Campeonato Brasileiro

Do descrédito à superação, os 30 anos da libertação corintiana no Brasileiro de 1990

A história dos grandes títulos do Corinthians é feita de libertações. Os maiores feitos do passado alvinegro são aqueles que possuem um calvário até a glória libertadora oferecida pela taça. E o Campeonato Brasileiro de 1990 certamente está nas melhores lembranças dos corintianos que viveram aquela campanha. A ausência de um título nacional na galeria de troféus pesava contra a torcida, muitas vezes gozada pelos rivais. O momento, além do mais, gerava diversas desconfianças no Parque São Jorge – com um time que atravessou diversos percalços, dentro de um clube que também convivia com as limitações financeiras. Mas foi assim que o Corinthians se superou para chegar aos mata-matas e se agigantou contra três adversários mais badalados, batendo na final o São Paulo de Telê Santana.

Em 16 de dezembro de 1990, o Corinthians experimentou um dia inesquecível em sua história. O gol de Tupãzinho marca a explosão do desejo contido, por uma torcida que tanto almejava aquele Brasileirão. Neto foi realmente a grande figura da campanha, com gols decisivos e uma capacidade incalculável nas bolas paradas. A vitória, porém, se escreve através de tantos outros nomes. Em especial, de Nelsinho Baptista, o técnico que chegou no início ruim de campanha para criar um espírito de equipe e dar novos recursos ao elenco, tanto táticos quanto de preparação física. As escalações com Ronaldo, Giba, Marcelo Djian, Guinei, Jacenir, Márcio Bittencourt, Wilson Mano, Tupãzinho, Mauro, Fabinho, Dinei, Paulo Sérgio, Neto e ainda outros que participaram da caminhada está na memória alvinegra. Afinal, mais do que um título aguardado pela massa corintiana, a garra apresentada naquele campeonato está na essência da identidade do clube.

O Corinthians havia enterrado seu maior trauma em 1977, com o fim do jejum de 23 anos no Campeonato Paulista. Ainda assim, em 1990, a torcida alvinegra não estava completamente liberta da inferiorização proferida pelos rivais. O histórico de conquistas corintianas era aquém daquilo que se esperava de um clube com suas proporções. Dizer que o Corinthians era um time com “limites regionais” era a provocação favorita de palmeirenses, santistas e são-paulinos. O Brasileirão permanecia como um grande tabu aos alvinegros. Enquanto Palmeiras e São Paulo tinham suas taças na “fase moderna” da competição, o Santos colecionava troféus da antiga Taça Brasil – ao lado dos alviverdes.

Durante a seca no Paulistão, cabe lembrar, o Corinthians foi um dos quatro campeões proclamados na tumultuada edição do Torneio Rio-São Paulo de 1966. Ainda assim, aquele troféu contava pouco a uma torcida ávida por grandes feitos. Depois que a competição se expandiu no fim dos anos 1960, transformando-se em Torneio Roberto Gomes Pedrosa, os corintianos até fizeram bons papéis. Por duas vezes, conseguiram terminar na terceira colocação – algo relevante a quem nunca conseguiu nem figurar na Taça Brasil. E com o advento do Campeonato Brasileiro em 1971, a pressão por uma conquista que não fosse meramente regional aumentava.

O Corinthians teve participações também relevantes nas primeiras edições do Brasileiro, mesmo que o insucesso no Paulistão perdurasse. Os alvinegros por duas vezes ficaram na quarta colocação, em tempos nos quais Rivellino era o protagonista do elenco. De qualquer maneira, o grande momento aos corintianos viria na campanha do Brasileirão em 1976. A invasão corintiana tomou o Maracanã e os paulistas foram capazes de eliminar a Máquina Tricolor com Rivellino do outro lado, agora vestindo a camisa do Fluminense. O orgulho pela mobilização da massa e pela paixão evidente na Dutra, contudo, não foi suficiente para levar a taça. Na decisão, melhor ao Internacional de Rubens Minelli, bicampeão nacional.

Depois de 1976, o Corinthians não repetiria o mesmo impacto no Brasileirão, mesmo montando equipes fortes. O auge alvinegro nos anos 1980 veio nos tempos da Democracia Corintiana, com o time estrelado por Sócrates alcançando o bicampeonato paulista em 1982 e 1983. Ainda assim, faltaria um pouco mais para que o clube repetisse o sucesso na primeira divisão nacional. Por duas vezes, o Corinthians sucumbiria na semifinal. Foram duas derrotas diante do Grêmio em 1982, enquanto o Fluminense conseguiu sua revanche para ascender à conquista em 1984. Já o fundo do poço aos corintianos ocorreu em 1987, quando o clube foi o pior entre os 16 participantes da Copa União – mas se safou com a ausência de rebaixamento naquela edição.

Dá para dizer que a formação do Corinthians campeão brasileiro em 1990 começaria a partir de 1988, com a conquista do Campeonato Paulista. Os alvinegros atravessavam uma reformulação a partir do fracasso na Copa União, dando mais espaço aos jovens formados em seu “terrão”. O técnico Jair Pereira encabeçou o processo, facilitado também pela ausência de jogadores lesionados e convocados à Seleção. Assim, vários garotos ganhariam mais oportunidades no Parque São Jorge. Foi o que aconteceu com o goleiro Ronaldo, o zagueiro Marcelo Djian e os atacantes Viola, Valmir e Paulo Sérgio. Aquele time possuía bandeiras de outros tempos, incluindo Biro-Biro e Édson Boaro. Também estavam outros jogadores que ganhariam peso na equipe, como o volante Márcio Bittencourt (cria do terrão, mas um pouco mais velho) e o coringa Wilson Mano (contratado junto ao XV de Jaú em 1986).

O Paulistão de 1988 é ainda mais representativo para o Corinthians de 1990 pela decisão. Os alvinegros avançaram à final superando o quadrangular no qual também pegaram São Paulo, Palmeiras e Santos. Ainda assim, na “chave do interior”, o Guarani chegava referendado por uma equipe cheia de ótimos jogadores – incluindo Ricardo Rocha, Paulo Isidoro, Boiadeiro e Evair. O empate por 1 a 1 no Morumbi lotado seria seguido pela vitória do Corinthians por 1 a 0 no Brinco de Ouro da Princesa, com o famoso gol de Viola na prorrogação para garantir a taça. Curiosamente, o tento bugrino na primeira partida havia sido a inesquecível bicicleta de Neto, um dos destaques daquele Paulistão, que cruzaria o caminho dos alvinegros novamente meses depois.

Antes de chegar ao Parque São Jorge, contudo, Neto teve sua malfadada passagem pelo Palmeiras. E aquele Corinthians campeão paulista não deu frutos imediatos no Brasileirão. Os alvinegros não chegariam aos mata-matas da Copa União em 1988. Já em 1989, terminaram a primeira fase na liderança, mas caíram de desempenho na sequência e viram o São Paulo se classificar à decisão contra o Vasco. Ao Corinthians, sobrou pelo menos o gosto de evitar a classificação do Palmeiras na última rodada, com um gol de calcanhar de Cláudio Adão que deu a vaga aos vascaínos. Também não seria possível conquistar o bicampeonato paulista em 1989, com os corintianos surpreendidos pelo ascendente São José. A Águia do Vale eliminou o Corinthians nas semifinais, selando a classificação para encarar o São Paulo na decisão. Por fim, na edição inaugural da Copa do Brasil, em 1989, o Corinthians sucumbiu ao Flamengo nas quartas de final.

Neste intervalo, o Corinthians passou por mudanças no elenco. O presidente Vicente Matheus não realizava grandes investimentos e jogadores mais rodados deixaram o Parque São Jorge – como o goleiro Carlos, o lateral Édson ou o volante Biro-Biro. A aposta dos alvinegros se concentrava principalmente em atletas trazidos do interior paulista. O meia Tupãzinho e o zagueiro Guinei chegaram do São Bento de Sorocaba. O lateral esquerdo Jacenir já tinha atuado pelo clube, mas rodou por diferentes equipes do interior até retornar, trazido do União São João. Seu reserva era Gérson, vindo do Botafogo da Paraíba. Na direita, o lateral Giba estava antes no Guarani. O volante Ezequiel era oriundo do Ituano, enquanto no mesmo setor Jairo chegou do Criciúma. O atacante Fabinho tinha deixado o Novorizontino. Somente dois jogadores haviam desembarcado de outro grande: o camisa 10 Neto e o meia Mauro, ambos negociados em trocas com o Palmeiras em 1989.

