Campeonato Brasileiro

O Inter foi ao Morumbi para jogar uma final e, impiedoso, destroçou um São Paulo muito aquém da ocasião

O Morumbi guarda excelentes lembranças ao Internacional e, em especial, a Abel Braga. Foi no estádio, sob as ordens do treinador, que os colorados iniciaram sua primeira conquista da América. Muito mudou nestes quase 15 anos, mas o Inter de Abelão voltou ao Morumbi para outra vitória imensa – e, esperam os torcedores, que possa ter novo significado glorioso ao clube quando o Brasileirão terminar. Os gaúchos viveram sua noite perfeita para pulverizar o São Paulo, num duelo essencial aos rumos da Série A. Só um time entrou para decidir o campeonato, e foi o visitante, com uma goleada por 5 a 1 que realmente dimensiona a superioridade dos colorados sobre os afundados tricolores. A liderança volta ao Beira-Rio.

O jogo teve dois momentos essenciais. Começou logo pelos primeiros minutos, diante da forma como o Inter arreganhou os dentes e desejou a vitória. Uma bola parada e um contra-ataque garantiram dois gols, mas o time de Abel Braga foi muito mais, pela maneira como implodiu o São Paulo graças à marcação-pressão. O Tricolor esboçou uma reação no fim do primeiro tempo e parecia voltar ao páreo quando descontou. Porém, os colorados estavam em chamas e, ao mesmo tempo em que puniam os erros dos paulistas, evidenciavam suas virtudes. Construíram a goleada sem piedade na segunda etapa, numa noite de gala de Yuri Alberto, mas também com exibições excelentes de Patrick, Moisés, Edenílson e quase todos da equipe.

A grande novidade do São Paulo se concentrava no retorno de Luciano, que formava a dupla de ataque com Brenner. O Internacional mantinha a escalação que havia derrotado o Fortaleza no final de semana. A força se notava no meio, com Rodrigo Dourado, Edenílson e Praxedes, além de Patrick e Caio Vidal abertos. Na frente, Yuri Alberto segue como homem de referência na ausência de Thiago Galhardo.

A diferença no placar se percebe pelo jeito que os dois times encararam os primeiros minutos no Morumbi. O São Paulo parecia dar de cara com um amistoso qualquer, dentro de sua péssima sequência no Brasileirão. O Internacional, por outro lado, quis transformar o confronto direto em uma final antecipada. Manteve o ritmo altíssimo em relação às seis vitórias anteriores, mesmo encarando o adversário mais bem colocado desde a chegada de Abel Braga. Os colorados foram para sufocar os tricolores e assegurar o resultado rapidamente.

Não foram necessários muitos minutos para o Inter mostrar do que era capaz. Os colorados jogavam de maneira intensa, com e sem a bola. Atacavam com velocidade e apertavam a marcação desde o campo adversário. Assim, o São Paulo revivia os seus últimos pesadelos. O bombardeio logo teve início. Yuri Alberto parou em Tiago Volpi e Cuesta mandou para fora antes dos cinco. O primeiro gol se tornou apenas uma questão de tempo, o que se consumou aos oito. Moisés atravessa um momento excepcional e é um dos principais responsáveis pela arrancada do Inter. Seria de seus pés que nasceria o tento, numa cobrança de falta caprichosa para Cuesta completar de cabeça na área. Méritos totais dos gaúchos no Morumbi.

O gol garantia que o Inter apostasse ainda mais em sua estratégia, forçando os erros de um oponente desencontrado e partindo para cima. A vantagem, aliás, não saciou os colorados. Os visitantes permaneciam mandando no Morumbi, diante da reação branda do São Paulo. Os tricolores pecavam pelo nervosismo e pela falta de agressividade. Tirando um chute de Tchê Tchê para fora, mal arriscariam contra a meta de Marcelo Lomba. Do outro lado, o time de Abel Braga não perdia a chance de travar a saída de bola são-paulina e ligar seus avanços, com muita movimentação e combatividade dos homens de frente.

O aviso do segundo veio com Yuri Alberto, mas a finalização acabou seguindo para fora. O atacante dava muito trabalho à desatenta marcação, enquanto Patrick era um leão para buscar a bola e morder os calcanhares dos adversários. O São Paulo não fazia muito no campo de ataque e, quando Gabriel Sara bateu a uma defesa segura de Lomba, o Inter arregaçou as mangas para ampliar. Foi mais um lance emblemático sobre a diferença de espírito dos times. O lance se iniciou num lançamento de Lomba. Patrick ganhou de cabeça e a defesa parou diante de Yuri Alberto, que enfiou a bola à direita. Caio Vidal era acompanhado por Reinaldo, que preferiu deixar o garoto e tentar salvar o chute mais à frente. Com espaço, o ponta não perdoou.

A partida parecia resolvida com 24 minutos. O São Paulo estava zonzo e não se mostrava capaz de anotar dois gols sobre o Inter. Sobravam reclamações de Fernando Diniz e também dos jogadores, pouco antes de um empurra-empurra entre as duas equipes. O terceiro tento colorado nem se sugeria tão difícil, com mais uma batida de Yuri Alberto para fora. Não havia um ataque dos gaúchos que não fosse perigoso.

