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Mauro Shampoo, 60 anos: Quando o folclórico camisa 10 do Íbis quase foi campeão nacional

Mauro Shampoo nunca precisou ser craque para ter seu nome lembrado em todo o Brasil. Era o camisa 10 pitoresco no lugar certo e na hora certa. O canhoto cabeludo que até poderia servir de sósia a Maradona, mas que envergava mesmo o manto surrado do Íbis. Em tempos de “pior time do mundo”, o meio-campista foi rei. Ou melhor dizendo, foi um dos pernas de pau que ajudou a sustentar a péssima fama do clube. Junte isso a sua reputação como cabeleireiro em Recife que temos um dos jogadores mais folclóricos do futebol nacional. Lenda que completou 60 anos neste domingo.

Antes de ser um figurão, no entanto, Mauro é um grande ser humano. E que superou grandes dificuldades para se tornar celebridade no futebol. O pernambucano viveu como menino de rua a partir dos nove anos. Saiu de casa para buscar seu sustento, trabalhando como engraxate em um hotel na frente da praia de Boa Viagem. Nesta época, atraiu atenção de um olheiro enquanto jogava futebol de areia. Passou cinco anos na base do Náutico, mas não vingou. Ao mesmo tempo, também vendia pastel. E o que pouca gente sabe é que, logo após se profissionalizar, Shampoo quase conquistou um título nacional.

A chance para Mauro no primeiro nível veio através do Santo Amaro, em 1980. O clube de Recife costumava frequentar a primeira divisão do Campeonato Pernambucano, quase sempre no papel de figurante. Até que, em 1981, se projetou nacionalmente. Os alvirrubros disputaram a Taça de Bronze, equivalente à terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Shampoo compunha o elenco, assim como um zagueiro novato chamado Ricardo Rocha. Os dois jogadores mais famosos daquele time, porém, eram reservas. E viram seus companheiros triunfarem na campanha. O Santo Amaro deixou para trás Auto Esporte, Baraúnas, Izabelense e Guarani de Divinópolis. Caiu apenas na decisão, goleado pelo Olaria na visita ao Rio de Janeiro, apesar da vitória na volta, em Recife.

Mauro Shampoo permaneceu firme no elenco, enquanto Ricardo Rocha logo deslanchou para o Santa Cruz. O camisa 10 aos poucos ganhou espaço na equipe modesta de Pernambuco. Por outro lado, conquistava a clientela naquele que se tornou seu principal ofício: o corte de cabelo. O apelido de Shampoo veio inspirado não apenas pela profissão ou pela cabeleira, mas também pelo filme homônimo, estrelado por Warren Beatty. Já valia aparições na mídia nacional, como a revista Placar.

Foram seis anos defendendo o Santo Amaro, até 1986. Então, Mauro Shampoo começaria a fazer história com o Íbis. Quando chegou, o clube já havia estabelecido a sequência de derrotas que o colocou no Livro dos Recordes. Mas o novo camisa 10 contribuiu para a chacota em torno do Pássaro Preto. Orgulhava-se de ter cuidado dos cabelos de vários jogadores conhecidos no estado e no país. Já em campo, feito limitava-se ao único gol marcado pelos rubro-negros – justamente em uma derrota por 8 a 1.

De vez em quando, Shampoo ainda calça as chuteiras. Faz parte do time de veteranos do Íbis, que não se cansa de perder. Mas seus principais instrumentos de trabalho são mesmo a tesoura e o pente. A vida como cabeleireiro é o que sustenta o veterano. Que mantém sua língua afiada para contar boas histórias. Seus cortes de cabelo também valem pelo mergulho no folclore do futebol que vem de brinde.

A dica de pauta veio do amigo Leandro Paulo. Muito obrigado!

Sobre os 60 anos de Mauro Shampoo, também vale conferir a lista feita pelos parceiros do Verminosos por Futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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