Até a transferência ao Corinthians, Neto parecia ter seus lampejos limitados ao Guarani. O meia viveu ótimos momentos no Brinco de Ouro, mas não vingou nas vezes em que assinou com outros clubes. Não daria certo na equipe endinheirada do Bangu para a Libertadores de 1986 e também não ficou muito no São Paulo em 1987, com sua progressão atrapalhada por um acidente automobilístico, apesar de ajudar na conquista do Paulistão. Contratado por Pepe, acabou saindo por não se dar bem com Cilinho, que substituiu o Canhão da Vila na casamata. Neto igualmente não causou o efeito esperado quando aportou no Palmeiras após o vice no Paulistão em 1988. Escalado fora de posição, acumulou problemas com o técnico Émerson Leão. Seria trocado com o Corinthians em julho de 1989, na famosa transação que também envolveu a saída do lateral Denys ao Parque São Jorge, enquanto Dida e Ribamar seguiram ao Palestra.

Neto se transformou em uma liderança ao Corinthians desde o segundo semestre de 1989, com boas atuações logo em sua chegada ao clube. Parecia disposto a brilhar e se tornou a referência técnica dos alvinegros, num elenco que dispunha de vários operários, mas não de outro nome com seu talento. Mesmo com limitações evidentes, aquela equipe alvinegra teve bons momentos no Paulistão de 1990. O Corinthians encerrou a primeira fase com a melhor campanha, sofrendo apenas uma derrota em 23 partidas, apesar do excesso de empates. A fase de Neto ajudava a explicar o sucesso do time e ele se reivindicava como um dos melhores jogadores do futebol brasileiro naquele primeiro semestre. Então, a Copa de 1990 representaria uma quebra em diferentes sentidos.

O Campeonato Paulista foi interrompido em maio, enquanto a Seleção se preparava ao Mundial da Itália. Neto, que tinha expectativas de ser uma das inclusões de última hora na convocação, terminou se decepcionando com a ausência na lista final de Sebastião Lazaroni. O camisa 10, então, sentiu ainda mais vontade de provar o erro do treinador ao renegá-lo. Neto seguiu em alta com o Corinthians, mas a equipe perdeu o embalo na segunda fase do Paulistão (realizada depois da Copa) e terminou na segunda colocação de sua chave. Um ponto à frente, o Bragantino de Vanderlei Luxemburgo ganhou o direito de fazer a histórica “Final Caipira” contra o Novorizontino de Nelsinho Baptista. Restava aos corintianos a tentativa de se redimirem no Brasileirão. Neto, após frustradas negociações para se transferir ao Napoli, viria ainda mais sedento.

Naquele momento, Vicente Matheus também optava por soluções caseiras ao comando técnico. O talismã Basílio começou o Paulista de 1990 e acabou perdendo o emprego em maio. Seu substituto era Zé Maria, ex-pugilista referendado pelos trabalhos como técnico nas próprias categorias de base. Todavia, a queda para um adversário surpreendente no estadual aumentava a pressão sobre o comandante. Zé Maria chegou a pedir demissão depois da eliminação, mas seguiu para o início do Brasileiro. Segundo ele, Vicente Matheus prometeu um aumento salarial e novos reforços, o que o dirigente desmentiu publicamente, piorando o clima.

Com o calendário apertado por causa da Copa do Mundo, o Paulistão de 1990 se encavalou com a disputa do Brasileiro. A estreia do Corinthians aconteceu em 19 de agosto, apenas três dias depois do empate por 0 a 0 com o Bragantino no interior, que selou a classificação do Massa Bruta à final do estadual. Não havia tempo para virar a chavinha. Antes do início do Brasileiro, a revista Placar analisava: “Com esses jogadores e um bom esquema, o Timão pode dar trabalho. Mas é neste ponto que os problemas recomeçam. Zé Maria vem tentando, sem sucesso, dar uma cara à equipe, que, no entanto, continua jogando no embalo da liderança de Neto. Isto é pouco para credenciar alguém ao título. Outro osso duro a ser roído é fazer o elenco esquecer a sina de que, em campeonatos brasileiros, o Corinthians não vai bem. […] Fica difícil apostar que este seja o ano do Corinthians. Os alvinegros garantem, contudo, que foi assim no começo do Paulistão e o time fez uma campanha invicta. É pagar para ver e checar a antiga questão: o Corinthians é maior que seus problemas? Pelo jeito, é sim”.

Vicente Matheus ameaçou não mandar o Corinthians para a estreia em Porto Alegre, considerando que a sequência apertada entre estadual e nacional atrapalhava o planejamento do clube. Apesar da tentativa de pressionar a CBF, o presidente ouviu que os alvinegros poderiam ser suspensos se não cumprissem a tabela. Assim, a equipe seguiu viagem para encarar o Grêmio desgastada e cheia de desfalques. Nomes como Ronaldo e Marcelo Djian se ausentaram por lesão, enquanto Wilson Mano estava sem contrato. Zé Maria chegou a ir até Osasco para buscar quatro juniores, a fim de completar a delegação. Outro detalhe é que o jogo no Olímpico, assim como todas as partidas das duas primeiras rodadas do Brasileiro, não teve transmissão na televisão. A Globo abriu mão da Série A e o acordo com a Bandeirantes só vigorou a partir da terceira rodada.

No Olímpico, o Corinthians perdeu uma invencibilidade de 34 partidas, que sustentava antes do início do Brasileiro – embora os muitos empates evidenciassem como o clima não era tão bom. E o Grêmio não teve piedade dos visitantes, com o time treinado por Evaristo de Macedo vencendo por 3 a 0. Caio foi o pesadelo corintiano naquela tarde. O meio-campista abriu o placar logo no primeiro minuto, aproveitando uma bobeira da zaga após cobrança de lateral, e ampliou aos 16, aproveitando um rebote do goleiro Dagoberto. O arqueiro alvinegro até adiava um placar pior. Porém, na volta ao segundo tempo, Caio fez fila na defesa, acertou a trave e ainda conseguiu fechar a conta pegando a sobra.

Neto seria personagem daquela partida, mas não por bons motivos. O camisa 10 teve uma atuação apagada e saiu de campo reclamando da CBF, dizendo que era “uma tremenda sacanagem” atuar em Porto Alegre apenas três dias depois do compromisso contra o Bragantino. As manchetes, porém, também estampavam uma suntuosa proposta de US$2 milhões feita pelo clube de Bragança Paulista ao craque, que Vicente Matheus recusou. O próprio técnico Zé Maria disse que o meia estava mexido com a oferta. O contrato de Neto só tinha validade até o meio de outubro e existia certa dúvida se ele permaneceria no Parque São Jorge, considerando a falta de investimento no elenco e as vacas magras nas finanças. Outros oito jogadores também estavam no fim de seus vínculos, incluindo titulares importantes como Ronaldo e Tupãzinho.

Para a segunda rodada, contra o Cruzeiro, o Corinthians contava com retornos importantes. Ronaldo e Marcelo estavam recuperados de suas contusões, enquanto Wilson Mano renovou seu contrato. Os alvinegros também ganharam naquele momento o volante Ezequiel, contratado junto ao Ituano. O que preocupava era mesmo a situação de Viola. O jovem centroavante não manteve a curva ascendente após o Paulistão de 1988 e acumulava problemas. No fim de seu contrato, não aceitou a proposta de renovação da diretoria e ficou furioso quando descobriu que Vicente Matheus tentava mandá-lo à Portuguesa, em troca do meia Toninho. Viola foi afastado depois de alegar lesão para não viajar a Porto Alegre, mas ser flagrado disputando uma partida na várzea. Acabou emprestado ao São José para o restante do Brasileirão.

Os retornos, contudo, não evitaram a derrota por 1 a 0 dentro do Pacaembu. O Cruzeiro garantiu o triunfo aos 31 minutos, numa falta cobrada em direção à área que Paulão cabeceou para dentro. O barril de pólvora alvinegro ganhava novos elementos para uma explosão. Um torcedor chegou a invadir o campo para agredir o técnico Zé Maria, mas acabou contido por policiais militares, enquanto Vicente Matheus precisou sair do estádio escoltado. E não eram os anúncios de novos reforços, o centroavante Ângelo e o ponta Antônio Carlos, ambos trazidos do XV de Jaú, que acalmavam os ânimos.

