Campeonato Brasileiro

#AgoraÉQueSãoElas: Era para ser só festa

A campanha #AgoraÉqueSãoElas foi criada por Manoela Miklos e convida que homens cedam seu espaço para que mulheres falem. A Trivela resolveu participar e convidamos as meninas do Dibradoras, companheiras que falam de futebol. Serão oito textos, um de cada integrante do site, que já convido antecipadamente que vocês conheçam se gostam de futebol. Queremos que não seja uma ação isolada. Se você, mulher, tem histórias para contar sobre sua relação com futebol, seja da sua paixão por esse esporte que a gente tanto ama, seja de discriminação que sofreu por isso, assédio ou o que for, estamos abertos. Nos escreva no [email protected] Queremos te dar voz. É hora dos homens ouvirem e refletirem. Porque #agoraéquesãoelas. 

Por Maria Guimarães*

Eu gosto muito de esporte. Gosto tanto, que as lembranças mais velhas que possuo na cabeça depois do nascimento da minha irmã são sobre esporte. Uma é do Senna ganhando o GP do Brasil e a torcida invadindo a pista, enquanto eu, de frente para a TV, aplaudia da sala da casa da minha avó. Outra sou eu batendo bola com meu pai na garagem de casa quando tinha uns 3 anos, lembro das aulas de karatê aos quatro, da natação aos cinco e lembro do Júnior levantando a taça do Brasileiro pelo Flamengo em 1992.

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Nesse dia, o Flamengo derrotou o Botafogo e vi o exato momento que a taça foi erguida direto do colo de um tio meu. Dali em diante, foi muita festa, me jogaram para cima, cantamos, eles beberam, eu brinquei com a cara dos primos que não deram a sorte de serem flamenguistas como eu. Enfim, nesse dia aprendi como a comemorar um título e aprendi também como é maravilhoso comemorar um título. E um detalhe importante: para os meus tios e tias (digo aqui os tios, porque meu pai era torcedor do Fluminense e, portanto, não era um grande dia pra ele), não importava se eu era menina ou menino, só importava que eu era Flamengo.

De 1992 até 2009 foram 17 longos anos sem um título brasileiro. Nesse meio tempo, comemorei outras conquistas do Flamengo, me traumatizei com um gol de barriga e aprendi a chamar o Vasco de vice. Quando o “deixou chegar” começou em 2009, me segurei, não queria acreditar na arrancada daquele time. Na última rodada, não pude ir ao Rio assistir ao jogo com outros 90 mil flamenguistas no Maracanã. Mas em São Paulo, fui para um bar flamenguista com um casal de amigos. A rua teve que ser fechada, o bar estava abarrotado de gente. Telões foram colocados para a torcida assistir da rua, mas tudo sem som. Tudo bem, a gente cantava. O Grêmio abriu o placar. Empatamos. E com a cabeça do melhor e único Ronaldo possível para mim (and his name is Angelim), fomos campeões.

Conto tudo isso para dizer o quanto eu gosto de esporte, o quanto gosto de futebol e quanto amo o Flamengo. Fomos campeões e eu como torcedora tinha que comemorar. Merecia comemorar. Era para ser só festa.

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Assim que o juiz apitou, eu chorei, abracei meus amigos. Liguei, zoei meu pai. Era para ser só festa. Mas um homem veio e tentou me abraçar. Cumprimentei ele meio sem jeito, tentando acreditar que era só pela alegria do título mesmo. Era para ser só festa. Mas não para mim, afinal sou mulher. Ele então puxou minha mão, tentou me fazer abaixar junto com ele. Falou no meu ouvido algo para o qual eu acenei a cabeça negativamente. Fiquei com nojo. Puxei minha mão da mão dele, mas ele segurava forte. Puxei mais forte ainda, fiquei com medo e busquei refúgio com meus amigos. Tive que sair de onde estava e passei todo o resto da comemoração olhando ao meu redor. Toda vez que o via, tentava desviar o caminho.

Era para ser só festa. Mas não foi. Essa história, felizmente, nunca vai apagar a alegria que senti com esse título. Mas também nunca vou esquecê-la. E toda vez que me encontro nessa situação, tomo uma série de precauções para que não aconteça de novo. E isso é um problema: eu não deveria estar aqui pensando em maneiras de me defender. Eu deveria era pensar na festa. Então, por favor, parem de me atacar. Parem de nos atacar. Deixe que o futebol, para nós mulheres, tenha sofrimento só quando nossos times perderem.

*Maria Guimarães, flamenguista, publicitária e fundadora do 65|10, empresa que visa melhorar a representação da mulher na propaganda.

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