Até por isso, surpreendeu quando o São Paulo se acalmou um pouco mais para trabalhar a bola. Descontou num lance isolado, a partir da bola parada, aos 36. Juanfran bateu escanteio, Reinaldo desviou e Luciano emendou para dentro. O fim do primeiro tempo guardou o melhor instante aos são-paulinos, quando o duelo parecia aberto. Foram minutos um pouco mais equilibrados, com chances aos dois lados. Se Léo travou Yuri Alberto de um lado, Moisés também evitou que Lomba entregasse o empate a Luciano.

Para o segundo tempo, os dois times vinham com alterações. Fernando Diniz apostou em Vítor Bueno e Igor Gomes no meio-campo. Já Abel Braga tirou Caio Vidal, que sentiu dores musculares, e colocou Peglow – talismã na vitória contra o Fortaleza. O São Paulo voltou mais ligado e pressionava no ataque, com a zaga do Inter atenta para travar os seguidos cruzamentos. Contudo, quando tinham a chance de subir a marcação, os colorados partiam para cima. O sufocamento era menos sistemático que no primeiro tempo, mas, quando deu certo, provocou a pane total do Tricolor a partir dos 15. E o show particular de Yuri Alberto.

O terceiro gol do Internacional dirimiu as impressões de uma partida ainda aberta e iniciou a goleada dos visitantes. Peglow logo mostrou seu valor ao bloquear o passe de Vítor Bueno numa saída de bola. A sobra ficou com Yuri Alberto, em ótimas condições para anotar. Juanfran logo saiu para a entrada de Paulinho Bóia. Antes do São Paulo notar algum efeito, desesperadamente indo para frente, já tomou o quarto gol aos 21. Desta vez a jogada surgiu num contra-ataque, com Edenílson acionando Peglow. O garoto deu uma ótima assistência a Yuri Alberto, que passou por Volpi e virou o rosto na hora de finalizar. Requintes de crueldade.

Neste momento, o São Paulo se via entregue. E nada estava ruim o suficiente que não pudesse piorar. Aos 23, Daniel Alves deu o passe com muita displicência. Patrick roubou com facilidade e já lançou Yuri Alberto nas costas da zaga. O atacante acelerou e bateu por baixo de Volpi, para celebrar sua tripleta. Ainda quase coube o sexto na sequência, mas Volpi conseguiu defender o arremate rasteiro de Peglow, pronto para o crime. A decisão estava liquidada, e sem questionamentos sobre a superioridade colorada.

Abel Braga até poupou forças depois disso, ao tirar Rodrigo Dourado e Victor Cuesta. Logo depois, Yuri Alberto também saiu e encerrou a noite implacável. Diniz mandou a campo Carneiro, que não tinha muito o que fazer. A reta final da partida no Morumbi era mero protocolo, com o passar dos minutos doendo aos tricolores. A equipe da casa mantinha a posse, mas não tinha forças ou interesse para criar algo. Se saísse um novo gol, era mais provável que viesse de um substituto do Inter disposto a mostrar serviço. Quando o relógio chegou aos 45, a arbitragem encerrou logo. Não era necessário ampliar o sofrimento são-paulino. Os colorados podiam se sentir livres para vibrar pela atuação de gala.

O Inter referenda contra o São Paulo muitos dos pontos positivos vistos nos últimos jogos, desde a vitória sobre o Boca Juniors na Bombonera. É uma equipe consciente e bem acertada, com Abel Braga extraindo o máximo de diversos jogadores desde dezembro. E, diante da importância da ocasião no Morumbi, os colorados sentiram a temperatura do duelo perfeitamente. Abriram vantagem logo e não vacilaram quando surgiu a chance de definir o placar com sobras. Foi uma senhora partida dos gaúchos, impecável. E que refuta quem achava que a sequência de adversários na parte inferior da tabela havia facilitado as vitórias recentes.

O São Paulo, por sua vez, vê seus maiores medos se concretizarem. O time eliminado pelo Grêmio na Copa do Brasil virou um arremedo de líder na Série A. Repete erros dos piores momentos com Fernando Diniz e não apresenta qualquer repertório para sair da crise. Se a goleada do Red Bull Bragantino parecia um aviso quanto aos riscos ainda contornáveis àquela altura, este novo atropelamento confirma que os tricolores não são mais os principais candidatos ao título. Perderam a ponta, precisam achar um caminho para se reerguer rapidamente e carecem de lideranças visíveis. O estrago passa por questões táticas e técnicas, mas aparenta se concentrar sobretudo no mental, sem mais o foco da fase iluminada.

O Inter assume a primeira colocação numa quarta-feira favorável, não apenas por aquilo que aconteceu no Morumbi. O time chega aos 59 pontos, dois a mais que o São Paulo, ambos com 31 jogos disputados. O Atlético Mineiro tem uma partida a menos, mas ficou nos 54 ao ceder o empate com o Grêmio. E os gremistas também podem considerar uma oportunidade perdida o resultado em Porto Alegre, com 51 pontos. A próxima decisão dos colorados será exatamente o Gre-Nal, no domingo, dentro do Beira-Rio. Outra final para o time de Abel Braga vir babando.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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