Depois do revés, o Corinthians anunciou a saída de Zé Maria. O treinador colocou novamente o cargo à disposição e Vicente Matheus aceitou a demissão, embora tenha pedido para que ele assumisse outra vez os juniores. “O time perdeu duas vezes seguidas e isso não pode acontecer. Gosto de vitórias, por isso vou sair. Estou tranquilo. Acho que minha saída vai ajudar o clube e satisfazer os descontentes com meu trabalho. Um novo técnico dará vida ao time”, declarou Zé Maria à Folha de S. Paulo, sem demonstrar grandes mágoas pela saída e até declarando como “compreensível” a atitude do torcedor que invadiu o gramado.

O Corinthians não precisou pensar muito na busca de um substituto. Após o vice-campeonato paulista naquela semana, derrotado pelo Bragantino, o Novorizontino não teria mais calendário para o restante do ano. Nelsinho Baptista virou um nome quente no mercado e, antes dos corintianos, o São José tentou levá-lo para o lugar de Tata. O acerto com os alvinegros aconteceu em 28 de agosto, com contrato até o fim de 1990. O novo comandante trazia consigo o preparador físico Flávio Trevisan. E havia a promessa de que alguns de seus jogadores em Novo Horizonte pudessem ser comprados – incluindo o volante Luis Carlos Goiano, que acabaria no São José. Nelsinho conseguiu ao menos o retorno do ponta Paulo Sérgio, que esteve emprestado sob o seu comando no estadual.

A chegada de Nelsinho foi sentida logo de cara no Parque São Jorge. Afinal, o novo treinador realizou mudanças drásticas, sobretudo relativas à preparação física. Mais exigente, Nelsinho passou a instituir dois períodos de atividades durante o dia e tornou mais rígidos os horários. Também reduziu o grupo de jogadores para apenas 20 nomes. O técnico ainda obrigou o clube a oferecer novamente almoço aos atletas, em corte realizado por Vicente Matheus após o anúncio do plano Collor. Em seu primeiro dia, questionado pela Folha sobre o treinamento longo que realizou, o treinador indicava o que queria: “Acho que não foi um treino forte. Foi apenas um reconhecimento do estado físico dos jogadores. Eles vão precisar trabalhar bastante”.

Outra novidade apresentada por Nelsinho era a adaptação do esquema tático, usando três pontas velozes na linha de frente de seu 4-3-3. Ele queria mais triangulações e aceleração. Prometia uma equipe que não ficasse apenas na dependência de Neto, um problema recorrente nos tempos de Basílio e Zé Maria, embora garantisse liberdade ao camisa 10. E o treinador poderia conhecer uma versão mais motivada do meia. Antes da terceira rodada do Brasileirão, Neto recebeu a merecida convocação à Seleção, na primeira lista elaborada por Paulo Roberto Falcão. Retornava à equipe nacional cheio de moral, dois anos após participar das Olimpíadas de 1988, quando o Brasil ficou com a prata.

Nelsinho também foi ajudado pelo calendário, ganhando uma semana até que o Corinthians retornasse a campo pela terceira rodada, contra o Vitória. Pôde trabalhar melhor a adaptação do time ao novo esquema e à nova rotina. Só não conseguiu encerrar a sequência sem vitórias, com o empate por 0 a 0 na Fonte Nova. Num duelo de poucas oportunidades, Ronaldo seria o destaque, com defesas que evitaram outra derrota alvinegra. “Preciso de tempo para colocar a casa em ordem”, era o discurso do novo comandante, dizendo que o resultado foi justo. Só não haveria muita margem à manobra, considerando que o Corinthians faria o Dérbi contra o Palmeiras uma semana depois.

Havia um discurso otimista no Parque São Jorge antes do clássico. Neto, que completou 24 anos às vésperas do confronto, elogiava as novidades implementadas por Nelsinho. “O Palmeiras é um adversário difícil, mas nosso time está tocando a bola com desenvoltura e o entrosamento começa a surgir. Dá para vencer. Se conseguirmos repetir o que temos feito nos treinos, o Palmeiras terá muito trabalho para nos segurar. O Nelsinho ensaiou várias jogadas. Conseguimos assimilar quase tudo e vamos usar no clássico”, disse, à Folha. O meia teria a chance de enfrentar pela primeira vez o ex-clube, já que estava contundido nos três compromissos anteriores. Treinados por Telê Santana, os palmeirenses eram favoritos, com quatro jogadores convocados por Falcão à Seleção.

A recuperação do Corinthians no Brasileirão começou exatamente no Dérbi, com a vitória por 2 a 1. O resultado foi garantido logo cedo, com dois gols alvinegros nos primeiros 17 minutos. Neto brilhou. O camisa 10 abriu a contagem com um golaço de falta, mandando a bola no ângulo de Velloso, outro chamado por Falcão. Logo depois, em uma cobrança de escanteio fechada do camisa 10, a bola ficou viva na área até que Marques fizesse contra. Depois disso, o Corinthians recuou e preferiu jogar nos contragolpes – puxados principalmente pelo meia Tupãzinho. O Palmeiras acertou duas bolas na trave na sequência do primeiro tempo e muito pressionou, mas só conseguiu descontar de pênalti. Betinho converteu aos 36 da etapa final. Depois, Neto ainda desperdiçou a chance do terceiro, em pênalti defendido por Velloso. O Dérbi ainda precisou ser paralisado no segundo tempo quando a torcida organizada palmeirense atirou pedras contra o banco corintiano.

“Taticamente, Nelsinho matou o Telê Santana”, afirmava Neto, numa tarde de forra. Durante a comemoração de seu gol, o meia fez questão de correr ao banco do Palmeiras, para provocar o diretor Márcio Papa – responsável pela troca por Ribamar. O camisa 10 saiu do Morumbi direto ao aeroporto, para se juntar à Seleção em viagem para a Espanha. Enquanto isso, Nelsinho elogiava a postura da equipe: “O primeiro tempo do Corinthians foi brilhante ofensivamente. O objetivo é jogar com velocidade, marcar forte e sair rápido no contra-ataque”.

Neto não se saiu bem em sua reestreia pela Seleção, em vitória inapelável da Espanha por 3 a 0. Ainda assim, o camisa 10 estava de volta ao time para encarar o São José na quinta rodada do Brasileirão. Outra novidade era o retorno do volante Márcio, nascido em São José dos Campos, que se ausentara das partidas anteriores por contusão. As lembranças do Estádio Martins Pereira não eram boas, com a derrota por 3 a 0 na semifinal do Paulista de 1989, mas o Corinthians evitou os fantasmas com a vitória por 2 a 1. Antônio Carlos foi o destaque da equipe. O ponta deu um cruzamento de meia-bicicleta para Tupãzinho fazer o primeiro e puxou o contra-ataque para Neto ampliar na segunda etapa. Eugênio descontou à Águia do Vale e o time da casa pressionou, especialmente depois da expulsão de Márcio. Apesar dos riscos, os alvinegros saíram com o triunfo.

O Corinthians manteve o embalo e emendou a terceira vitória consecutiva na sexta rodada. Os alvinegros encararam o Fluminense no Pacaembu e ganharam por 1 a 0. Melhor no primeiro tempo, o time de Nelsinho levava perigo especialmente nas bolas paradas e Neto chegou a carimbar o travessão em uma cobrança de falta frontal. De qualquer maneira, foi apenas na segunda etapa que veio o tento decisivo, num bonito giro de Antônio Carlos dentro da área. O Flu teve uma excelente chance de empatar, mas Ronaldo salvou os corintianos ao defender um pênalti cobrado por Marquinhos. A vitória enchia o Corinthians de moral para o novo clássico, agora diante do São Paulo dirigido por Pablo Forlán.

Sob chuva no Morumbi, o Corinthians não teve uma boa atuação contra o São Paulo. Os alvinegros dependeram de seu trabalho defensivo, com Ronaldo acumulando grandes defesas, além de Marcelo e Guinei mantendo a segurança no miolo da zaga. De novo precisaram de Neto para garantir o empate por 1 a 1. O Tricolor saiu na frente, aos 28 do segundo tempo. Cafu arrancou por todo o campo de ataque e passou para Mário Tilico definir na área. Na comemoração, o ponta são-paulino provocou Ronaldo, lembrando as embaixadinhas feitas pelo goleiro num clássico anterior. A resposta não tardaria, com Neto. Em uma cobrança de falta de longe, o camisa 10 acertou um chutaço e mandou a bola na gaveta de Zetti, que não teve o que fazer. “Essa nem o Leão pegava”, provocou o camisa 10 depois da partida, lembrando de seu desafeto no Palmeiras. No fim, Ronaldo confirmou a igualdade numa defesaça em bomba de Cafu.

