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Duas faces do mesmo épico: o pesadelo e a glória que escreveram o histórico Fortaleza x Brasil

Todo jogo de futebol tem duas histórias para contar. As faces entre perder e ganhar. E não dá para ignorar os dois lados do épico ocorrido no Castelão neste sábado. O Fortaleza sonhava em deixar para trás o seu pesadelo recorrente. Depois de cair para Oeste e Macaé dentro de casa em 2012 e 2014, o time confiava que este era o ano de abandonar o calvário na Série C. Esperança expressa na torcida, que lotou as arquibancadas, com 63,9 mil pessoas – o terceiro maior público do ano no futebol brasileiro. Mas do outro lado também havia um grande enredo: o do Brasil de Pelotas, da “torcida que tem um time”. O Xavante tinha gana por conseguir o segundo acesso consecutivo no Brasileiro e, de novo, incendiar as ruas de sua cidade. Conseguiu. Em um drama imenso, segurou o empate por 0 a 0 e estará na Segundona.

Os capítulos deste livro de duas capas começaram a ser escritos desde a primeira fase. Enquanto o Fortaleza sobrou no Grupo A, o Brasil sofreu no B, indo buscar a classificação na última rodada depois de cair de rendimento após perder jogadores importantes. O destino cruzou os dois clubes tão tradicionais, e só um poderia ficar com o acesso. E a recuperação dos rubro-negros veio no momento certo. A equipe fez valer sua força no Bento Freitas e venceu o jogo de ida por 1 a 0. Vantagem mínima, mas importante para se defender no caldeirão que estava sendo preparado no Ceará. Algo que ficou evidente desde a véspera, com a torcida do Leão do Pici lotando até mesmo o treinamento do time.

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O calor nas arquibancadas empurrou o Fortaleza desde os primeiros minutos. O time de Marcelo Chamusca partiu para o abafa e ficou no quase. Tudo por culpa de Eduardo Martini. O veterano estava em tarde inspiradíssima, logo realizando os seus milagres. E um bom goleiro também tem o direito de contar com a sorte, do lado dos gaúchos. Aos 10 minutos, Lúcio Maranhão carimbou o travessão e deixou o grito entalado. Viria muito mais na sequência da partida.

O Brasil de Rogério Zimmermann tinha sua estratégia bem definida. Fechava qualquer espaço na defesa, amarrando o jogo, e prendia a bola quando retomava a posse. Assim, até criou suas oportunidades de gol, mais raras e menos perigosas que as do adversário. Em compensação, o Fortaleza via o desespero aumentar gradativamente. Bastava um gol para respirar, mas o time começava a encontrar dificuldades na criação. E a decisão, que se arrastou no final da primeira etapa, manteve o nível de tensão na volta do intervalo.

O Fortaleza passou a jogar mais em cima, no campo de ataque. Mas, diante da forte defesa armada pelo Brasil, faltavam recursos. O relógio passava e tirava o oxigênio dos tricolores. Não dava tempo de pensar, apenas de cruzar a bola em direção à área. Assim, o Leão do Pici ficava limitado aos chuveirinhos, com muitas bolas passando a esmo diante dos atacantes. E, quando eles acertaram, a trave evitou o tento de Daniel Sobralense. Já outro recurso para tentar quebrar a retranca eram os chutes de longe. A bola passou raspando em uma cobrança de falta de Corrêa, enquanto Eduardo Martini seguia com o corpo fechado, operando defesaça em bomba de Pio.

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O bombardeio persistiu, assim como a resistência do Brasil. Já nas arquibancadas, as lágrimas não se seguravam mais nos olhos. O trauma das outras vezes era iminente. E o Xavante fez de tudo para que ele se cumprisse. No gol, Eduardo Martini protagonizou ainda mais dois milagres, enquanto seus companheiros gastavam o tempo como podiam. Mena causou confusão ao ser retirado de maca e, nos acréscimos, Xaro foi expulso por retardar uma saída de bola, que fez os adversários se estranharem. Apesar disso, o Leão do Pici acreditava no último segundo. Só não acreditou em rever o fantasma ao apito final, decretando a permanência na Série C por mais um ano. Os rubro-negros, heroicos, seguraram o placar zerado à unha e ganharam como prêmio o acesso.

É uma pena que o Fortaleza siga em seu sofrimento na Terceirona. Um clube tradicional, que empolga pelo envolvimento massivo da torcida. Mas que, na hora de decidir, insiste em decepcionar. Das outras vezes, ainda, a forma como aconteceu foi até pior. Não dá para negar a frustração enorme em viver tudo de novo. No final, alguém precisa subir. E o Brasil tem todos os méritos por sua conquista.

Agora, é aguardar as cenas que se verão em Pelotas nas próximas horas, sobretudo quando o time desembarcar. A torcida do Brasil sempre foi reconhecida por seu fanatismo, pela maneira como abraça o clube como o seu gigante. Para eles, é Xavante e nada mais, um universo à parte no interior do Rio Grande do Sul. Massa que se uniu ainda mais há seis anos, quando o trágico acidente de ônibus vitimou três membros do elenco, incluindo o ídolo Cláudio Milar. Da frustração, os pelotenses criaram as suas forças. Caíram no Brasileiro e no Gaúcho, mas se levantaram nos últimos três anos, com três acessos nos dois torneios. Voltam à Série B depois de 16 anos de ausência. Para inflar ainda mais o orgulho de seus rubro-negros.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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