiro dos erros para consumar o terceiro descenso de sua história. E por todo o entorno em General Severiano reconstruir o clube será um processo dificílimo a partir da próxima Série B.

Entre os muitos lesionados e também os jogadores deixados na reserva, Eduardo Barroca escalou o Botafogo repleto de garotos. A vitória era fundamental para criar o mínimo de esperança na salvação. Já o Sport precisava ganhar para sair da zona de rebaixamento, após ser ultrapassado pelo Fortaleza na quinta-feira. Os rubro-negros entravam em campo no Nilton Santos em busca do fim do tabu, sem nunca terem conquistado um triunfo no estádio. A história mudaria nesta sexta, um dia tão típico aos jogos da Série B.

O Botafogo começou melhor na noite. Ficava mais com a bola, buscava o ataque. O destaque da equipe era o garoto Matheus Nascimento, prestes a completar 17 anos, e que acabou jogado aos leões para tentar manter o espírito de luta dos alvinegros nesta reta final de Brasileirão. Contudo, o Sport não demorou a responder. E, depois de algumas tentativas, o Leão ganhou um pênalti aos 20 minutos. Romildo tentava recolher o braço, mas a bola bateu em sua mão e a arbitragem marcou o pênalti depois da revisão. Daqueles lances que seguem a orientação da CBF, mas que deixam mais dúvidas do que certezas na marcação. Iago Maidana converteu o penal e colocou os pernambucanos em vantagem.

Sem qualquer força, o Botafogo não mostrou poder de reação, mesmo ficando com a posse da bola durante mais tempo. Era uma equipe inofensiva, como se repetiu em tantas partidas neste Brasileirão. Não tinha qualidade técnica e nem muito ânimo para tentar o empate até o intervalo. Pelo contrário, o Sport teria a melhor chance de anotar o segundo, num chute de Ewerton que seguiu para fora.

O Botafogo voltou com mais gás para o segundo tempo. Pressionava no campo de ataque e marcava alto. Faltava um pouco mais de capricho nas finalizações para conseguir o empate. Romildo e Kevin deram sustos, mas não mais que isso. Pouco depois, seria a vez de Matheus Nascimento exigir boa defesa de Luan Polli. Barroca acionou seu banco neste momento, com as entradas de Matheus Babi e Hugo.

Na sequência do segundo tempo, o Botafogo seguiu arriscando, um tanto quanto desesperado. O time insistia muito nos chutes de longe, especialmente com José Welison, mas sem muita precisão. Rafael Navarro também teria uma ótima chance aos 30, num chute cruzado dentro da área que seguiu para fora. O Sport tratava de segurar o resultado, fechado na defesa, mas poderia ter matado o jogo aos 36, quando Dalberto cabeceou e o goleiro Diego Loureiro salvou os alvinegros. Entretanto, os botafoguenses pareciam se sufocar na própria falta de capacidade. Salomon Kalou saiu do banco no fim, mas sem produzir nada. O passar dos minutos só confirmava o inevitável: o rebaixamento.

A lista de erros do Botafogo em 2020, e não só nesta temporada, é imensa. O que se vê em campo, de qualquer maneira, é consequência da péssima gestão alvinegra do lado de fora. As dívidas crescem, as receitas não são suficientes e muitos se agarraram em promessas bem mais longínquas que o presente duro. Como se não bastasse, a diretoria abusou das trocas de treinador sem sentido e das contratações baseadas apenas em nomes. A demissão de Ramón Díaz antes de estrear à frente do time e a apatia do caro Salomon Kalou são simbólicas nesta derrocada botafoguense. Keisuke Honda nem esperou o desastre.

O mais curioso é que o Botafogo, no início do Brasileirão, até parecia acima das expectativas. Abusava dos empates, mas fazia bons jogos com Paulo Autuori e alguns jogadores produziam além de seus limites. Entretanto, os alvinegros logo viriam sua campanha esfarelar. Perderam destaques como Luis Henrique e Luiz Fernando, incharam o elenco com contratações a esmo, não deram continuidade a qualquer técnico. Os pagamentos atrasavam e o campo apenas refletia os problemas ao redor. O segundo turno alvinegro é péssimo, candidato a pior da história dos pontos corridos. Com apenas quatro pontos conquistados, o clube corre o risco de superar o América de Natal de 2007.

No fim das contas, o Botafogo precisou recorrer aos garotos para tentar manter o mínimo de dignidade. Mas, com um time inexperiente, a falta de capacidade competitiva era expressa. A derrota em casa contra o Sport é a confirmação da queda. Mas não o ponto final, com outras quatro partidas que podem ampliar o lamento. E, pior, sem uma luz no fim do túnel. Por mais que tenha disputado a Série B outras duas vezes, este descenso é incomparavelmente mais difícil. A reconstrução exigirá muito mais, considerando a situação terrível nos bastidores do clube, a crise econômica gerada pela pandemia e as próprias receitas menores no atual formato de repasses na Segundona. O Cruzeiro serve de alerta.

Mais emblemático ainda que o rebaixamento tenha ocorrido diante de Jair Ventura, atual treinador do Sport, mas responsável pelos últimos momentos de grandeza no Botafogo. Os rubro-negros fecharam a rodada com 38 pontos, dois acima da zona de rebaixamento, ocupada pelo Bahia. Já o Botafogo tem poucas perspectivas até de sair da lanterna, com 24 pontos e somente quatro vitórias em 34 partidas. A queda não surpreende, pelos amplos problemas enfrentados pelos alvinegros. Ainda assim, era difícil imaginar tamanha melancolia. Mesmo não sendo um rebaixamento inédito, este supera os outros exatamente por afastar mais as esperanças de dias melhores.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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