O bom momento do Corinthians se manteve na reta final da primeira fase do Brasileirão, mesmo sem vitórias elásticas. A equipe derrotou a Inter de Limeira na oitava rodada, em triunfo por 1 a 0 no Pacaembu. Adaptado como centroavante, o garoto Paulo Sérgio determinou o resultado ainda no primeiro tempo. A zaga foi novamente destaque pela segurança, com direito a um lindo lançamento de Marcelo servindo como assistência ao gol. Outra notícia favorável naquelas semanas eram as seguidas renovações dos contratos pendentes. Tupãzinho, Fabinho, Mauro, Ronaldo e Márcio haviam ampliado seus vínculos. A situação de Márcio era a mais crítica: diante do término de seu contrato, mas ainda com o passe preso ao clube, o volante chegou a atuar sob o pagamento de um seguro. Não estava contente com a situação, mas chegou em acordo com Vicente Matheus. Àquela altura, faltava apenas resolver a situação de Neto.

O Corinthians conquistou uma de suas principais vitórias na nona rodada, ao bater o Flamengo por 2 a 1 dentro do Maracanã. Os rubro-negros vinham em mau momento, mas o resultado teve seu peso para referendar a ascensão alvinegra. O triunfo se resolveu durante o primeiro tempo. Acionado por um belíssimo lançamento de Márcio, Giba fez grande jogada pela direita e cruzou para Paulo Sérgio abrir a contagem. Depois, em mais uma bola levantada pela direita, agora com Fabinho, a sobra ficou viva na entrada da área e Tupãzinho fuzilou num chute prensado. Na segunda etapa, o Fla pressionou e descontou com Renato Gaúcho. Ainda houve um duelo particular entre Ronaldo e Djalminha, com dois milagres do goleiro para evitar o empate. O camisa 1 também era responsável direto pela excelente fase do clube, inspiradíssimo aos 22 anos. No fim, Zé Carlos ainda faria uma defesaça do outro lado, evitando o terceiro tento corintiano em cabeçada de Paulo Sérgio.

Conforme o regulamento daquele Campeonato Brasileiro, a fase de classificação se dividia em duas etapas: na primeira, os dez componentes do Grupo A enfrentavam os dez do Grupo B e vice-versa, em turno único; já na segunda, também em turno único, os confrontos aconteciam na própria chave. Apenas o primeiro colocado do Grupo A e do Grupo B, em cada etapa, garantia a classificação aos mata-matas. As quatro vagas restantes ficariam aos times de melhor campanha que não terminaram os grupos em primeiro. Se uma equipe vencesse duas vezes um grupo, um quinto time de melhor campanha também avançaria.

Restando uma rodada para o fim da primeira fase, o Corinthians era o vice-líder do Grupo A. Somava 12 pontos, dois a menos que o Atlético Mineiro, em tempos nos quais a vitória valia dois pontos. Os alvinegros até contaram com a ajuda do São José, que segurou o empate contra o Galo na penúltima rodada, mas a situação era difícil para o último compromisso. Além de vencer e o Atlético perder, o Corinthians precisava tirar uma diferença de seis gols no saldo. Não foi possível, já que os atleticanos fizeram sua parte com a vitória por 1 a 0 sobre a Inter de Limeira. O Galo se confirmou nos mata-matas ao lado do Grêmio, líder do Grupo B.

O Corinthians, como consolo, ampliou sua série invicta ao derrotar o Náutico por 1 a 0. Depois de um primeiro tempo fraco no Pacaembu, a equipe voltou com mais atitude ao segundo tempo e conseguiu a vitória. Foi uma atuação muito aguerrida dos alvinegros, que mais uma vez precisaram da precisão de Neto nas bolas paradas para conseguir o gol. Aos 11 minutos da etapa complementar, o craque cobrou uma falta do meio da rua e colocou na gaveta. Durante a comemoração, saiu gritando “eu sou foda”, uma resposta às críticas que recebia dos torcedores nas numeradas. Além disso, o camisa 10 merecia elogios pela maneira como organizou o time e deu combate. Questionado por sua forma física durante os treinos com a Seleção semanas antes, Neto se mostrava bem mais em forma e com fôlego, diante do trabalho realizado junto ao preparador físico Flávio Trevisan.

A segunda fase do Brasileirão começou logo em seguida, mas o Corinthians ainda teve tempo para renovar o contrato de Neto. O meia preferia assinar por um período mais curto, até o início de 1991, e prometia fazer uma pedida baixa para abreviar a discussão. Nelsinho também queria uma resolução rápida do caso, dizendo que Neto era primordial e que as faltas do craque serviam como maior recurso corintiano para surpreender os adversários. Antes da primeira rodada da nova etapa do campeonato, justamente contra o Bragantino que o sondara, o camisa 10 assinou por quatro meses. “Tudo ficou mais fácil, porque eu queria continuar no clube”, comentou, à Folha. Além do mais, Neto havia sido convocado novamente à Seleção, ao lado do goleiro Ronaldo.

O reencontro com o Bragantino no Estádio Marcelo Stéfani rendeu um movimentado empate por 2 a 2. E o Corinthians lamentou a maneira como desperdiçou o resultado, após abrir dois gols de vantagem. De novo, os alvinegros fizeram um início de jogo muito forte. Neto abriu o placar de cabeça logo no primeiro minuto e Fabinho ampliou aos 11, girando dentro da área. O Braga dava trabalho e descontou com João Santos pouco antes do intervalo. Já no segundo tempo, Nelsinho perdeu o expulso Wilson Mano e tentou fechar a casinha, mas o Massa Bruta arrancou o empate com Tiba. O treinador saiu criticado pelas escolhas, sem que suas ideias funcionassem.

Aquele empate indicava o segundo turno difícil que o Corinthians enfrentaria no Brasileirão. Na segunda rodada, novo empate, sem sair do 0 a 0 contra o Bahia. O técnico Candinho fez um pedido expresso aos seus jogadores para que evitassem as faltas nas proximidades da área, para não sofrer com as cobranças de Neto. O camisa 10, aliás, viveria uma tarde insossa no Pacaembu e veria Tupãzinho assumir o protagonismo do time na armação. Mesmo assim, andava difícil de passar pelo goleiro Chico, que realizou duas defesaças para garantir o empate aos baianos. Já na terceira rodada, mais um 0 a 0 ao Corinthians, agora contra a Portuguesa. Até havia um desejo de Neto se vingar contra o técnico Emerson Leão do outro lado, mas o camisa 10 pouco fez, anulado pelo volante Capitão. Nelsinho até armou um esquema diferente, com três zagueiros e Wilson Mano no papel de “falso lateral esquerdo”, que deu poucos frutos ofensivamente.

Naquele momento, a situação do Corinthians ainda era tranquila na tabela. Os alvinegros ocupavam a segunda colocação geral, que garantia a classificação aos mata-matas. Mas seria exatamente na quarta rodada que a invencibilidade de Nelsinho à frente do time seria quebrada: os corintianos perderam na visita ao Botafogo por 1 a 0. Neto, suspenso, foi substituído por Ezequiel no Caio Martins. De novo, os paulistas apresentaram claros problemas na criação e também cometeram erros na defesa. O gol da vitória botafoguense saiu aos 37 do segundo tempo, numa infiltração do pequenino Luisinho para marcar de cabeça. Assim, Nelsinho prometia novas trocas para encarar o Vasco, adversário que o Corinthians não vencia há 15 anos em jogos oficiais. O esquema passaria a contar com apenas dois atacantes, num 4-4-2 reforçando o meio. Outra novidade era o atacante Dinei, promovido da base e que agradava nos treinos. O garoto de 18 anos era uma solução à falta de reforços ao ataque, um problema não solucionado por Vicente Matheus.

Dinei ainda ficou no banco de Ângelo no Morumbi. E o Corinthians somou mais um empate por 0 a 0 contra o Vasco, completando quatro partidas sem sequer balançar as redes. A ideia de Nelsinho com o 4-4-2 era dar mais mobilidade a Neto, adiantado ao ataque. Porém, Zagallo botou o volante Luciano no encalço do camisa 10 e dificultou sua vida. A melhor chance da equipe, ainda assim, foi com o meia: quase fez um gol olímpico, mas a bola bateu na nuca de Wilson Mano. “Nosso time confundiu tranquilidade com morosidade. Houve momentos em que demos quatro ou cinco toques desnecessários, quando poderíamos chegar ao gol com três passes”, analisou Nelsinho, à Folha.

Depois da partida, Neto pegou o avião e viajou à Itália, onde disputou o famoso amistoso que celebrava os 50 anos de Pelé no San Siro. De falta, o meia anotou o gol do Brasil na derrota por 2 a 1 para a seleção do Resto do Mundo e ganhou um par de chuteiras do Rei, a quem substituíra. Prometia usá-las justamente contra o Santos, na rodada seguinte do Campeonato Brasileiro. E dá para afirmar que o presente deu sua ajudinha ao Corinthians, que finalmente voltou a vencer. Neto não fez o gol, mas criou a jogada no triunfo por 1 a 0 dentro do Pacaembu. O gol seria de Dinei, em sua estreia como titular.

A grande válvula de escape do Corinthians veio pelo lado direito. Giba apoiava com muito vigor e criava as principais jogadas da equipe. O gol saiu aos 26 minutos: Neto arrancou pela intermediária, se livrando dos marcadores, e passou a Giba. O camisa 2 cruzou e encontrou na pequena área Dinei, livre para escorar de cabeça. O Santos ganhou mais presença de área quando Pepe mandou Serginho Chulapa a campo e ameaçou, mas o Corinthians esteve mais próximo do segundo, com Paulo Sérgio carimbando a trave. Já no fim, o santista Edu e o corintiano Ronaldo (por cera) seriam expulsos, mas o goleiro reserva Wilson garantiu o triunfo com uma boa defesa nos últimos minutos.

A cena daquela tarde, de qualquer maneira, seria protagonizada por Dinei. Na comemoração do gol, o atacante saiu às lágrimas para abraçar seus companheiros no banco de reservas. “O gol é mais mérito do Neto e do Giba, que me deixaram na cara do gol. Eu estava bem colocado. A bola sobrou na minha cabeça e eu nem tive de pular para marcar”, comentou o garoto, na saída do campo. Dinei também pediu para não ter seu nome relacionado com o pai, Nei, atacante corintiano nos anos 1960. O jogador havia sido abandonado na infância e criado pelos avós.

A motivação pela vitória no clássico, todavia, logo seria quebrada no Corinthians. O time faria uma partida importantíssima na sétima rodada da segunda fase, ao visitar o Goiás no Serra Dourada. Os esmeraldinos eram concorrentes diretos dos corintianos pela classificação e vinham mordidos pela derrota recente na decisão da Copa do Brasil contra o Flamengo. Venceram categoricamente por 3 a 1, em tarde sofrível da defesa alvinegra. Logo nos primeiros 20 minutos, os goianos marcaram dois gols. Túlio aproveitou uma saída errada do goleiro Wilson para abrir o placar e depois Luvanor driblou Guinei com facilidade para ampliar. O Corinthians reagiu e as trocas de Nelsinho para o segundo tempo surtiram efeito, com Dinei descontando em jogada de Tupãzinho. Entretanto, o empate não veio e Túlio fechou a conta no fim. O artilheiro sofreu pênalti de Guinei e converteu.

Embora contasse com a volta de Ronaldo, o Corinthians viajou pressionado para encarar o Atlético Mineiro na oitava rodada da segunda fase, em seu penúltimo compromisso por aquela etapa do Brasileirão. Era fundamental que os paulistas saíssem com o resultado positivo. Aconteceu, com a ótima vitória por 3 a 1, contra um Galo já classificado e cheio de desfalques. Como de praxe, a equipe de Nelsinho definiu rapidamente a vitória. Giba arriscou de longe e a bola bateu no morrinho antes de enganar o goleiro Carlos. Logo depois, seria a vez de Neto cobrar uma falta na gaveta e ampliar com 20 minutos. O Atlético descontou pouco antes do intervalo, com Marquinhos. Ainda assim, os corintianos fecharam a contagem no fim do segundo tempo, em contra-ataque de Fabinho para Mauro definir.

Apesar da vitória no Mineirão e do empate do Goiás em casa contra o Bahia, o Corinthians não tinha garantido a classificação antes da última rodada. Pela má campanha no segundo turno, os alvinegros já não tinham mais chances de terminar na liderança do Grupo A. O jeito era se valer do bom momento no primeiro turno e passar com uma das maiores pontuações no geral. Ainda assim, os corintianos eram ameaçados: o Goiás estava só um ponto atrás e tinha chances de desbancar o time de Nelsinho. Se o Corinthians perdesse do Internacional no Pacaembu, os esmeraldinos dependiam só de um empate contra a Portuguesa no Canindé, já que tinham melhor saldo. Um empate corintiano também classificava os goianos em caso de vitória contra a Lusa.

Tanto Internacional quanto Portuguesa corriam riscos de rebaixamento. Os dois acabaram fazendo sua parte na rodada final, com o Corinthians respirando aliviado pela ajuda no Canindé. Os colorados atropelaram os corintianos por 3 a 0, mesmo dentro do Pacaembu. Júlio deixou os gaúchos em vantagem aos 33 do primeiro tempo, num chute de longe que Ronaldo aceitou. Luis Fernando anotou um golaço para ampliar aos 20 do segundo tempo, fazendo fila na zaga corintiana. Por fim, Paulinho Criciúma brigou na entrada da área e bateu por baixo de Ronaldo para ampliar. A sorte corintiana foi que a Portuguesa também cumpriu sua parte, com os 2 a 0 sobre o Goiás. Vágner Mancini (o atual técnico alvinegro) e Ézio anotaram os gols no Canindé. Com os resultados, Inter e Lusa se safaram da queda no saldo de gols. Cinco times terminaram com 15 pontos, com o São José levando a pior, ao perder em casa por 3 a 0 para o Flamengo. A Inter de Limeira foi a outra rebaixada, com 10 pontos.

Pela primeira vez no Brasileirão, cinco clubes paulistas avançaram às quartas de final. Palmeiras e Santos lideraram seus grupos na segunda fase e se juntaram a Atlético Mineiro e Grêmio com a classificação automática. As outras quatro vagas ficaram aos times de melhor campanha. Bahia, São Paulo, Bragantino e Corinthians passaram desta maneira. Os corintianos tinham a sétima melhor campanha entre os classificados, só à frente do Palmeiras, e seguiriam em desvantagem aos mata-matas. Exceto se acontecesse o Dérbi, os alvinegros sempre jogariam fora de casa a segunda partida e os adversários teriam vantagem de dois empates ou de uma vitória para cada lado com a mesma diferença de gols. O time de Nelsinho precisaria se superar.

O desafio do Corinthians nas quartas de final era o Atlético Mineiro. O Galo terminou com a segunda melhor campanha, mas fez um segundo turno ruim, na lanterna do Grupo A – o único abaixo dos corintianos na chave. O jovem técnico Arthur Bernardes lidou com muitos desfalques, o que atrapalhou o rendimento. Ao menos, vários destaques atleticanos estariam de volta para a partida de ida no Pacaembu. Titular da Seleção na Copa de 1986 e antigo ídolo do Corinthians, Carlos era o goleiro. Paulo Roberto era um lateral experiente, enquanto Clébão ganhava moral na zaga. O beque chegou a ser convocado à Seleção por Falcão, assim como o volante Moacir. Já no ataque, o centroavante Gérson inspirava cuidados e Éder Aleixo remetia a outros tempos gloriosos dos atleticanos.

Neto diante do Atlético Mineiro (Foto: Nelson Coelho / Corinthians)

Neto chegou a ser preocupação para o duelo no Pacaembu, com problemas musculares. Acabou confirmado. Desfalque mesmo foi Jacenir, substituído pelo inexperiente Gérson na lateral esquerda. Nelsinho também contava com o retorno do volante Márcio e fixou Mauro na ponta, descontente com a queda de rendimento do novato Antônio Carlos. Além disso, o coringa Wilson Mano acabaria no miolo de zaga, na ausência do suspenso Guinei. O time ganhava cara. E o resultado na primeira partida também ajudou a moldar o caráter daquele Corinthians campeão.

O Corinthians precisou reverter o placar no Pacaembu e arrancou a difícil virada por 2 a 1. De novo, Neto brilharia e anotaria os dois gols contra o Atlético Mineiro. Porém, o time de Nelsinho iniciaria a noite com pouquíssima inspiração. Durante os primeiros minutos, a equipe se resumia a cobranças de falta tortas do camisa 10 e tomou o primeiro gol aos 15. Mauro vacilou na direita e o cruzamento chegou ao atacante Gérson no segundo pau. Mesmo com pouco ângulo, o centroavante cabeceou entre Ronaldo e a trave. O Galo passou a se valer de sua experiência e a catimbar o jogo, especialmente com Éder. Aos 21, o meia Gilberto Costa atrapalhou uma cobrança de falta de Neto e, por reclamação, o corintiano recebeu o amarelo – que o deixava suspenso para o reencontro no Mineirão. Márcio foi outro pendurado a ganhar também o terceiro amarelo.

O Corinthians aumentou a pressão na sequência do primeiro tempo, sem receio de chutar. O goleiro Carlos realizou grandes defesas, Neto acertou a trave em cobrança de falta e a zaga do Atlético salvou quase em cima da linha um gol de Mauro que parecia certo. Para o segundo tempo, Nelsinho promoveu mudanças. Colocou o ponta Paulo Sérgio no lugar do lateral Gérson e Neto passou a jogar mais enfiado no ataque. A partida ficou aberta e o Galo também desperdiçou bons contra-ataques. Ainda assim, os corintianos melhoraram sua produção ofensiva e Wilson Mano teve um gol anulado por impedimento.

A reviravolta só começou nos 15 minutos finais. Paulo Sérgio teve participação direta no empate, ao acertar um cruzamento perfeito que Neto cabeceou às redes. O camisa 10 não fazia uma partida tão boa, mas cresceu com o gol. Quase virou numa cabeçada para fora. Já o gol decisivo aconteceu aos 40, a partir de mais um cruzamento de Paulo Sérgio. Tupãzinho não conseguiu completar e Neto chegou batendo na saída de Carlos. Durante a comemoração, correu ao alambrado para comemorar com a torcida. Substituído por Ezequiel logo depois, sairia ovacionado pelo Pacaembu, em uma das atuações mais marcantes de sua carreira.

“Foi uma resposta para aqueles que falam que eu não tenho preparo físico. O que eu corri hoje vale por dez jogos. Foi uma noite inspirada, provei hoje que sempre fui um jogador de decisão. Eu adoro jogar no Corinthians. Lá eu sei o que faço e o que represento. Quando eu jogo mal, o Corinthians joga mal e perde. As pessoas me entendem. Eu sou um ídolo”, declarou Neto, sem qualquer modéstia na saída de campo. Já Nelsinho elogiava a postura do Corinthians: “Foi o jogo mais emocionante da minha carreira. O tipo de partida que mata a gente. Tomamos um gol numa falha, num incidente da partida, mas dominamos o Atlético”.

Apesar da vantagem do empate em Belo Horizonte, o Corinthians entrou com uma formação ofensiva. Wilson Mano foi o escolhido no lugar de Márcio e Paulo Sérgio, mesmo com o fim de seu contrato na véspera, substituiu Neto. “Vamos marcar onde der. Sempre no campo deles, a partir da saída de bola. Não podemos dar espaços para criarem as jogadas”, prometia Nelsinho. Diante de 62 mil torcedores nas arquibancadas do Mineirão, os corintianos seguraram a pressão e garantiram a classificação com o 0 a 0 no placar.

O Corinthians fez um bom primeiro tempo no Mineirão. Os paulistas equilibraram a partida e criaram mais perigo contra a meta de Carlos. Foram ao menos duas chances claras de gol aos visitantes, contando bastante com o apoio de Giba pela direita. Limitado, o Galo dependia das cobranças de falta levantadas na área e não deu trabalho a Ronaldo. Durante o segundo tempo, os atleticanos precisaram ir mais ao ataque e pressionaram, mas viram a defesa adversária se fechar bem. A pontaria dos mineiros não estava muito afiada e somente no final Ronaldo precisou realizar uma defesa um pouco mais difícil. De maneira inesperada, o Corinthians seguia em frente à semifinal do Brasileirão. Individualmente, Fabinho e Tupãzinho tiveram atuação aplicada, enquanto Marcelo mandou muito bem no miolo de zaga para evitar os riscos.

Do lado de fora, Neto elogiava os companheiros: “O Corinthians tocou bem a bola, teve capacidade de marcar e só errou nas finalizações. Ter enfrentado o Atlético, que vinha bem no campeonato, vai dar mais crédito para o time. Isso é um fator importante”. Nelsinho também dizia que “a determinação e a audácia” de seu time foram essenciais, com a postura agressiva surpreendendo o Galo. O treinador parabenizou a leitura de jogo de seus comandados, especialmente quando alternaram o esquema tático durante a partida, saindo do 4-3-3 para o 4-4-2.

O próximo adversário do Corinthians era o Bahia, dono da terceira melhor campanha e que por isso decidiria em casa, além de ter a vantagem de dois empates contra os alvinegros. O Tricolor mantinha parte da base campeã nacional em 1988 e eliminou o Bragantino com uma emocionante vitória por 3 a 2 na Fonte Nova. Do outro lado da chave, o São Paulo superou o Santos no clássico das quartas e encararia o Grêmio, time de melhor campanha, que reverteu a derrota no Parque Antárctica para eliminar o Palmeiras no Olímpico. Diante da concorrência, os corintianos ainda seguiam desacreditados, apesar da motivação.

O embate contra o Bahia guardaria um encontro especial para Nelsinho. O treinador do Tricolor era Candinho, importante à carreira do antigo lateral. Candinho havia comandado Nelsinho no Juventus da Mooca e o indicou para iniciar sua trajetória à beira do campo no São Bento de Sorocaba. O comandante do Corinthians, ainda assim, refutava o discurso de “mestre e aprendiz”. A principal referência da equipe baiana era o centroavante Charles Fabian, que costumava frequentar as convocações da seleção brasileira naqueles tempos. O meia Luís Henrique era outro incluído nas listas de Falcão. Paulo Rodrigues, nome importante na conquista de 1988, fechava o meio-campo. Também merecia destaque o volante Wagner Basílio, autor de dois gols de falta contra o Bragantino.

Neto cobra falta contra o Bahia (Foto: Ricardo Correa / Corinthians)

Diante das suspensões de Jacenir e Dinei, o Corinthians teria Wilson Mano na lateral e mais uma vez Paulo Sérgio no ataque. As boas notícias, de qualquer forma, estavam nos retornos de Márcio e Neto. O camisa 10 focava em sua preparação, especialmente nos treinos específicos de cobranças de falta para se afiar ao desafio. “Eu não posso prometer nada. Nunca fiz isso. Mas se sobrar uma chance e eu estiver bem na partida, quem sabe, possa fazer um golzinho de falta. Se eu não estiver legal no jogo, não vou bater bem. A cabeça tem que funcionar, é sempre assim. Nos últimos dias, já bati mais de 500 faltas nos treinos. Só ontem foram 180”, contou, à Folha.

Sob grandes expectativas, a partida teve 40 mil pagantes no Pacaembu e ainda uma multidão que ficou sem ingresso na Praça Charles Miller. Por conta do congestionamento ao redor do estádio, o Bahia teve que fazer parte do trajeto a pé, no meio da multidão e sob chuva. O lateral Maílson e um dirigente tricolor foram atingidos por pedras. Vicente Matheus pediu desculpas pelo incidente a Paulo Maracajá, presidente baiano – chamado de Paulo “Maracujá” pelo folclórico mandatário corintiano, em mais uma de suas famosas anedotas. O ex-lateral Wladimir, que administrava o estádio na época, chegou a afirmar que os corintianos deveriam ter realizado o jogo no Morumbi para comportar melhor o público.

O filme da primeira partida contra o Atlético Mineiro se repetiu no Pacaembu, com a vitória do Corinthians por 2 a 1 saindo de virada. O Bahia abriu a contagem logo aos dois minutos, numa potente cobrança de falta de Wagner Basílio. O tricolor mirou o canto de Ronaldo, que não pegou o tiro rasteiro. A resposta corintiana não tardaria desta vez. O time partiu para a pressão e conseguiu o empate aos 12. Primeiro, Neto cobrou uma falta e Chico fez uma defesaça, espalmando no ângulo. Os alvinegros ganharam escanteio que Neto bateu, Giba escorou no segundo pau e Paulo Rodrigues acabou mandando contra as próprias redes. O primeiro tempo seguiu aberto. Ronaldo realizou duas grandes defesas para salvar o Corinthians, mas Paulo Sérgio também acertou o travessão do outro lado.

Na volta ao segundo tempo, Ronaldo precisou operar outro milagre. Após cobrança de falta, Charles apareceu sozinho na área para cabecear e o goleiro fez uma defesa monumental com o pé. No entanto, o Corinthians adiantou a marcação e passou a dominar o jogo. Chico também salvou o Bahia pouco depois, com duas belas defesas em sequência diante de Mauro e Fabinho. O heroísmo caberia a Neto, da maneira como gostava, cobrando falta. O camisa 10 já tinha exigido uma intervenção difícil de Chico pouco antes, até virar aos 18. Tupãzinho sofreu falta pelo lado direito da área e Neto nem cobrou tão bem. Entretanto, o quique da bola enganou Chico e o tento saiu. O Corinthians ainda criou oportunidades para anotar o terceiro, mas a defesa baiana acabou se safando. De novo, os alvinegros saíam com a vantagem do empate para a segunda partida.

Neto tinha um motivo a mais para buscar os gols naquele Brasileirão. O camisa 10 havia assinado com a Firula, uma marca de artigos esportivos que estava tentando entrar no mercado. Neto recebia um cheque a cada tento, como retribuição por ser o garoto-propaganda dos produtos, enquanto os demais jogadores do Corinthians também deveriam ganhar uma retribuição em caso de título. O detalhe é que, embora usasse os produtos da Firula do lado de fora de campo, o meia usava chuteiras Adidas durante as partidas. Sem contrato, porém, Neto costumava pintar de preto as tradicionais listras presentes no calçado da empresa alemã.

Mais de 64 mil torcedores lotaram a Fonte Nova para apoiar a reação do Bahia, mas de novo o Corinthians fez ótimo trabalho para segurar o empate por 0 a 0 e avançar à final. O primeiro tempo não trouxe grandes perigos para os alvinegros, com a defesa protegendo bem a área e também dando sorte em alguns lances. Naldinho era quem mais causava alvoroço, pela ponta direita, mas as jogadas não tinham continuidade e Ronaldo não precisou fazer defesas difíceis. Além disso, Charles era muito bem acompanhado pela marcação individual de Marcelo Djian. Os corintianos atacavam menos, mas ainda assim poderiam ter aberto o placar com Paulo Sérgio, parando em grande defesa do goleiro Chico.

No segundo tempo, Nelsinho resolveu fechar ainda mais a defesa. Wilson Mano não vinha dando conta da marcação de Naldinho na lateral esquerda e, por isso, Jacenir passou a ocupar a posição. Mano foi deslocado ao meio e quem saiu foi Neto, que tinha sentido lesão e fazia uma partida morna até então. Assim, o Corinthians conteve mais os espaços do Tricolor e fez com que os adversários se limitassem aos cruzamentos, facilmente repelidos pela defesa alvinegra. Guinei, em especial, mandava na área pelo alto. O único susto aconteceu em uma saída errada de Ronaldo. Ainda assim, os corintianos chegavam com mais perigo nos contra-ataques e deram a impressão de que até poderiam ter vencido. Numa tabela sensacional com Tupãzinho, Fabinho ficou de frente para o gol, mas Chico salvou o tento nos pés do ponta direita. Nada que fizesse falta.

Àquela altura, o Corinthians sabia que encararia o Majestoso na final. O São Paulo eliminou o Grêmio, time de melhor campanha, com uma dose de pragmatismo. Depois da vitória por 2 a 0 no Morumbi, com dois gols de Raí, Telê Santana (que havia assumido o comando no início do segundo turno) preferiu fechar seu time e jogar nos contra-ataques dentro do Olímpico. Apesar da vitória gremista por 1 a 0, os são-paulinos se confirmaram na decisão. E apesar de alguns questionarem se o Corinthians preferia jogar no Pacaembu, sua casa na campanha, Nelsinho deixava claro que queria o máximo de gente possível nas arquibancadas: “Prefiro que os dois jogos sejam no Morumbi. Estamos disputando um título inédito e nossa torcida merece um grande espetáculo”.

Com o clássico definido, as provocações começaram através da imprensa. O volante Bernardo afirmou que Neto “deveria se preparar melhor fisicamente para correr mais do que vem correndo”. Já no Corinthians, havia certa preocupação com as condições físicas do camisa 10, com dores na panturrilha esquerda. O meia admitia que o time melhorou com sua saída na Fonte Nova, mas não queria perder nenhum dos jogos finais contra o São Paulo. “Se ganharmos o primeiro jogo, isso significa 60% de chance de título. O mais importante é começar com uma vitória e reverter a vantagem do São Paulo, de dois empates, para o segundo jogo”, afirmava Neto.

O São Paulo vinha de uma reviravolta na temporada. Depois da má campanha no Paulista, chegou a ocupar a lanterna no Brasileiro, mas cresceu no segundo turno. Telê Santana era a chave do sucesso, botando ordem na casa e conseguindo fazer jogar uma equipe cheia de jovens. E o Tricolor vinha com time completo para a final, já com parte da base que se consagraria nos anos seguintes. Zetti era o goleiro, com Cafu e Leonardo nas laterais, além de Antônio Carlos e Ivan no miolo de zaga. Ricardo Rocha, o mais experiente à disposição da linha defensiva, estava retornando de lesão e Telê preferiu não arriscar sua volta depois de muito tempo sem jogar. O meio contava com o trio formado por Flávio, Bernardo e o craque Raí, mais solto para se somar ao ataque. Já na frente, enquanto Mário Tilico e Elivélton garantiam velocidade nas pontas, Eliel era o centroavante.

O Corinthians tinha o desfalque de Paulo Sérgio. O atacante era um dos melhores do time nos mata-matas, mas recebeu o terceiro cartão amarelo na Fonte Nova. O substituto natural seria Dinei, mas Nelsinho preferiu experimentar outro esquema no Morumbi – e consagraria a escalação campeã. A defesa vinha completa com Ronaldo, Giba, Marcelo, Guinei e Jacenir. Márcio teria a companhia de Wilson Mano na cabeça de área. Fabinho e Mauro abririam pelos lados. Já na frente, o treinador resolveu liberar Neto para jogar como atacante, enquanto Tupãzinho o acompanhava para fazer a ligação e buscava a bola mais atrás.

O Corinthians campeão começou a se afirmar desde a primeira partida da decisão. A vitória por 1 a 0 acabou sendo magra, para superioridade alvinegra naquela noite no Morumbi, diante de 85 mil pagantes. E o resultado começou a ser moldado logo cedo, com o tento decisivo saindo antes dos cinco minutos. Em uma cobrança de falta pela esquerda, Neto levantou a bola na área. Wilson Mano passou por trás de Fabinho e se infiltrou na defesa, livre. Apareceu sozinho para desviar de joelho na pequena área, sem qualquer chance a Zetti. O coringa, tão importante àquela campanha, se provava também um talismã: era o seu segundo gol em finais pelo Corinthians, após já ter balançado as redes no primeiro duelo contra o Guarani na decisão do Paulistão de 1988.

Com a desvantagem, o São Paulo se desestabilizou. A equipe de Telê Santana levou um tempo até recobrar os sentidos e pressionar mais a defesa rival. O Corinthians, em compensação, também não aproveitou o momento através dos lançamentos de Neto forçando os avanços de Fabinho e Mauro. Os alvinegros arriscavam muitos chutes de fora da área, sem direção, e Fabinho parou em Zetti num contra-ataque no qual invadiu a área com espaço. O Tricolor só responderia com o passar dos minutos, dominando a posse de bola, mas travado pela zaga corintiana dentro da área. Sempre que os são-paulinos tentavam finalizar, aparecia um adversário para abafar a bola. Somente no fim do primeiro tempo houve mais brechas num ataque rápido. Mário Tilico cruzou da linha de fundo e Eliel estava livre no segundo pau, mas cabeceou para fora.

Na volta ao segundo tempo, o São Paulo tentou intensificar a pressão. Viu o Corinthians ter a chance de abrir uma goleada nos contra-ataques, mas Neto desperdiçou três lances excelentes. A primeira jogada foi iniciada por um lindo lançamento de Tupãzinho a Mauro, aberto na esquerda. O ponta cruzou e Ivan furou, permitindo que Neto dominasse sozinho. O camisa 10 demorou a definir a jogada e bateu para fora, quando Zetti saía em seus pés. Logo na sequência, depois de um chutão da defesa, Neto forçou mais um erro de Ivan e ficou cara a cara com Zetti, mas o goleiro fez ótima defesa no chute rasteiro. E depois cabecearia para fora um cruzamento perfeito de Fabinho, atrapalhado por Tupãzinho na hora de concluir.

Durante a meia hora final, o jogo ficou mais arrastado. O São Paulo insistia nos chuveirinhos, sem resultado, mas o Corinthians também não tinha muita saída e assustava mais quando podia levantar a bola para a área. Márcio precisou sair com uma lesão, substituído por Ezequiel, enquanto Marcos Roberto ainda entrou no lugar de Fabinho. Já no Tricolor, a tentativa de Telê foi colocar Alcindo no lugar de Tilico, o que não ajudou muito. Na saída de campo, os jogadores corintianos ressaltavam o espírito de luta e o preparo físico. Já os são-paulinos, insatisfeitos, apontavam que os rivais poderiam até ter vencido por uma margem maior. Telê também não economizou no tom, dizendo que “por ser um time novo, alguns sentiram a decisão”.

Às vésperas da finalíssima, Neto deu uma entrevista à Folha em que indicava ter consciência do peso histórico daquela final. “É difícil dizer o que significa um título brasileiro para o Corinthians. Eu sei que é uma coisa que nunca aconteceu aqui. Mas tenho noção que vai ser uma coisa histórica”, declarou Neto. “Eu tenho medo é de não ganhar o título, porque é uma oportunidade muito boa na minha vida. Algo que jamais vou esquecer. Se eu conseguir levar o Corinthians a ser campeão brasileiro, não sei o que vai acontecer. Os corintianos jamais vão esquecer e eu também”.

Além disso, Neto fazia uma leitura interessante sobre o trabalho de Nelsinho: “O Nelsinho é um cara jovem, parou de jogar há pouco tempo e ele sabe lidar com os jogadores. Não é aquele treinador ditador. Sabe dar as duras no momento certo, onde todo mundo fica quieto, de cabeça baixa. Deu padrão de jogo para nós. Uma coisa importante também foi o condicionamento físico que o Flávio [Trevisan] implantou. Nós estamos no fim do ano e a equipe não caiu de rendimento”.

Apesar das críticas, Telê Santana manteve a mesma escalação do São Paulo para o segundo jogo. Nelsinho também repetiu o time do Corinthians, mesmo com a volta de Paulo Sérgio e as dúvidas sobre as condições físicas de Márcio. Os corintianos foram maioria entre os mais de 100 mil presentes nas arquibancadas do Morumbi, com centenas de bandeiras para enfeitar o estádio. E viram, enfim, o Timão se consagrar com a primeira taça nacional de sua história, repetindo a vitória por 1 a 0 sobre os tricolores.

O primeiro tempo seria tecnicamente fraco, com a pressão incessante do São Paulo, mas poucos perigos concretos. O Corinthians não economizava nas faltas e derrubava os jogadores tricolores sempre que preciso nos arredores de sua área.A cobrança mais perigosa foi de Ivan, num tiro rasante que passou ao lado da trave de Ronaldo. Mesmo com alguns cochilos, a zaga alvinegra conseguia cumprir sua missão. Quem dava um pouco mais de susto entre os são-paulinos era Mário Tilico, sempre rápido pela direita, mas os cruzamentos não tinham continuidade. Do lado corintiano, se via pouca efetividade no ataque. A equipe também não conseguiu testar Zetti, com raras chegadas. Quando os alvinegros tentavam partir em velocidade, a defesa adversária se recuperava. Acuado, o time de Nelsinho parecia propenso a entregar o gol. Por isso, o intervalo veio como um alívio, para que os corintianos mudassem de atitude.

Tupãzinho e o gol do título (Foto: João Santos / Corinthians)

No início do segundo tempo, o Corinthians entrou com outro espírito e correspondeu. Encontrava mais espaços para atacar em velocidade e deixou de se amedrontar diante do abafa. Foi desta maneira que saiu o gol da vitória, aos nove minutos, numa combinação excelente entre Tupãzinho e Fabinho. Depois do passe de Neto, a tabela aconteceu pela direita, onde Fabinho deu uma excelente enfiada e Tupã pegou a zaga do São Paulo bagunçada. O camisa 7 aplicou uma caneta em Ivan e tocou de volta para Fabinho, de frente para o gol. Cafu conseguiu bloquear o chute, mas a sobra ficou viva na pequena área e Tupãzinho entrou rasgando para fazer de carrinho. Era a consagração do talismã de 22 anos. Curiosamente, o ex-jogador do São Bento era cotado pelos tricolores, mas ele recusou a oferta são-paulina quando o Corinthians demonstrou interesse por ele e por Guinei, justificando ser torcedor alvinegro desde a infância. Seu sonho de criança estava realizado.

O restante da partida seria muito pegado. Houve trocas de agressões, com Márcio acertando Raí e depois tomando o revide de Bernardo. Aos 14, Bernardo e Wilson Mano foram expulsos ao trocarem safanões. O São Paulo seguia desesperado em busca do gol, mas não encontrava espaços para chutar. A defesa do Corinthians sempre chegava firme nas divididas e até houve reclamação de um pênalti sobre Eliel, que a arbitragem ignorou.

Neto saiu para Ezequiel dar mais combatividade ao meio, enquanto Paulo Sérgio entrou no lugar de Mauro. O garoto quase anotou o segundo, completando para fora um cruzamento de Tupãzinho, e Fabinho também assustou num chute da entrada da área. Os tricolores não fizeram muito além, com Ronaldo mais exigido em suas saídas de gol para interceptar os cruzamentos. Telê foi mal nas alterações, tirando o ponta Mário Tilico para a entrada do lateral Zé Teodoro (adiantando Cafu) e sacando o capitão Raí, em aposta por Marcelo Conti. Com o duelo travado no fim e os são-paulinos longe de anotar os dois gols necessários, o apito final culminou em uma apoteose no gramado do Morumbi. Houve uma massiva invasão de torcedores corintianos no campo, carregando nos braços muitos dos heróis do título.

Tupãzinho foi o nome daquela final, não apenas pelo tormento que causou na zaga do São Paulo, mas também por toda a aplicação durante a partida e por provocar os marcadores. Márcio Bittencourt foi outro destaque no meio-campo, sem desgrudar de Raí, mesmo sem estar nas melhores condições. Deixou o campo com a camisa ensanguentada. Já na zaga, Marcelo Djian fez outra senhora exibição, com muita segurança e firmeza – compensando certos descuidos de Guinei ao lado. Junto ao goleiro Ronaldo, o beque foi um dos únicos corintianos a entrar na seleção da Bola de Prata escolhida pela revista Placar – o Bragantino, com quatro representantes, foi o clube mais presente no time ideal e o santista César Sampaio levou a Bola de Ouro.

Depois da partida, muitos jogadores do Corinthians desabafavam, após meses de críticas à equipe por suas limitações. Mandavam engolir o “timinho”. Neto projetava o clube já em Tóquio, mirando a conquista da Libertadores. Mas dividia os méritos com os companheiros, especialmente ao elogiar Tupãzinho: “Ele merecia o gol. É um jogador que batalhou muito. Veio de um time pequeno e batalhou bastante. Espero encontrá-lo agora na Seleção. Os méritos não são meus, mas de todos. Antes do Nelsinho chegar, o Corinthians era um time limitado”.

Já Nelsinho, à Folha, ressaltava a reviravolta ocorrida entre o primeiro tempo difícil e o segundo tempo soberano. “No intervalo, não falei de técnica, de tática, de nada. Conversamos apenas sobre garra. Quando você não está bem tecnicamente, tem que ir à luta. No segundo tempo, o time foi o Corinthians que nós planejamos e provou mais uma vez que é forte em decisão. Um time que reverte três vezes a vantagem do empate do adversário, não deixa dúvidas de que é o legítimo campeão. Essa foi a vitória de um trabalho humilde, aceito pelo grupo. Uma vitória da aplicação dos jogadores. Sou apenas um técnico que teve apoio em um grande clube. Chegamos no Corinthians até meio desacreditados. Na verdade, eu mesmo não acreditava muito no começo, já que tinha bastante coisa para fazer. Mas os jogadores assimilaram o que eu queria. Foi um trabalho muito grande, que chegou a um final feliz”.

O sucesso daquele Corinthians não perduraria muito. O único título em 1991 foi a Supercopa do Brasil, derrotando o Flamengo. O time caiu nas oitavas da Libertadores para o Boca Juniors, não passou aos mata-matas do Brasileiro por causa do saldo de gols (com o número de classificados reduzido a quatro) e acabou com o vice do Paulista, em final perdida contra o São Paulo. Àquela altura, Nelsinho tinha deixado o comando para Cilinho, enquanto Neto cumpria suspensão pela infame cusparada no rosto do árbitro José Aparecido de Oliveira. Levou bem mais tempo para que os corintianos realmente emendassem conquistas daquela magnitude. Ainda assim, nada diminui o valor daquele Brasileirão de 1990. O ineditismo fica para sempre, especialmente pela maneira como a equipe se superou, numa campanha que tanto representa à história alvinegra.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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